O SENTIDO DE UMA REVOLUÇÃO: BREVE REFLEXÃO SOBRE A AMPLITUDE E O ALCANCE DE UMA EXPOSIÇÃO TEMÁTICA DE DORINDO CARVALHO SOBRE O 25 DE ABRIL DE 1974 – por José Fernando Tavares

 

                A geração de criadores e de artistas a que pertence  Dorindo Carvalho viveu o 25 de Abril de 1974 com uma emoção que só pode ser traduzida através do poder significativo da expressão plástica. Porque é pela arte que as emoções, os sentimentos e as ideias assumem a sua mais expressiva significação. É pela arte que se afirmam as ideias e é por ela também que a emoção se transforma em experiência, convertendo o intimismo desta num espaço de abertura e de diálogo com o público. E, diga-se desde já, o diálogo com um público de diferentes gerações, circunstância particularmente visível nesta exposição de Dorindo Carvalho, a qual compreende obras produzidas entre 1977 e 2014.

A observação, também ela emocionada, deste conjunto de quadros centrados na temática do 25 de Abril, permite-nos considerar que não é apenas a história a possuir a categoria da sua própria perenidade, pois também a arte, na sua expressiva virtualidade, assume uma condição idêntica. Se a história, na sua dimensão política, institucional e civilizacional, está possuída da sua circularidade dialéctica, como queria Hegel, também a expressão artística possui a sua íntima circularidade, os seus avanços e recuos, a sua natureza simultaneamente interventiva e silenciosa, o seu pragmatismo temporal e a sua perenidade, a qual se consubstancia para lá do tempo da sua criação.

É neste último sentido que se afigura legítimo atribuir ao artista criador o seu papel de demiurgo da história por estar permanentemente em diálogo ou em comunhão com ela: mesmo que, aparentemente, e por inúmeras razões, se encontre fora dela. Isto significa que até mesmo na ausência se está dentro; que não existem barreiras, nem para a liberdade individual nem para o amor à pátria. Referimo-nos ao período em que Dorindo Carvalho teve que procurar a sua subsistência fora da pátria, em terras da América Latina, numa espécie de exílio voluntário mas nem por isso menos profícuo.

Tal como o título desta exposição nos indica, está o observador perante uma amostra de diferentes fases da pintura de Dorindo que abordam a temática do 25 de Abril. As quatro Variações sobre um Cravo representam a fase mais antiga, dando-nos a conhecer um período particularmente simbólico da estética do artista, em cujas obras se destaca a simbologia do cravo, paradigma de uma revolução pacífica, associado à imagem, não menos simbólica, do punho fechado e da caveira. É de notar que a caveira humana tem sido objecto de inúmeras interpretações ao longo da história da arte: para lá da sua tradicional concepção transfiguradora da morte, a caveira deverá ser vista, nesta exposição, como um símbolo da condição humana, sobretudo se considerarmos que o homem é, acima de tudo, um mártir perante o seu destino desconhecido, perante a inexorável contingência do quotidiano, que é também a contingência da história social e política. Na pintura de Dorindo a presença da caveira também nos indicia a existência do algoz que espezinha e destrói a felicidade humana, aquele que sobrevive na escuridão, renegando o viço do cravo vermelho. Não obstante a presença obsidiante do sofrimento e da morte, esta fase da pintura de Dorindo deixa transparecer uma réstia de esperança no futuro ao enunciar a presença do arco-íris como um rasgão que atravessa a tela por entre os punhos fechados e os corpos que querem erguer-se para a luz. É a esperança no sentido de uma Revolução oportuna e desejada. Nesta primeira série, não deixa de ser significativa a tela de 1984, sem título, na qual vislumbramos um corpo nu perante um bouquet de cravos vermelhos que tende a desmembrar-se e a dissolver-se, tornando-se inatingível à mão da figura que procura, infrutiferamente, colher esses cravos. Haverá nesta tela uma mensagem subreptícia sobre o descontentamento pós-revolucionário? O que dizer também desses rostos privados da sua boca, votados ao silêncio, das mulheres alentejanas, visíveis na série Olhares além Tejo do decénio de 1990? Não serão elas as mesmas que motivaram e protagonizaram a Revolução dos cravos?
Idêntica interrogação estende-se à série que o artista consagrou à dimensão trágica dos limites, também ela do decénio de 1990: observem-se os corpos votados ao silêncio e à solidão, a quererem erguer-se para a luz da vida. Repare-se na força exaltante do corpo musculado, situado entre a luz e a sombra, num revérbero entre o animalesco e o humano, do acrílico sobre tela intitulado Limite Quotidiano (1998). Os limites e as formas assumidas pela condição humana sempre foram uma preocupação na concepção plástica de Dorindo Carvalho, circunstância que confere à sua obra um sentido universal. A representação do grito, particularmente marcante num quadro a tinta-da-china sobre papel datado de 1971, é já um sinal dessa preocupação, motivo que irá ter continuação na série Retratos do Silêncio do decénio de 1980, na qual podemos observar um conjunto de corpos nus, a preto e branco, que se contorcem e se fecham sobre si próprios, silenciando o grito que irrompe dentro deles. Vislumbramos, assim, nesta série, a presença desse grito inicial através da enunciação do seu reverso, ou seja, o silêncio, cujo remate é a imagem de um homem sem cabeça pendurado numa corda e rodeado de nuvens.

A preocupação humanista da pintura de Dorindo Carvalho estende-se até ao presente, como se verifica na série que intitulou Retratos do Ser e do não Ser, que compreende obras produzidas entre 2012 e 2014. A representação do humano afigura-se, nesta série, através da forma «informe» (passe o paradoxo), a forma que aponta para o caos, para o fim e para o princípio de qualquer coisa que está para vir, mas que ainda não podemos saber o que é. Trata-se de uma série que podemos considerar de cariz profético e paraclético. Por debaixo da roupagem informe e grotesca, adivinham-se formas humanas, voltadas, uma vez mais, sobre o seu próprio silêncio. Neste equilíbrio entre o ser e o não ser, radica-se a essência de todas as revoluções, sejam elas de carácter político ou cultural. Enuncia-se na pintura de Dorindo Carvalho a dimensão messiânica do homem histórico, ou seja, aquele que anseia pela existência de uma vida melhor e de um mundo menos impuro e mais consentâneo perante o destino da humanidade.

É este, de resto, o verdadeiro sentido das revoluções: a conversão, ou metamorfose, de um estádio noutro estádio; naquele onde já não queremos viver, para aqueloutro onde podemos reconhecer a essência e a verdade daquilo que somos. É esta consciência que a pintura de Dorindo nos transmite: a de que uma Revolução não poderá situar-se apenas num tempo e num lugar específicos, mas deverá estender-se a toda a humanidade para que a evolução humana possa configurar o seu fim último: celebrar a vida na sua amplitude.

01040305

1 Comment

Leave a Reply