A CRIAÇÃO DE MOEDA, BANCA E CRISES: UMA OUTRA PERSPECTIVA – UMA NOVA SÉRIE SOBRE QUESTÕES DE ECONOMIA – 9. LORD MERVYN KING: PORQUE É QUE DESPEJAR DINHEIRO SOBRE O PÂNICO FINANCEIRO NOS LEVARÁ A UMA NOVA CRISE – II

 

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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IMF Spring Meetings 2008
IMF Spring Meetings 2008

Lord Mervyn King:  porque é que  despejar dinheiro sobre o pânico financeiro nos levará a uma nova crise

 Mervyn King, Lord Mervyn King: why throwing money at financial panic will lead us into a new crisis 

The Telegraph, 27 de Fevereiro de 2016

(continuação)

Um mundo em desequilíbrio

Há mais vida para além das finanças, e mais a financiar  do que os acontecimentos de 2008. A economia mundial hoje parece incapaz de restaurar a prosperidade que nós tínhamos tomado como garantida antes da crise.

Muitos dos problemas que nos parecem    esmagar – pobreza, desigualdade crescente,  as infra-estruturas em  ruínas, as tensões étnicas entre e dentro dos  países – tudo seria facilitado pelas taxas de crescimento antes da crise, o  que parecia bastante normal.  O crescimento económico tem caído sobretudo entre os países do mundo desenvolvidos.

Alguns consideram esta situação  como resultado de  uma desaceleração da inovação e da produtividade dado que  a revolução da informação mostra  menos  transformações que as anteriores revoluções tecnológicas . Eu vejo este  resultado de forma  diferente – a luta para reavivar a economia mundial é o resultado do desequilíbrio que levou à própria crise .

Antes da crise, os gastos continuaram a níveis insustentavelmente altos nos Estados Unidos, Reino Unido e nalguns outros países da Europa, e em níveis insustentavelmente baixos na Alemanha e na China.

O sintoma mais evidente do desequilíbrio actual é o extraordinariamente baixo nível das taxas de juro

Isso criou um desequilíbrio nesses países, com a despesa ou muito alta ou muito baixa em relação aos rendimentos actuais e potenciais. E o desequilíbrio entre  países – grandes excedentes comerciais e défices  – cresceu.  Estes desenvolvimentos não foram irracionais, mas são sim  a consequência de pessoas que lutam para se comportar de forma racional num  mundo de incerteza radical que é  parte integrante de uma economia de mercado.

criação monetária - XLVI

Tudo isso somado a um desequilíbrio dentro e entre as  grandes economias. Não há  nem equilíbrio interno nem externo.

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Quatro Lords da Finança: (da esquerda para a direita):  do  Bundesbank,  Axel Weber, do BCE, Jean-Claude Trichet,  do FED,  Alan Greenspan,  Mervyn King em 2004

A partir de meados da década de 1990, as reuniões internacionais são estabelecidas em parceria e numa estrutura em  que os  funcionários europeus poderiam criticar  os Estados Unidos pelo seu baixo nível de poupanças, as autoridades americanas poderiam, por seu lado,   criticar  os europeus por não compreender a necessidade de uma mudança na balança comercial, e as autoridades japonesas poderiam permanecer conscientemente silenciosas . As autoridades chinesas poderiam relatar a   sua  ultima   taxa de crescimento historicamente elevada  Mas eles pareciam ter  pouca compreensão de como é que todos estes factores funcionam em conjunto.

O desequilíbrio na economia mundial  tornou-se cada vez mais grave.  As  taxas de juros reais estão muito distorcidas e muito abaixo do  retorno esperado sobre o investimento numa economia a crescer a uma  taxa normal, incentivando os investimentos nas áreas onde a procura se mostrou  de forma consequente   ser insustentavelmente alta.

As taxas de câmbio reais foram distorcidas, criando-se assim insustentáveis défices e excedentes comerciais com um fluxo de capital dos países onde as suas taxas de retorno sobre o investimento são altas   para os  países onde estas taxas eram baixas,  Maus investimentos foram feitos – em habitação nos  EUA e em alguns países da Europa, em propriedades comerciais, tais como centros comerciais no Reino Unido, na construção na China e no sector de exportação na Alemanha.

O sintoma mais evidente do desequilíbrio actual é o extraordinariamente baixo nível das taxas de juro que, desde a crise, ainda mais têm caído.

Os bancos centrais estão presos na sua política de juros baixos por causa da crença continuada de que a solução para a fraca procura é ainda um maior  estímulo monetário.

As consequências  têm sido que quanto maiores são os  aumentos nos preços dos activos e uma busca desesperada por rendimento como investidores, desde as pessoas físicas às  companhias de seguros, mais se conduz a que o retorno actual dos investimentos seja insuficiente para apoiar as suas necessidades de gastos. Os bancos centrais estão presos numa  política de juros baixos por causa da  contínua crença de que a solução para a fraca procura  é ainda mais estímulo monetário.

Estes bancos centrais  estão situados no quadro do dilema do prisioneiro: se algum deles pretende  elevar os juros, eles teriam um risco de abrandamento do crescimento e, possivelmente uma  outra crise.

Se as taxas de juros reais permanecem próximas de zero, o desequilíbrio na despesa e  nas poupanças vai continuar e o último ajustamento  para um novo equilíbrio será ainda mais doloroso. Se as taxas de juros reais começam a  mover-se  de novo  para níveis mais normais, os mercados irão reavaliar a sua visão do futuro e os preços dos activos podem entrar em queda  drasticamente. Nem os prospectos sugerem  um retorno suave e gradual para um caminho estável para a economia. Além disso, a  turbulência na economia mundial, e muito possivelmente uma  outra crise, é o que está a ser  esperado.

(continua)

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Ver o original em:

http://www.telegraph.co.uk/business/2016/02/26/lord-mervyn-king-why-throwing-money-at-financial-panic-will-lead/

Para ler a Parte I deste texto de de Mervyn King, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

A CRIAÇÃO DE MOEDA, BANCA E CRISES: UMA OUTRA PERSPECTIVA – UMA NOVA SÉRIE SOBRE QUESTÕES DE ECONOMIA – 9. LORD MERVYN KING: PORQUE É QUE DESPEJAR DINHEIRO SOBRE O PÂNICO FINANCEIRO NOS LEVARÁ A UMA NOVA CRISE – I

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