A corrupção planetária : um não-acontecimento – por Chems Eddine CHITOUR I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

 Dedico esta peça ao meu amigo ML, médico de larga reputação na cidade de Coimbra, um homem de direita, um conservador, com quem discuti alguns dos pontos aqui tratados e desenvolvidos no texto de Chems Eddine CHITOUR.

Nada une este autor ao meu amigo que seguramente o desconhece, mas o curioso foi de que à mesa de café, neste domingo, ML expunha os seus pontos de vista que no diz respeito à corrupção e à falta de limites para a mesma, de modo praticamente equivalente. A lição a tirar desta situação é simples: para haver pontos de encontro, para haver saídas seja para o que for de importante colectivamente, a condição fundamental não é ser-se de direita ou de esquerda, é ser-se sério .

Coimbra,11 de Abril de 2016

Júlio Marques Mota

 

Acorrupção planetária : um não- acontecimento

Chems Eddine CHITOUR

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La corruption planétaire : un non-événement

 

Chems Eddine Chitour, professor na Escola Politécnica de Argel

“As santas almas têm dificuldade em acreditar no mal, na ingratidão, precisam de duras provas antes de reconhecer a extensão da corrupção humana.” Honoré de Balzac “Ilusões perdidas”

“Os provérbios que vê nas paredes desta sala de aulas correspondem talvez a uma realidade já desaparecida … agora dir-se-ia que eles só servem ​​para lançar a multidão no caminho errado, enquanto os salteadores repartem a presa . “Topaz

Uma imagem, na aparência! Um grupo de jornalistas que se auto-proclamam defensores da viúva e do órfão, ou seja, contra a corrupção. O Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) dá em forma de pasto 11 milhões de ficheiros dos arquivos da empresa Mossack Fonseca do Panamá . Estes dados correspondem a actividades desenvolvidas entre 1977 e 2015. Eles mostram que os chefes de estado, os multimilionários, os grandes patrões, grandes figuras do desporto, da cultura, da economia, recorrem, com a ajuda de alguns bancos, a montagens financeiras para esconder os seus activos .

Em cada país onde a liberdade não é uma palavra vazia, os infractores são sujeitos a condenações publicas e judiciais. Este é o caso admirável de Islândia. Como é que, de facto, num pequeno país de 300.000 pessoas, 20.000 estão-se a mobilizar para exigir a renúncia do primeiro-ministro? É talvez isto a força da democracia e da liberdade porque, em todas as latitudes e em diferentes graus, a corrupção está instalada porque está na essência da natureza humana nunca estar satisfeito da sua condição e portanto pronto a ultrapassar o fio vermelho da moral do bem comum … Todavia, nos países onde a liberdade não existe, a impunidade dos infractores é o principal factor de instabilidade, da má vida e do adiar para as calendas gregas a colocação do país no caminho certo.

“Os factos descritos pelos media nacionais e internacionais sob o título ” Panamá papers “serão investigados”, disse o promotor do país segunda-feira, 4 Abril. Vários países lançaram investigações sobre a lavagem de dinheiro, depois da publicação dos primeiros elementos dos documentos da empresa Mossack Fonseca. Este disse no domingo que estas revelações foram um “crime” e um “ataque” contra o Panamá, regularmente acusado de ser um paraíso fiscal, posição esta que as autoridades contestam. O governo do Panamá assegurou que “irá vigorosamente cooperar” com a justiça. Os ” Panamá papers ” revelam “que, além de milhares de anónimos, muitos chefes de estado, multimilionários, grandes nomes dos desportos, celebridades ou personalidades no âmbito das sanções internacionais recorreram a utilização do sistema offshore para esconderem os seus activos “. (1)

Que organizou a fuga de informação (2) ?

Está-se no direito de saber porque é que essas revelações são de geometria variável? Como o sublinha o site ZeroHedge, “não há um só nome de famílias americanas de destaque, enquanto o nome de Putin (através de alguns membros de sua comitiva) é citado no topo da lista dos dados publicados pela monitorização dos media ocidentais, seguido de perto pelo presidente chinês Xi Jinping e pelo ex-presidente do Brasil Lula … e quando nos interessamos com mais atenção sobre o ICIJ, o consórcio internacional de jornalistas de investigação “que coordenou os ficheiros de análise , vemos que entre os seus apoiantes no “financiamento” estão nomes como a Open Society de George Soros e USAID, duas dessas organizações que encontramos por trás de cada “revolução colorida”, patrocinada pelo império … “

“Onde estão os americanos? pergunta o site Sputnik. A recente fuga de dados sobre os activos ocultos dos líderes políticos mundiais, o que causou uma onda de impacto mediático, não tem nada a ver com nenhum alto funcionário dos EUA. (…) A ausência de cidadãos norte-americanos de nomes da lista pode ser explicada talvez pelo fato de que os americanos não estão dispostos a manter os seus ganhos adquiridos ilegalmente no Panamá em 2010, depois da conclusão de um acordo entre os dois Estados que pôs fim às tentativas dos americanos ricos para encontrar um paraíso fiscal no país. No entanto, continua a ser possível que os nomes americanos venham à superfície nos documentos de Mossack Fonseca, desde que os Estados Unidos não estejam por detrás da fuga de tais informações. É curioso que o indivíduo que apresentou à imprensa os dados em questão no Zeitung Süddeutsche se intitulou como John Doe “. (3)

Os ” Panamá Papers ” são um meio ideal de chantagem

Correndo o risco de ser tratado de adepto da teoria da conspiração, devemos saber tudo o que isso significa, não para proteger os infractores que são, em teoria, responsáveis, mas temos o direito de perguntar quem está por trás de tudo isto e o que isto significa em termos de agenda política.

“No caso dos” Panamá Papers ” não é nem para o dedo nem para a lua que se deve olhar, mas sim para o próprio sábio e tentar descobrir porque é que ele aponta para a Lua.1 Quando um sujeito corrupto nos aponta para um mundo corrupto em jeito de condenação e que disso se exclui ele próprio há então algo de muito suspeito nisso. (…) Já há 16 meses, Ken Silverstein publicou um relatório sobre o vício a propósito de Mossak Fonseca, um grande corrupto fornecedor de empresas de fachada no Panamá . (Intercept de Pierre Omidyar, para o qual Silverstein estava a trabalhar, tinha recusado publicar essa reportagem.) Yves Smith publicou longos artigos sobre o negócio de branqueamento de capitais de Mossak Fonseca ” (4).

O site Moon of Alabama questionou-se sobre a natureza do site que publica os Panamá Papers e das suas relações e acredita detectar um enviesamento tanto mais condenável quanto essas denúncias são de geometria variável. Escusado será reconstruir a génese da “manipulação”.

Lemos: ” Há um ano que alguém forneceu toneladas de dados sobre Mossak Fonseca a um jornal alemão, o Süddeutsche Zeitung politicamente um jornal de direita e resolutamente pro NATO. O Süddeutsche diz que os dados se referem a 214.000 empresas fictícias e 14.000 clientes de Mossak Fonseca. Quantos senadores dos EUA estão envolvidos nessas sociedades? Quantos políticos da União Europeia? Quais são os grandes bancos de Wall Street e dos hedge funds que se escondem no Panamá? O Süddeutsche e os seus parceiros não respondem a estas perguntas. (…) A “vítima”, a mais política até à data, é o primeiro-ministro da Islândia Sigmundur David Gunnlaugsson que com sua esposa, tinha empresas fictícias “.

O site continua a sua análise: “A filtragem destas informações de Mossack Fonseca pelos media empresariais segue uma agenda do governo ocidental, directamente. A fuga é gerida pelo “Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação”, que é totalmente financiado e organizado pelo Centro Americano para a Integridade Pública. Os seus financiadores incluem a Fundação Ford, Carnegie Endowment, Fundo da família Rockefeller, WK Kellogg Foundation, Fundação Open Society (Soros), o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ). Devemos adicionar o site sobre o projecto de declaração Corrupção (OCCRP), que é financiado pelo Governo dos EUA através da USAID. A ” fuga” é pois de dados seleccionados pela organização americana sobre uma base de dados, possivelmente obtidos pelos serviços secretos norte-americanos “.

Compreende-se melhor então como é que outras informações foram destiladas contra Assad de que se diz que uma sociedade ecrã permitiu à Síria comprar combustível para os seus aviões. Aí se acrescenta igualmente a Coreia do Sul da qual se diz que uma outra sociedade ecrã se permitiu através da compra de peças proibidas, sob embargo, lançar um foguetão ultimamente. Se não se encontrar o nome na primeira linha de Putin, não há nenhum pânico pois Putin é citado através dos seus amigos. Se não és tu o corrupto pode ser por conseguinte o teu irmão, é o que nos diz o site. É verdade que não se recenseia pelo momento nenhum nome de um líder de um país americano ou europeu. A menos que haja novas divulgações, ser-se-á obrigado a admitir que deste lado só há santos e que todas estas santas almas são exemplos a seguir.

A comédia humana e o reino do dinheiro

Está na natureza das coisas que o homem seja corruptível para além dos fios vermelhos intrínsecos devidos nomeadamente à educação, ao respeito do bem comum e ao que se pode atribuir à religião que traz, para além do suplemento de alma, um código de moral suplementar, e continua a ser evidente que as morais à antiga já não funcionam . Recordo-me de todas as belas máximas que colocávamos nas paredes das nossas salas de aula e que repetíamos sem demasiada convicção: “Dinheiro mal ganho, água o deu, água o levou”, “Mais vale Boa fama do que uma boa cama ”.

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Para ilustrar esta derrota do mundo tão bem descrita efectivamente por Dany Robert Dufour em “Le divin marché”, quero propor aos leitores (as) um exemplo de mutação sociológica do indivíduo na pessoa de Topaze, personagem de uma peça de teatro de Marcel Pagnol escrita em 1928, apenas alguns depois do famoso escândalo de Panam, – há cerca de quase um século e também nas vésperas da Grande Depressão de 1929 cujas premissas eram visíveis. Topaze , um modesto professor que acredita na virtude dos princípios, muito respeitador da hierarquia, é muito honesto, de uma forma quase mórbida. Sobre as paredes da sua sala de aulas vêem-se máximas sobre a honestidade que ele ensina nas aulas de moral. Preocupa-se com o que as pessoas pensam dele e procura sempre merecer a consideração dos seus alunos. Resumidamente, pode-se descrevê-lo como um personagem boa, leal e inocente. É um puro. Para ele, há apenas um princípio que conta para se tornar um homem respeitável: a honestidade, mas aprenderá muito cedo que nem todos pensam como ele”.

Esta atmosfera, na pensão Muche onde ensina, não durará muito. Um dia, a baronesa Pitard-Vergnolles exige de Topaze que ele reveja as más notas atribuídas ao cábula do seu filho : naturalmente, o heróico professor, seguro nas suas botas e na sua razão, não cede. Recusa e Muche, temendo perder uma cliente, despede-o. Ele é imediatamente reposto pelo pai Muche. Para se desembaraçar do problema dá aulas suplementares ao filho de Suzanne Courtois, senhora de um conselheiro municipal corrupto, Castel Benac que o “utilizará ” para assinar os contratos em seu lugar, com um falso nome, e Topaze, ganha doravante muito dinheiro; concede-se-lhe mesmo as palmas académicas que ele tinha tanto desejado ao longo de toda a sua carreira no ensino, mas ele é infeliz: “ Já não sou um homem honesto ”. Portanto, apercebe-se muito rapidamente que tudo se compra. Então, com os seus princípios morais escarnecidos, Topaze, cínico, por sua vez desembaraça-se de Castel-Vernac. Em nome dos seus novos preceitos – “o desprezo pelos velhos provérbios, é o começo da sabedoria “ou “para ganhar dinheiro, é bem necessário tirá-lo a alguém “ ou “o dinheiro tudo pode ” (5).

Gradualmente, Topaze o ganha coragem e chega a trabalhar sozinho sem estar a ser dirigido. Nesse momento, nasce pois um segundo Topaze em que ele muda totalmente quer física quer psicologicamente. De ingénuo professor ficou e passou agora a ser um manipulador dominador e dominante que faz negócios por sua própria conta. Agora tem o poder do dinheiro, e faz com que a força governe o mundo. É então que Tamisa o seu antigo colega vem vê-lo e descobre a metamorfose. Topaze, seguro de si-mesmo, faz-lhe descobrir a catequese da realidade: “Mesmo na pré-história, diz, as mulheres seguiam os que tinham o maior beafteck” “O dinheiro não traz felicidade, mas fica-se sempre contente em o ter. ” O filme com Fernandel é um regalo (6).

 

(continua)

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