FRATERNIZAR – De diocese em diocese do País – O que a imagem da S.ª de Fátima anda por aí a pôr a nu – por MÁRIO DE OLIVEIRA

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Procedente da diocese de Aveiro, a viatura, denominada “Mater mobile” (“Mãe móvel”) que transporta a imagem da S.ª de Fátima deu, finalmente entrada, dia 10 de Abril, no território da diocese do Porto pela paróquia de S. João de Ovar, onde era aguardada pelo bispo titular, D. António Francisco e pelo presidente da CM de Ovar, Salvador Malheiro. O relógio marcava 18 horas. Antes, o bispo esteve ocupado com uma outra tarefa – magna tarefa, no entender dos devotos e dos assessores teológicos e pastoralistas seus cortesãos – de benzer uma outra imagem, denominada “N.ª S.ª da Boa Viagem” que passa a figurar no Largo da capela do Torrão do Lameiro, daquela paróquia. Deste modo, a imagem da S.ª de Fátima encontrou à chegada uma das suas rivais, numa estreia absoluta. Um encontro emocionante, no escrever do repórter eclesiástico da VP que, propositadamente, confunde estas e outras imagens com pessoas de carne e osso, sem dúvida a magna realidade histórica com que a igreja católica e os seus funcionários de proa não sabem de todo lidar, muito menos, libertar-lhes as mentes-consciências. Só baralhar, infantilizar, alienar, humilhar, embrutecer cada vez mais.

Custa ter de escrever estes verbos que nos remetem para outras tantas práticas clericais, mas é o que efectivamente se passa todos os dias por essas dioceses e paróquias do país e do mundo católico, com destaque para as do interior. Cujas populações, em questões de fé e de teologia, só conhecem a fé religiosa e a teologia dos cultos do Paganismo com que têm vivido possessas, desde os primórdios da Humanidade, quando o Matriarcado ainda era predominante e as mães, especialmente, as virgens-e-mães eram rainhas nas sociedades. Desse tempo primordial, restam as imagens, nas quais as mulheres escravizadas pelos machos e pelos clérigos sacerdotes, eunucos por força duma absurda lei eclesiástica, se revêem e, de certo modo, se “vingam” dos seus opressores, ao preferi-las, em detrimento deles.

As populações humilhadas, desamparadas e sexualmente exploradas pelos machos, tanto nos casamentos como em bares e discotecas, casas de alterne e nas bermas dos caminhos e das estradas, refugiam-se nas imagens. A dura e cruel condição de escravas sexuais e de assalariadas baratas leva-as a sublimar as imagens dos altares dos templos geridos e explorados por clérigos sacerdotes. Sabem que são imagens fabricadas por santeiros e artesãos, mas não lhes importa. O que lhes importa é dar satisfação a uma inconsciente vingança milenar contra os machos. Em lugar de correrem a acolher-se nos braços deles, correm a rever-se naquelas imagens de deusas, cultuadas por clérigos celibatários à força. Desconhecem que esta compensação pode ser intensa, mas só agrava ainda mais a sua mais do que humilhada condição de mulheres subjugadas, silenciadas, abusadas pelos machos – pais, irmãos, maridos, patrões, clérigos. Por isso, elas choram, inconsoláveis, quando correm para os seus santuários. E não têm como evitar essas lágrimas, tantas e tamanhas são as dores que há séculos, milénios, carregam nos seus corpos, nas suas entranhas. Com a agravante de que, para cúmulo, são elas, as que os trazem a todos nos seus úteros, durante os 9 meses de gestação, os mesmos que, depois, quando adultos, as vão torturar, humilhar, explorar, matar.

É toda esta medonha realidade que explica o sucesso dos santuários dedicados a nossas senhoras disto e daquilo. Nas múltiplas imagens postas em lugar de destaque e incensadas-idolatradas pelos sacerdotes clérigos celibatários à força, as mulheres de carne e osso vêem-se a elas próprias. Ao menos, nesses múltiplos santuários, cada qual o maior e o mais sumptuoso, elas são rainhas. Não há sacerdote macho e sexualmente castrado que não seja obrigado a cultuar aí, sob a forma de imagens, as mulheres de carne e osso que não podem conhecer-amar à luz do dia. As imagens femininas exercem neles um fascínio, a que não conseguem resistir. Pudessem eles conhecer-amar as mulheres de carne e osso e as imagens de nossas senhoras deixariam de os seduzir e fascinar. Como não podem, é vê-los deixar tudo o mais para não faltarem à presidência daqueles cultos ditos marianos, um eufemismo cristão católico para esconder as imagens das deusas dos cultos das religiões do Paganismo que o cristianismo do império romano não conseguiu fazer desaparecer e viu-se obrigado a ter de integrar. Precisamente, na mesma altura em que começava a legislar-se no sentido de obrigar os clérigos sacerdotes a abster-se da presença e do contacto íntimo com mulheres. Uma coisa anda a par da outra. Impedidos de conhecer-amar as mulheres de carne e osso, ei-los a correr a presidir aos cultos das imagens das deusas, numa espécie de masturbação sexual religiosa e libidinosa. Entre a realidade proibida e as imagens que a representam, ei-los cada vez mais fascinados e atraídos pelas imagens. Tirem-lhes as imagens femininas, ou, se forem homossexuais as suas tendências, as masculinas, e eles renunciarão ao sacerdócio para poderem casar-se, em lugar de abrasar-se ou auto-flagelar-se.

Nem os bispos católicos e seus párocos sabem que o fascínio que sentem pelas imagens das nossas senhoras é uma manifestação psicanalítica das suas muitas frustrações sexuais e afectivas. A falta das mulheres nas suas vidas de celibatários à força encontra nas imagens de nossas senhoras uma compensação que eles, doentiamente, têm por mais sublime do que a própria realidade de conhecer-amar mulheres de carne e osso. No culto das imagens, as suas frustrações encontram tudo o que não podem ter nas mulheres de carne e osso. E, até, muito mais. Porque as mulheres de carne e osso são muitas vezes uma decepção para eles, precisamente, porque são de carne e osso, não são imagens que aceitam tudo o que eles queiram projectar sobre elas. Ao passo que a realidade não é assim, ainda que seja infinitamente mais bela que as imagens, precisamente, por ser real. E nada mais belo do que a realidade, mesmo quando é exigente e porventura dolorosa. Como nada de mais humanizador-criador do que o amor materializado na transformação da realidade de todos os dias. Como nada de mais desumanizador-descriador do que o amor materializado em imagens, em projecções, em sonhos, em alienações, em ópios de toda a espécie, buscados como substitutos da realidade.

A imagem da S.ª de Fátima anda por aí de vigararia em vigararia da diocese do Porto e das outras dioceses do país. No Porto, desde o dia 10 de Abril até dia 1 de Maio. Estes últimos dias a viatura “Mater mobile” que a transporta passou umas horas pelas vigararias de Baião, Marco de Canaveses, Amarante, Felgueiras, Lousada. Vem psicanalizar as populações do concelho. Põe a nu as frustrações milenares das mulheres que nunca puderam ser elas próprias, ter voz e vez. Ao mesmo tempo vem pôr a nu as frustrações dos sacerdotes clérigos, com predominância para os do topo, como os bispos residenciais e o papa de Roma. Quanto mais do topo, mais distantes das mulheres de carne e osso, por isso, mais frustrados, mas também logo compensados pela presidência a este tipo de cultos, durante os quais podem dizer palavras e piropos à imagem que nunca poderão dizer a mulheres de carne e osso. Sob pena de pecado mortal, pensam eles. Que a tanta inumanidade os levou o cristianismo católico romano. O mais arrepiante é ver que eles continuam infantilmente a não ver o abismo em que jazem-vivem todos os dias.

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