Cenário: interior de Igreja. Paco (40 anos, envergando uniforme de oficial republicano espanhol) chama:
Paco – Señor cura, señor cura!
O Padre Inocêncio (50 anos, envergando batina) surge lá de dentro, da sacristia. Pergunta, começa o diálogo:
Padre Inocêncio – Quem me chama?
Paco – Yo. Necesito hablar con usted.
Padre Inocêncio – O que faz você aqui? Estamos em novembro de 1938 e os espanhóis não param de se matar uns aos outros. Todos os dias cadáveres e mais cadáveres lançados ao Tejo. Nós aqui, em Penhasco, bem vemos isso.
PACO – ¿Al Tajo? Solamente los rojos fusilados.
PADRE INOCÊNCIO – Vermelhos ou outros não importa, são homens. E acabou a conversa. Isto aqui é uma Igreja, só trata da salvação das almas.
Paco – Por eso estoy llamando, yo quiero salvar a mi alma.
O Padre Inocêncio hesita mas lá se decide:
Padre Inocêncio – Como te chamas?
Paco – Paco.
Padre Inocêncio – Eu sou Inocêncio, o Padre Inocêncio. Então, Paco, explica-te lá.
Paco – Señor cura, he sido un rojo y ahora van a fusilarme. Pero antes quiero quedarme bien con Dios, quiero confesar mis pecados, quiero convertirme.
Padre Inocêncio – Por que não te convertes em Espanha?
Paco – Solo en Portugal es posible la conversión. En España los rojos son de inmediato fusilados – no hay tiempo para conversiones.
O Padre Inocêncio, perturbado, respira fundo e chama Paco para junto de si.
Paco ajoelha-se a seus pés e começa o ritual de conversão. O Padre Inocêncio diz e manda que Paco repita.
Padre Inocêncio – Meu Deus, venho pedir perdão de meus pecados.
Paco (com dificuldades em falar português) – Meu Deus, venho pedir perdão de meus pecados.
Padre Inocêncio – Imploro vossa Misericórdia e vossa Graça para fazer uma boa confissão.
Paco – Imploro vossa Misericórdia e vossa Graça para fazer uma boa confissão.
Padre Inocêncio – Enviai-me o Espírito Santo para conhecer quanto pequei, as suas causas e os meios de os evitar. Amen.
Paco – Enviai-me o Espírito Santo para conhecer quanto pequei, as suas causas e os meios de os evitar. Amém.
Padre Inocêncio benze Paco e continua:
Padre Inocêncio – E vamos ao acto de contrição.
Nova ladainha dita pelo Padre e repetida por Paco que continua ajoelhado:
Padre Inocêncio – Meu Jesus, Crucificado por minha culpa, estou muito arrependido de ter pecado…
Paco – Meu Jesus, Crucificado por minha culpa, estou muito arrependido de ter pecado…
Padre Inocêncio – … pois ofendi a Vós, que sois tão bom, e mereci ser castigado neste mundo e no outro.
Paco – … pois ofendi a Vós, que sois tão bom, e mereci ser castigado neste mundo e no outro.
Padre Inocêncio – Mas perdoai-me, Senhor, não quero mais pecar.
Paco – Mas perdoai-me, Senhor, não quero mais pecar.
O Padre Inocêncio aproxima um Crucifixo de Paco e este beija o Crucifixo. O Padre Inocêncio volta a benzer Paco e diz:
Padre Inocêncio – Que Deus omnipotente se compadeça de vós e, perdoando os vossos pecados, vos conduza à vida eterna.
Terminado este ritual, Paco levanta-se, despede-se:
Paco – Muchas gracias, señor cura. Ahora me marcho.
Padre Inocêncio – Para onde?
Paco – Para España.
Padre Inocêncio – Tu és louco? Vais ser fuzilado…
Paco – Yo lo sé, es mi destino. Pero ahora, estando a bien con Dios, me voy a morir tranquilo. La Guardia Civil Portuguesa no necesita encarcelarme. Yo me voy voluntariamente para España.
Padre Inocêncio impede a saída de Paco, tapa a porta com o corpo.
Padre Inocêncio – Não, não, tu não vais. Não deixamos que um convertido, um novo fiel, seja morto assim sem mais nem menos. Nem eu, nem o povo do Penhasco. Tira e queima esse uniforme, já te arranjo outras roupas. Vou mudar o teu nome para Chico. Quando a GNR passar por aqui, se fingires que és mudo, até faço de ti o meu novo sacristão. O que achas?
Paco tapa a boca com a mão direita e abana afirmativamente a cabeça.