CARTA DE VENEZA – SENSUALIDADE, FETICHISMO, IRONIA: AS FOTOGRAFIAS DE HELMUT NEWTON EM VENEZA – por Vanessa Castagna

carta de veneza

Nos últimos anos, a ilha da Giudecca – na verdade um conjunto de ilhas ligadas por pontes – tem ganhado crescente visibilidade e tem-se revelado bastante animada do ponto de vista humano e cultural. Apesar de não ter passado despercebida a célebres viajantes e poetas, a verdade é que para a maior parte dos visitantes que chegam à laguna limita-se às belas fachadas palladianas visíveis a partir das Zattere ou, ainda, à Igreja do Redentor que inspira uma das festas populares mais frementes da cidade, no terceiro fim de semana de julho. Mas a verdade é que a Giudecca tem mais para descobrir.

Um dos espaços que têm contribuído para a vivacidade cultural e artística da Giudecca é a Casa dei Tre Oci (em veneziano, “casa dos três olhos”, em virtude das três janelas que se abrem na fachada). Trata-se de um edifício construído em 1913 que dá para a bacia de São Marcos e a homónima praça e que reflete a arquitetura neogótica veneziana. A Casa dei Tre Oci tornou-se num espaço expositivo em 2012, dedicando-se às linguagens artísticas contemporâneas com uma especial preferência pela fotografia. Entre os nomes mais conhecidos que já estiveram em exibição, limitamo-nos a mencionar Franco Fontana e Sebastião Salgado (ambos em 2014), mas as recorrentes mostras coletivas dedicadas à fotografia italiana ou veneziana também merecem algum destaque.

Recentemente, nesta sede foi inaugurada uma exposição especialmente marcante, dedicada ao icónico fotógrafo Helmut Newton (1920-2004): White Women / Sleepless Nights / Big Nudes. São aqui apresentadas mais de 200 imagens, incluídas nos três primeiros livros publicados por Newton entre 1976 e 1981 – aliás, os únicos organizados pelo próprio artista – em que surgem tanto fotos “encomendadas” como retratos independentes.

São imagens de grande impacto, que marcam a entrada do erotismo e da nudez radical no mundo da fotografia de moda, em que esta última e a arte se fundem e confundem. Os corpos femininos e o vestuário atravessam o limiar do mundo da moda para habitar retratos provocadores, em que a fashion photography se transforma num mero pretexto para um percurso completamente pessoal. Realmente uma mostra a não perder, até 7 de agosto.

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