CARTA DE VENEZA – BICICLETA OU ESQUI AQUÁTICO? – por Vanessa Castagna

carta de veneza

Veneza, sabe-se, é uma cidade sem carros e, ao longo do ano, promove várias manifestações desportivas ao ar livre que valorizam esse seu aspeto essencial, em particular passeios, corridas e maratonas. Uma delas decorreu há pouco tempo: a 38ª edição da tradicional Su e zo par i ponti (“Subindo e descendo as pontes”, em dialeto veneziano) realizou-se a 10 de abril, tendo como objetivo para 2016 apoiar a missão salesiana de Damasco, na Síria.

Mas, mesmo sem trânsito terrestre motorizado, a cidade também tem as suas regras, nem que seja para restabelecer o que para a maior parte das pessoas (moradores ou visitantes) é apenas bom senso.

Já passaram cinco anos da notícia bizarra de um Volkswagen Polo que, pela calada da noite, atravessou a Ponte de Calatrava (Ponte da Constituição), inaugurada em 2008 apesar das muitas polémicas que a envolveram. Como as outras três pontes sobre o Grande Canal, no entanto, esta também se destina apenas a pedestres.

Nos últimos dias, porém, as extravagâncias somaram-se. Primeiro apareceu um ciclista norte-americano a passear de bicicleta pela Praça de São Marcos, de boné e mochila às costas, desconhecendo evidentemente a proibição de circular pela cidade nesse meio de transporte e não prevendo decerto a coima de 50 euros que a polícia municipal não lhe poupou.

Depois, foi o caso mais espetacular de um turista que convenceu o condutor do táxi a praticar esqui aquático no Canal da Giudecca. As imagens ficaram gravadas pelo sistema de vigilância e controlo do trânsito municipal, procedendo-se logo à identificação do taxista, titular de licença e agora sujeito a sanções gravíssimas. E se não fosse a divulgação das imagens nos meios de comunicação social, a muitos custaria acreditar em tamanha extravagância.

Episódios como estes entram em choque tão poderoso com a essência da cidade, com o seu ritmo conatural, que o espanto impede até de elaborar comentários sensatos. Fica a perplexidade e a pergunta hesitante: como é possível atravessar meio mundo para chegar aqui, sem ter noção da peculiaridade do que se vai visitar? Qual é o sentido de viajar se o intuito é fazer as mesmas coisas em qualquer lugar? Perguntas estas que devem estar a passar pela cabeça de muita gente em tudo o que é destino turístico.

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