BISCATES – NEOPOSSIDONISMO – por Carlos de Matos Gomes

biscates

(Não é sobre o Brasil, mas um dos possidónios que está na origem do termo era um sertanejo brasileiro, antecessor dos que desfilaram no Congresso no domingo.)

O termo possidónio caiu em desuso, mas as redes sociais ofereceram aos possidónios a oportunidade de se transformarem em praga, como os lagostins das barragens, os gafanhotos, as abelhas asiáticas e os comentadores de futebol. Possidónio era a qualificação dada a alguém convencido, presumido, soberbo, pretensioso; convencional. Um dos Possidónios que deu origem à espécie terá sido um político sertanejo brasileiro, rústico e simplista, com um linguajar rebuscado, mas vazio e despropositado.

As redes sociais criaram o ambiente favorável à proliferação sem controlo da praga de neopossidónios, que vão ocupando o território e transformando o ambiente a seu favor.

O neopossidónio, em versão masculina e feminina, caracteriza-se por dois comportamentos: a assunção de um pensamento único e a adesão acrítica à moda.

O pensamento único. Os possidónios assumem que não existe mais do que uma realidade. Essa realidade é a que eles recolhem da informação devidamente tratada pelo marketing e pela publicidade. Títulos do Correio da Manhã  e do Observador também servem para o efeito. Têm a “cabeça feita” e atacam os que se rebelam. O neopossidonismo dominante procura impor comportamentos e juízos de valor miméticos. Todos devem aceitar acriticamente que não há alternativa aos mercados e à lei da selva do capitalismo, integrando parâmetros que vão da bruxaria à psicologia barata, como a economia do boato e a das agências de rating. É o paradigma do neopossidonismo dos fiéis da troika, de Schauble, de Mario Draghi, de Lagarde, de César das Neves. Um neopossidónio é um macroeconomista feito com peças da Lego.

No outro extremo, menos neoeconomia e mais neomoral, todos devem aceitar a bondade das causas fracturantes, as que dizem respeito à diferença de género, à sexualidade, à segurança e ordem, ao balanceamento entre direitos e deveres. Discute o uso da gravata ou do colarinho aberto, do povo e da pova, do presidente e da presidenta com o vigor de um missionário entre cafres. Crê no mito do bom selvagem de Rousseau, em contraponto aos que, pela experiência, consideram a humanidade má por natureza, como Hobbes, no Leviatã.

O princípio orientador dos neopossidónios e neopossidónias radica na obediência à moda. São os primeiros a adotar as novidades, por vezes velhíssimas, apenas com novas roupagens. Não interessa pensar nisso. Os neopossidónios que se sucedem nos púlpitos do comentário nas televisões e jornais funcionam como retransmissores. São cães pastor que tentam conduzir o rebanho na mesma direcção, que pretendem levar os indecisos a alinharem com a maioria, que atacam os solitários e os rebeldes. A coroa de glória dos neopossidónios é fazerem que um espirito livre duvide dos seus próprios sentimentos e opiniões. São hipnotizadores falhados.

Sempre duvidei de que pedir uma fatura depois de beber uma bica evitasse a evasão fiscal, como os neopossidónios impunham: Peça fatura! Os Panamá Papers deram-me razão. Não há, que se saiba, faturas de bicas nos offshore, nem de armas, nem de drogas. Não há faturas no Panamá! Os neopossidónios andam à procura delas.

Os neopossidónios que infestam a política e o mercado do comentário e da informação têm como regra “irem a todas” e navegar na crista da onda. Têm de estar na moda nos programas da manhã, da tarde ou da noite, nas redes sociais, nas colunas dos jornais, a falar de sulfitos ou de misseis balísticos.

O possidónio nunca pensa que “estar na moda” significa que alguém desconhecido e por motivos inexplicados decidiu o que e como ele se deve vestir, calçar, comer, pensar, apoiar e rejeitar. Na economia, por exemplo, a moda é o lucro privado e o prejuízo público. O pobre é um rico incompetente. Na sexualidade, a moda é a “assumpção”. Todos têm de assumir. Na sociedade, a moda é o direito do indivíduo sobre o da comunidade. Um assaltante é, por princípio, melhor do que dois polícias. É o direito do modernaço centro comercial contra o da loja. É o direito do ruído contra o silêncio. Nos comportamentos as duas lambadas estão out, o escarro está in. O neopossidónio nunca se interroga que estar na moda é receber uma carta anónima a dizer que na próxima época devemos pintar o cabelo às riscas e vestir roupa às bolas e, no dia seguinte, ver toda a gente à sua volta de cabelo às riscas e fatos às bolas. O neopossidonismo é a ditadura do simplismo e do primário.

As redes sociais estão infestadas de neopossidónios que receberam essa carta anónima e obedecem às suas indicações com o mesmo critério canino com que as Tias de Cascais aceitam as regras do beijo de cumprimento com um ou dois ósculos.

Os neopossidónios têm sempre uma resposta para qualquer problema, normalmente um ismo: machismo, militarismo, marxismo, liberalismo, homofobismo, autoritarismo, despesismo… é só colar uma etiqueta, a mais comum é oportunismo, a seguir ao chico-espertismo.

Há uns anos dois possidónios chico-espertos, que dirigiam o Independente, o mais possidónio dos órgãos de comunicação que se publicou em Portugal antes do Correio da Manhã, declararam que era possidónio usar meias brancas. Resultado, as sapatilhas do jogging e do ténis passaram a ser usadas com meias pretas… como se os praticantes tivessem fugido de casa antes de se acabarem de vestir.

Nota final, antes que os possidónios o façam, declaro-me membro do grupo.

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: