Enquanto o Capital, o filho primogénito do cristianismo, continuar ao comando do mundo, não há, não pode haver pleno Abril, pleno Maio. Há umas comemorações, mais ou menos litúrgicas, a modos de missas laicas, e com resultados iguais aos das missas presididas por clérigos nos templos paroquiais e nas catedrais das dioceses: – Nenhuns! A máquina do Tempo não pára e, com o passar dos anos, vamos de mal a pior. Por mais que mudem os governantes à frente dos Estados e os clérigos à frente das paróquias e das dioceses. O Capital, ao contrário de nós, não dorme nem festeja. Cria as liturgias religiosas nos templos e as laicas nas praças e avenidas para as populações e os povos, mas ele não frequenta nem umas nem outras. Enquanto ficamos entretidos com todas estas múltiplas liturgias financiadas por ele, o Capital reforça-se e ao seu poder monárquico absoluto em todas as frentes do planeta, sem deixar nada ao acaso. O próprio calendário é criação dele. Durante séculos e séculos, foi exclusivamente litúrgico, no sentido religioso, cristão. Hoje é também laico, ainda que as nossas cabeças, ateias incluídas, continuem acentuadamente marcadas pelo calendário litúrgico religioso, cristão. E assim será, indefinidamente, a menos que, como Jesus Nazaré, o filho de Maria, ousemos protagonizar na História irreversíveis rupturas políticas antropológicas-teológicas nas nossas próprias mentes-consciências e, simultaneamente, nas sociedades. É a mais difícil das revoluções, mas a única que nos muda e muda o mundo. Enquanto não matarmos-decapitarmos nas nossas mentes-consciências o Capital, ele continua aí a pôr e a dispor dos povos a seu bel prazer, como o dono disto tudo, também e sobretudo, das mentes-consciências dos povos. Com o papa de Roma e seus vassalos, os chefes das nações, como seus indefectíveis executivos. São as nossas mentes-consciências que têm de mudar de dentro para fora. Têm-nos faltado, para tanto, simplicidade e sabedoria bastantes, as duas armas da Vida de qualidade e em abundância. Superabundam-nos, em contrapartida, complicação e saber, as duas armas da ambição que o Capital bem conhece. Ou mudamos de ser e de Deus, ou afundamos-nos nesta cada vez mais apagada e vil tristeza. Por mais Abris e Maios que celebremos-festejemos. Sob a bênção do Capital e seus executivos, o papa de Roma e os governos das nações.