A GALIZA COMO TAREFA – mimetismos – Ernesto V. Souza

Coleção Museu do Povo Galego – Santiago de Compostela

Hoje por hoje e pela mão dos estudos pós-coloniais, as ideias principais de Homi K. Bhabha ocupam um lugar central e explicam, no imaginário das literaturas em espaços conflituosos, os mais dos conceitos como pugnas ou fases de pugnas entre visões fortemente ideologizadas promovidas pelo poder e pelos contra-poderes.

Bhabha, partindo da obra de Edward W. Said, descreve a emergência de novas formas culturais desde ou na multiculturalidade. As noções ou a sequenciação de conceitos (hibridismo, ambivalência, estereotipo, mimetismo) giram arredor de uma ideia comum de ‘terceiro espaço’. Este espaço híbrido, mimético, confuso e estereotipado, que joga contra o dominante e se retira no espaço marcado do sentimental e que em termos galegos diríamos que “não é nem deixa de ser” ou que “está no meio da escada sem que se possa determinar se sobe ou desce”, aparece quando os mecanismos de poder não resolvem a tensão entre os poderes em pugna.

Este “estar de perfil” não proporciona um novo espaço identitário, nem constitui um novo poder, nem serve como espaço alternativo político, por mais que os praticantes nele, desde os mais baixos níveis da escada até os que se aproximam dos andares mais elevados, configurem um conjunto numeroso de muitas populações, relevantemente inseridos no comércio, na administração, na política, na cultura da metrópole e fazendo parte das elites locais.

Porém, é um espaço escorregadio, que pode chegar a se movimentar muito rápido em momentos de emoção coletiva, ou em função de complexos interesses ou reivindicações; e enquanto exista a impredizibilidade da pugna entre os poderes, entre os modelos identitários, culturais e linguísticos não está resolto.

É mais, o mimetismo trata-se de uma “astúcia”, uma “burla” para com o poder. Colonialismo e colonizados, confrontam em algumas sociedades uma difícil batalha simbólica, não entre iguais. Na “cultura” imperial- colonialista  Europeia e desde um discurso nacionalista o objetivo é a homogenização dos valores, língua e cultura de Estado.

As ferramentas do Estado, as leis do Estado, a educação do Estado, a cultura do estado, a memória do Estado, os espaços e símbolos do Estado, as Academias e instituições do Estado, a língua do estado… é difícil resistir ou confrontar diretamente.

Mas as estratégias desenhadas para submeter e esmagar o diferente, o contrário, não são úteis quando esse contrário dispõe de um espaço simbólico oculto (fortemente étnico e de fortes raízes) mas apresenta um espaço simbólico externo conciliador.

Mas a consciência do submetimento, e mesmo a evidenciação do necessário submetimento ao “outro”, distam muito de equivaler a submetimento, à aceitação das formas, dos discursos, dos espaços simbólicos impostos. Modificá-los, alterá-los, exagerá-los, ainda que seja um mínimo contribui poderosamente ao seu questionamento.

Quanto maior o espaço simbólico indefinido, mais difusos os limites, e mais difícil portanto a derrota de uma das partes. E no entanto uma cultura trata de fagocitar outra, uma desde o poder outra desde a resistência, o jogo reside aqui, dado que ambas finalmente são modificadas pela outra, curiosamente em quem possui afinal a maior capacidade para absorver elementos externos ou talvez simplesmente a maior consciência do tempo.

 

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