Panamá Papers – um reflexo do modelo neoliberal | O “tax ruling”, como é que funciona ? – por Renaud Février

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

O “tax ruling”, como é que funciona ?

Renaud Février

A view of sealed evidence pouches containing European banknotes, on a table at the police station in Tourcoing, on January 24, 2014. An organised criminal group operating between France and Belgium, which was selling stolen cars, was dismantled by police on January 20, and five men are being held in custody for questioning, according a statement made by police on January 24. The criminal group was organised and led by several siblings from a family in Tourcoing, already known by local police, and the group managed to sell at least 87 stolen vehicles, making an estimated 900 000 euros from the illegal sales. AFP PHOTO / DENIS CHARLET
Cerca de 340 multinacionais aproveitam-se do mecanismo bem oleado no Luxembourg a fim de deduzirem os seus impostos.

 

Os acordos fiscais secretos entre o Luxemburgo e 340 multinacionais, incluindo Apple, Amazon, Ikea, Pepsi ou Axa, a fim de minimizar os seus impostos, foram revelados quinta-feira 6 de Novembro por 40 meios de comunicação social internacionais que se apoiam sobre documentos obtidos pelo Consórcio internacional dos jornalistas de investigação (ICIJ).

O inquérito de seis meses, baptizado “o Luxemburgo Leaks” em referência ao Offshore Leaks, detalha o funcionamento desta prática de acordos secretos, chamada “tax ruling”. Esta prática, legal, permite a uma empresa pedir de antemão que a informem de como é que a sua situação vai ser tratada pela administração fiscal do Luxemburgo, e obter certas garantias jurídicas.

Concretamente, como é que uma multinacional procede?

 

1. Tomar contacto com especialistas em optimização

Tomemos uma multinacional lambda (mas não demasiada), como Apple ou Amazon. Deseja saber de quanto é que vai taxada, se abrisse uma sociedade no Luxemburgo, na qual centralizaria os lucros realizados noutros países.

Para isso, como explica o jornal “Le Monde”, esta pode montar a operação internamente ou passar por um gabinete de advogados, mas geralmente, a nossa multinacional dirigir-se-á a um dos quatro gigantes de auditoria: Parte inferior do formulário

PriwaterhouseCoopers, KPMG, Ernst & Young ou Deloitte.

 

2. Propor um acordo

Estes peritos em optimização fiscal reflectem então nos meios pelos quais a nossa multinacional poderia minimizar os seus impostos. Por diferentes operações, a empresa poderia repartir o seu benefício passível de imposto entre as suas sucursais situadas em diferentes países, ou reduzir a sua base de rendimentos passível de imposto, ou mesmo fazer sair os lucros da Europa, sem estar a pagar o mais pequeno imposto. No final, os peritos estabelecem uma taxa de imposição, proposta à administração fiscal luxemburguesa. O objectivo é que seja o mais baixo possível para a nossa multinacional.

A fim de reduzir o seu resultado e por conseguinte os seus impostos, o grupo automóvel italiano Fiat tinha por exemplo, via uma sucursal estabelecida no Grão-Ducado, Fiat Finança and Trade, fazer emitir a facturação de serviços mais ou menos importantes a outras sociedades do grupo. “Ora, de acordo com as regras estabelecidas pela OCDE e retomadas pelo Tribunal de Justiça da União europeia, os preços de transferências entre sociedades mães e sucursais devem respeitar os preços do mercado de acordo com o que se chama ‘o princípio de plena concorrência’”, explicava o advogado Olivier Billard ao jornal “ La Tribune” em Outubro.

No total, estas centenas de multinacionais realizam, de acordo com “Le Monde”, “vários milhares de milhões de euros de economia anualmente graças à criação de uma holding ou de uma filial no Luxemburgo com muito poucas actividades e assalariados, privando certamente os Estados onde estes lucros foram realizados dos impostos que lhes caberia receber. ”.

 

3. O Luxemburgo valida o acordo

A proposta do gabinete de auditoria (ou de advogados) da nossa multinacional só passará a ser um acordo fiscal secreto (tax ruling) quando o fisco luxemburguês confirmar a sua legalidade. No caso de Fiat, o Luxemburgo considerou que ” o princípio de plena concorrência” era satisfeito e validou o acordo.

O fisco afixa então o seu selo sobre o tax ruling proposto pelo gabinete de auditoria. A maior parte dos acordos são então válidos por 5 anos, precisa “Le Monde”, que pôde consultada 548 acordos, estabelecidos entre 2002 e 2010.

O Luxemburgo guarda estes acordos fiscais secretos”, prossegue “Le Monde”. “Não notificou os seus parceiros europeus, como o poderia fazer no entanto, uma vez que estava ao corrente, de facto, por estas multinacionais, da sua estratégia para evitar o pagamento de impostos.”

A nossa multinacional não estaria sequer na ilegalidade de acordo com o Primeiro-ministro do Grão-Ducado, Xavier Bettel, para quem “os rulings são conformes com as leis internacionais”. “As decisões antecipadas não são específicas ao Luxemburgo, outras países na Europa praticam-no também.”

Renaud Février,

Renaud Février, OBS, LuxLeaks : le “tax ruling”, comment ça marche ? Texto disponível em :

http://tempsreel.nouvelobs.com/economie/20141106.OBS4335/luxleaks-le-tax-ruling-comment-ca-marche.html

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