FRATERNIZAR – Com a activa cumplicidade dos bispos e dos párocos – O Maio de todas as autoflagelações – por MÁRIO DE OLIVEIRA

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Bem pode o papa de Roma escrever Exortações apostólicas – mas que designação mais fora da realidade quotidiana das populações e dos povos das nações séc. XXI, a braços com desemprego em massa, fomes, carências, dores, doenças incuráveis de toda a ordem – como as duas mais recentes e mais extensas que dão pelos pomposos nomes de “Alegria do amor” e “Alegria do Evangelho”. A verdade é que nem os bispos nem os párocos as lêem, muito menos as debatem com os poucos fiéis que ainda frequentam os seus cultos dominicais. O que as populações de tradição católica romana querem são overdoses de toscas imagens da senhora de fátima, como a que, para cúmulo da vergonha, foi posta a passear pelas freguesias e concelhos do país, dentro da viatura de serviço, crismada por um clérigo mentecapto de “Mater mobile”, quando ela própria, atirada para um sótão com outros objectos de madeira já sem valor de uso, não sairá de lá, enquanto não forem por ela e a deitarem à geena. Como já eram imóveis, todas as imagens das deusas, dos deuses dos primitivos cultos pagãos que proliferavam nos territórios subjugados pelo império de Roma e que, ao tempo do imperador Constantino (séc. IV), foram abolidos por decreto e logo integrados no cristianismo, proclamado por ele como a religião oficial e única do Império. Desde então, têm sido séculos e séculos de obscurantismo, de pensamento único que entram, terceiro milénio adiante, como a gritar ao mundo que os velhos instrumentos de tortura do império – a cruz, a espada e as imagens de deusas, deuses – estão aí para durar.

O mais chocante é que, apesar de vivermos num Estado constitucionalmente laico, os bispos e os párocos católicos voltam a pôr, dispor de toda a liberdade, de todos os apoios institucionais do Estado, das suas autarquias locais, para impunemente semearem todo o tipo de fés religiosas, qual delas a mais absurda, mas que as populações mais desamparadas infelizmente não dispensam, como os toxicodependentes não dispensam a sua dose diária de heroína e outras drogas letais. Quando faltam respostas e soluções à altura para os problemas estruturais do dia a dia, com os quais as populações mais desamparadas se debatem, é compreensível que estas corram para as toscas imagens dos mais primitivos cultos do paganismo, recicladas com nomes cristãos e promovidas pelos seus clérigos sacerdotes a deusas, deuses salvadores. É um crime de lesa humanidade, lesa-populações, que não só tem ficado impune, como ainda é apoiado pelos órgãos locais do Estado laico. Tudo isto deveria ser lucidamente arrasado pelos media, sobretudo, as tvs. Não é. É até promovido. Para vergonha dos bispos e dos párocos, eles próprios, tão sem-vergonha, cultural e teologicamente subdesenvolvidos, que nem sequer vêem que, com todo esse aparente apoio mediático, estão a ser objecto de escárnio e mal-dizer por parte dos profissionais da comunicação social, lestos a dar cobertura a tudo, mas a milhas de distância, no que respeita a protagonizarem, eles próprios, tais iniciativas. Nenhum deles alinha nessa cretinice. O mesmo fazem os bispos e os párocos. Ninguém os vê pagadores de promessas a pé para fátima, nem andar a rastejar entre as cruz alta e a capelinha de umas “aparições” que nunca existiram. O mais grave é que todos eles sabem que elas nunca existiram. Mas pactuam, porque já não vivem sem essa mentira e esse crime.

Entre todos os bispos do país, sobressaiu, até agora, o da diocese do Porto. O hierarca não fez mais nada, durante as semanas em que a viatura “Mater mobile” viajou pelas paróquias da diocese. A sua postura e os seus dizeres nas homilias e os piropos dirigidos à imagem da “virgem de fátima” revelam bem quanto ele é um infeliz a quem o seminário roubou a alma, a identidade, a dignidade, os afectos. Só um clérigo de topo na diocese do Porto, castrado, frustrado como ele mostra bem que é, se presta ao papel que ele se prestou, perante os poucos párocos que ainda tem ao seu serviço nas muitas paróquias e respectivos católicos por tradição familiar. Foi preciso aparecer esta iniciativa altamente rentável para o santuário de fátima S.A:, no âmbito da celebração dos cem anos das “aparições” de 1917, para a diocese ficar a saber o tipo de bispo que tem a conduzir os seus destinos. Vê-se que nenhum dos muitos funcionários da Cúria e da Universidade Católica conseguiu ter mão nele e demovê-lo de semelhante comportamento pseudo-pastoral. Nunca neste século XX-XXI a diocese do Porto desceu tão baixo, como com este bispo, oriundo de Aveiro. Os poucos registos do semanário VP, órgão oficioso da diocese do Porto, do muito que ele disse em múltiplas ocasiões, durante este vergonhoso espectáculo, em honra do Absurdo e do Irracional, constituem o mais gritante atestado do que a ideologia-teologia do cristianismo – um demónio, no dizer do Evangelho de Jesus – é capaz de fazer a um filho de mulher, quando se apodera dele por inteiro.

Estamos perante um crime sem perdão que não deve, não pode ficar impune. A diocese está toda posta em causa. E não só a diocese. Toda a igreja católica romana, desde o papa Francisco ao pároco de aldeia mais desconhecida. Para cúmulo, logo a seguir a esta vergonha, da imagem da virgem de fátima na “Mater mobile”, sorvedouro de dinheiro das populações para o respectivo santuário, chegamos a mais um mês de Maio, o de todas as autoflagelações. As estradas e os caminhos de Portugal voltam a encher-se de “peregrinos”, de pagadores de promessas. Respeitemos as pessoas formatadas pelo medo das deusas, dos deuses, que protagonizam estas inumanas posturas. Mas sejamos implacáveis com a ideologia-teologia do cristianismo que, qual demónio cego, surdo e mudo, continua alojada na mente das populações que assim são levadas a comportar-se.

São os três instrumentos de tortura do cristianismo, a cruz, a espada e as imagens de deusas, deuses, que estão em tela de juízo. Bem como os bispos residenciais e os párocos de turno. A verdade é que nenhum deles protagoniza qualquer destas práticas próprias de endemoninhados, mas todos as estimulam, particularmente com a sua presença em massa no recinto do santuário de Fátima S.A., a presidir a todo este crime de lesa-humanidade, lesa-populações. Agir é preciso. Até porque é mais do que manifesto que, por trás de todo este horrendo crime religioso organizado, está também o crime cada vez mais frequente da lavagem de dinheiro sujo em que é perito o santuário de fátima S.A. À Polícia Judiciária cabe investigar exaustivamente e apresentar resultados. Aos clérigos do santuário e aos bispos católicos de Portugal cabe a obrigação moral de provar de onde vem todo aquele dinheiro e todo aquele ouro acumulado durante estes cem anos. E cabe-lhes mais: – provar o que tem sido feito com toda essa fortuna financeira, obtida sem nenhuma produção de riqueza, em todos estes cem anos de Mentira e Crime, que as “aparições” de 1917 manifestamente são.

P.S.

Maio 1970, Paróquia de Macieira da Lixa. É o primeiro mês de Maio com que tenho de lidar, como o seu pároco em exclusividade de funções, desde Outubro de 1969. Falam-me as pessoas da tradição da reza diária do terço na igreja paroquial, ao final de cada tarde do mês. Ainda sem ter tido tempo bastante para evangelizar com mais profundidade as pessoas, aceito a tradição, mas altero radicalmente a forma de o fazer. Em vez do terço, recitamos apenas uma das 5 dezenas. E o resto do tempo é dedicado a Evangelizar as populações. Proponho-me, e cumpro até final, preparar por escrito uma meditação diária sobre Maria, a mãe de Jesus, não sobre o mito Nossa Senhora qualquer coisa. Está então em curso a Guerra Colonial em três frentes de África. E logo na primeira meditação, chamo o tema à conversa, nomeadamente, as promessas dos soldados que partem para a guerra e dos familiares que ficam cá desolados. Cai o Carmo e a Trindade, logo no primeiro dia! Ao final do mês, constato que tenho tantas meditações escritas, quantos os dias. Nunca, como presbítero da Igreja do Porto, brinquei ou brinco em serviço. Ainda hoje é assim que sou-vivo. O meu esforço, naquele então, é ciclópico, mas valioso. Genuíno. Original. Mais tarde, estes textos ganham forma de Livro, editado pela Afrontamento, titulado MARIA DE NAZARÉ, um pequeno Povo de pobres vê-a como a sua companheira de todas as horas. Mal é editado, é logo apanhado pela Pide e retirado do Mercado. A partir de então, a Pide nunca mais me larga a porta, nem os passos que dou fora da paróquia. Por ser tão sério no exercício do ministério paroquial, acabo, depois de duas prisões políticas em Caxias, por ser afastado do ofício de pároco pelo Bispo, D. António Ferreira Gomes. E nunca mais sou convidado por nenhum dos seus múltiplos sucessores a esse ou outro ofício pastoral. Sou, a partir de então, presbítero-jornalista, visceralmente comprometido com a prática e o anúncio do Evangelho de Jesus. Todos os bispos residenciais sabem de mim, assim. Só que nenhum deles me perdoa tal ousadia. Para seu mal e sua vergonha! Choro, inconsolável, por todos eles.

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