GIRO DO HORIZONTE – «BRASIL» – por Pedro de Pezarat Correia*

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* Argonauta, militar de Abril, oficial general do Exército Português

 

No Brasil, o golpe vai-se consumando. As pedaladas vão-se juntando e têm um sentido. A situação é confusa e, quando se assiste ao “espetáculo” do escrutínio na Câmara os Deputados, à sequência dos inflamados discursos que justificam o voto envolvidos por grupos de pressão favoráveis a uma das tendências, com as bancadas comportando-se como claques organizadas, apercebemo-nos que é um processo que é muito mais dominado pela emoção do que pela razão. Por isso mesmo facilmente manipulável. A presença central de um presidente Eduardo Cunha, que dirige os trabalhos num cenário de tensão que preparou, ele próprio indiciado em práticas de corrupção e evasão fiscal, é a imagem do golpe premeditado, organizado e em marcha. E o desfile dos deputados, daqueles deputados, justifica algumas perplexidades: será que eles são a real expressão da sociedade brasileira, das favelas e do sertão, do nordeste e da longínqua amazónia, dos sem-terra e da “senzala”, dos milhões da nova classe média que a política de Lula retirou da miséria e da marginalidade, ou antes de um Brasil retratado nas telenovelas e divulgado pelas grandes empresas dos “media”, que até parece estarem na génese do golpe?

Todo o processo do impeachment está inquinado. Não resisto a incluir um quadro que mão amiga me enviou e que revela a podridão em que está mergulhado.

 

Brasil - impeachment

Este quadro refere-se à comissão de 65 deputados da Câmara dos Deputados a quem coube o desencadeamento do processo de destituição, dos quais 37, mais de metade, estão eles próprios indiciados nas suspeitas de corrupção que o poder judicial tem em mãos. Dos 38 votos favoráveis ao impeachment 35 são de deputados indiciados.

A presidente Dilma não é acusada de qualquer crime, nem suspeita de qualquer envolvimento nas redes de corrupção. À espreita, aguardando o seu desfecho está o vice-presidente Michel Temer, do mesmo partido de Eduardo Cunha, também ele indiciado de corrupção, que traiu Dilma Rousseff e está pronto a abocanhar a presidência caso Dilma seja afastada. É todo um processo viciado por uma nebulosa teia em que a classe jurídica se envolve na política, a classe política se envolve nos negócios e a poderosa máquina mediática se envolve nos negócios e na política.

Há algo a que não posso deixar de ser sensível. Dilma foi uma guerrilheira contra a ditadura, esteve presa, bateu-se pela liberdade e pela democracia. Na classe política brasileira há ainda muitos que foram cúmplices da ditadura e que hoje invocam, hipocritamente, o seu apego a uma democracia que sempre desprezaram. Conhecemos bem isto, em Portugal. E que não perdoam aqueles que pela liberdade se bateram, porque a democracia ameaçava os seus privilégios de classe. Também isto conhecemos bem, em Portugal. Dilma e Lula e outros que os seguiram, podem ter cometido erros, certamente os cometeram, mas não é isso que as elites brasileiras não perdoam, porque de tais erros elas próprias não estão isentas. O que não perdoam e querem neutralizar definitivamente é a ameaça de que se concretize uma inversão da correlação de forças sociais que a primeira eleição de Lula anunciou e os seus mandatos apenas esboçaram. E, dizem vozes autorizadas do Brasil, o retorno de Lula à presidência perfilava-se no horizonte. É isto que estará nos objetivos finais do impeachment de Dila, atingir indiretamente a provável recandidatura de Lula.

 Tudo indica que o conflito social no Brasil se vai agravar podendo assumir contornos preocupantes com reflexos em dimensões mais vastas. Para já sabemos que o Brasil é pedra influente em dois contextos, decisivos no reajustamento que estava em curso depois do falhado projeto norte-americano, centro do império mundial gestor de um sistema unipolar. O primeiro é o contexto regional, o Mercosul, no qual também a Argentina, a Venezuela, a Bolívia, o Peru e o Equador, veem postas em causa as transformações que recentemente conheceram, com as quais procuravam constituir um bloco regional que contrariasse a permanente ambição de Washington de uma América para os norte-americanos. O segundo é global, o BRICS, Brasil Rússia, Índia, China e África do Sul, todos severamente atingidos pela crise mundial, pondo em causa o projeto de darem ao mundo uma caraterização mais multilateral. Para nós, portugueses, o Brasil é ainda importante como parceiro maior no espaço da lusofonia. A perda de poder de Brasília, neste vários tabuleiros do xadrez internacional, é mau. Para o Brasil, para Portugal, para o mundo.

Com problemas de segurança, do terrorismo, aqui à porta, temos tendência para desviar a atenção de outras paragens mais longínquas, mas que não nos devem preocupar menos. O problema é saber que Brasil nos interessa.

18 de abril de 2016

 

3 Comments

  1. Até quando,Catilina, abusarás da nossa paciência, acusando as ” elites” quando milhões de brasileiros demonstram nas ruas sua insatisfação? Depois de 13 anos de PT, “Quem subestimar a crise econômica será engolido por ela. O país vive um momento perigoso na economia, em que a recessão está destruindo receitas públicas e empregos…” ( – diz Miriam Leitão, economista que foi tão ou mais torturada do que Dilma durante a ditadura.) São 10 milhões de desempregados !. Os aposentados e os servidores não recebem seus salários. O sistema de saúde ao invés de salvar, deixa morrer nas filas e corredores dos hospitais…Nem vamos falar em zica, chicungunha, dengue e gripe H1N1… Mas o “ministro” da Saúde largou mais uma vez o cargo para votar!
    Dilma não teve – com todas as ofertas de cargos e dinheiro – mais do que 131 votos. E pretende “resistir” ao “golpe” ( Por favor, leia a Constituição!) além de propor novo “pacto”?

    Não é mais do que evidente que alguma coisa deve ao menos começar a mudar neste país infeliz?

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