CONTOS & CRÓNICAS – No plaino abandonado um poeta cercado – a memória da guerra colonial na poesia de Fernando Assis Pacheco- 2 – por Margarida Calafate Ribeiro

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(Continuação)

O lapso de tempo entre a publicação de Cuidar dos Vivos (1963) e Câu Kiên: Um Resumo e Viagens na Minha Guerra (ambos de 1972), revela o silêncio a que o poeta se confinou ao longo de nove anos e constitui um claro indicativo da dificuldade que teve em encontrar as palavras que lhe dessem um “outro nome para as noites”, para os homens e para a vida, as palavras capazes de descrever um universo em que o mundo “tinha perdido a medida”. “Como é que eu ia escrever isso?” – auto-questiona-se numa entrevista e responde:

“Não sabia como é que havia de escrever o segundo livro porque tinha dentro de mim uma experiência africana, da guerra, da miséria. (…) Queria que fosse perceptível a extrema solidão, a recusa moral em participar naquele jogo (…) Mas queria sobretudo tornar perceptível que era um livro feito em volta do personagem que melhor conhecia, e melhor conheço, um senhor chamado Fernando Assis Pacheco (…) à volta do qual se organizava ou desorganizava aquele mundo tenebroso.”16

Catalabanza, Quilolo e Volta publicado em 1976, mas datado de 1972 na colectânea A Musa Irregular (1991 e 1996), indo assim ao encontro da sua data moral, é seguramente um dos mais notáveis livros de poemas que se escreveu tendo como tema unificador a vivência da guerra colonial. Ao longo de Catalabanza, Quilolo e Volta e socorrendo-se de estratégias de referencialidade para-textuais, como topónimos, dedicatórias, epígrafes ou nomes Assis Pacheco dá-nos as coordenadas geográficas da guerra a vários ritmos: Lisboa, Dembos, Luanda e de novo Lisboa são os topónimos que iniciam as quatro secções de poemas em que o livro se divide e que assinalam os vários espaços de guerra. Lisboa é assim afirmado como um espaço de guerra, porque a guerra não estava só em África, como o regime desejava: ela vinha a bordo dos navios e alojava-se nos que ficavam no cais, sugerindo-nos desde já uma estrutura temática circular veiculada pelos topónimos que assinalam os destinos dos barcos que empreendiam a viagem para a guerra. O livro inicia-se em Lisboa não como lugar de partida para a guerra, mas antes como lugar de regresso, o que introduz um primeiro elemento de inversão do sentido esperado da viagem, como sugere Fernando J.B. Martinho no estudo que dedica ao livro e que muito contribuiu para a minha leitura17.

O primeiro poema – “E Havia Outono?” – é porventura um dos mais belos textos que se escreveu sobre a guerra colonial e nele se condensam uma série de marcas de distinção da poesia desta colectânea tanto do ponto de vista estrutural como temático: o tom dialógico em que o poema se constrói18; o carácter narrativo19 dos poemas fazendo-os oscilar entre a poesia que nos traz o sabor da crónica-poética que ora fixa o quotidiano em que se tece ora traz notícias; a ironia e a paródia do discurso oficial; a filtração da paisagem africana por um ser em aflição; o diálogo com a “libertinagem” de Bandeira e a destreza linguística e narrativa de Drummond20 são alguns dos elementos que marcarão os poemas deste livro e muita da poesia de Assis Pacheco e que logo neste primeiro poema se anunciam.

O poema em si constitui-se como resposta à pergunta que o seu título encerra – “E Havia Outono?” – pergunta que aliás percorre muitos dos livros de regresso da guerra, feita ou imaginariamente feita por metropolitanos a Assis Pacheco e a tantos outros aquando dos seus regressos de África21 . A partir dela desencadeia-se o testemunho-memória do que de facto havia em África e que pouco tinha a ver com as retóricas oficiais que os seus interlocutores naturalmente conheciam22 . O poema de Assis Pacheco condensa essa resposta plural de forma exemplar

“Havia o que não esperas: árvores, altas árvores de coração amargo, e o vento rodopia e leva as folhas cegas Sobre a cabeça do homem. Havia um coto de sangue. (…) Havia o que não esperas: horas, minutos como horas para mastigar o sus- tocado pelas trevas da mata.   E as minas/ os fornilhos/ as armadilhas com trotil/ ah não vou contar-te um décimo desta libertinagem. (…) Havia o que não esperas: risos, lágrimas como risos, lágrimas como folhas cegas explodindo ao de leve; e a morte –”23

O primeiro verso determina a estrutura de carácter narrativo do poema. A sua repetição ao longo do texto ajuda ao trabalho da memória de que o poema é resultado e assinala o ritmo a que as imagens da guerra vão acorrendo à memória do poeta conferindo ao seu testemunho o ritmo de uma revelação em que a enumeração dos factos em crescendo, vai indo ao encontro do ritmo devorador da própria guerra – “Havia um coto de sangue”, “Minutos como horas”, “as minas”, “armadilhas” , “risos”, “lágrimas como risos”, “lágrimas” e “a morte”. Desta forma, ao mesmo tempo que o poeta revive pela memória a atmosfera da guerra, vai oferecendo ritmadamente ao seu ouvinte os detalhes de um cenário que o vão tornando cúmplice da memória de guerra registada no poema, ao lhe dar a possibilidade de pela imaginação, elaborar uma imagem da atmosfera sufocante da vivência da guerra. No sincopado e quebrado ritmo do poema a guerra abre-se como um espaço onde o homem mata, morre e se desfaz; um espaço onde como disse Hemingway em Farewell to Arms

“Abstract words such as glory, honour, courage, or hallow were obscene beside the concrete names of villages, the numbers of roads, the names of rivers, the numbers of regiments and the dates.”24da existência que vai invadindo a juventude e o amor que neste livro se celebra, e que se revela nos poemas como uma “sombra” que pairava sobre a , onde jornalistas e intelectuais portugueses depunham sobre o conflito15. Nestes, como noutros textos, alguns escritores falavam, como Assis Pacheco, dos americanos e dos vietnamitas e nas entrelinhas, de nós e dos africanos no mato e outro nome para as noites”, para os homens e para a vida, as palavras capazes de descrever um universo em que o mundo “tinha perdido a medida”. “Como é que eu ia escrever isso?” – auto-questiona-se numa entrevista e responde:

“Não sabia como é que havia de escrever o segundo livro porque tinha dentro de mim uma experiência africana, da guerra, da miséria. (…) Queria que fosse perceptível a extrema solidão, a recusa moral em participar naquele jogo (…) Mas queria sobretudo tornar perceptível que era um livro feito em volta do personagem que melhor conhecia, e melhor conheço, um senhor chamado Fernando Assis Pacheco (…) à volta do qual se organizava ou desorganizava aquele mundo tenebroso.”16

Catalabanza, Quilolo e Volta publicado em 1976, mas datado de 1972 na colectânea A Musa Irregular (1991 e 1996), indo assim ao encontro da sua data moral, é seguramente um dos mais notáveis livros de poemas que se escreveu tendo como tema unificador a vivência da guerra colonial. Ao longo de Catalabanza, Quilolo e Volta e socorrendo-se de estratégias de referencialidade para-textuais, como topónimos, dedicatórias, epígrafes ou nomes Assis Pacheco dá-nos as coordenadas geográficas da guerra a vários ritmos: Lisboa, Dembos, Luanda e de novo Lisboa são os topónimos que iniciam as quatro secções de poemas em que o livro se divide e que assinalam os vários espaços de guerra. Lisboa é assim afirmado como um espaço de guerra, porque a guerra não estava só em África, como o regime desejava: ela vinha a bordo dos navios e alojava-se nos que ficavam no cais, sugerindo-nos desde já uma estrutura temática circular veiculada pelos topónimos que assinalam os destinos dos barcos que empreendiam a viagem para a guerra. O livro inicia-se em Lisboa não como lugar de partida para a guerra, mas antes como lugar de regresso, o que introduz um primeiro elemento de inversão do sentido esperado da viagem, como sugere Fernando J.B. Martinho no estudo que dedica ao livro e que muito contribuiu para a minha leitura17.

O primeiro poema – “E Havia Outono?” – é porventura um dos mais belos textos que se escreveu sobre a guerra colonial e nele se condensam uma série de marcas de distinção da poesia desta colectânea tanto do ponto de vista estrutural como temático: o tom dialógico em que o poema se constrói18; o carácter narrativo19 dos poemas fazendo-os oscilar entre a poesia que nos traz o sabor da crónica-poética que ora fixa o quotidiano em que se tece ora traz notícias; a ironia e a paródia do discurso oficial; a filtração da paisagem africana por um ser em aflição; o diálogo com a “libertinagem” de Bandeira e a destreza linguística e narrativa de Drummond20 são alguns dos elementos que marcarão os poemas deste livro e muita da poesia de Assis Pacheco e que logo neste primeiro poema se anunciam.

O poema em si constitui-se como resposta à pergunta que o seu título encerra – “E Havia Outono?” – pergunta que aliás percorre muitos dos livros de regresso da guerra, feita ou imaginariamente feita por metropolitanos a Assis Pacheco e a tantos outros aquando dos seus regressos de África21 . A partir dela desencadeia-se o testemunho-memória do que de facto havia em África e que pouco tinha a ver com as retóricas oficiais que os seus interlocutores naturalmente conheciam22 . O poema de Assis Pacheco condensa essa resposta plural de forma exemplar

“Havia o que não esperas: árvores, altas árvores de coração amargo, e o vento rodopia e leva as folhas cegas Sobre a cabeça do homem. Havia um coto de sangue. (…) Havia o que não esperas: horas, minutos como horas para mastigar o sus- tocado pelas trevas da mata.   E as minas/ os fornilhos/ as armadilhas com trotil/ ah não vou contar-te um décimo desta libertinagem. (…) Havia o que não esperas: risos, lágrimas como risos, lágrimas como folhas cegas explodindo ao de leve; e a morte –”23

O primeiro verso determina a estrutura de carácter narrativo do poema. A sua repetição ao longo do texto ajuda ao trabalho da memória de que o poema é resultado e assinala o ritmo a que as imagens da guerra vão acorrendo à memória do poeta conferindo ao seu testemunho o ritmo de uma revelação em que a enumeração dos factos em crescendo, vai indo ao encontro do ritmo devorador da própria guerra – “Havia um coto de sangue”, “Minutos como horas”, “as minas”, “armadilhas” , “risos”, “lágrimas como risos”, “lágrimas” e “a morte”. Desta forma, ao mesmo tempo que o poeta revive pela memória a atmosfera da guerra, vai oferecendo ritmadamente ao seu ouvinte os detalhes de um cenário que o vão tornando cúmplice da memória de guerra registada no poema, ao lhe dar a possibilidade de pela imaginação, elaborar uma imagem da atmosfera sufocante da vivência da guerra. No sincopado e quebrado ritmo do poema a guerra abre-se como um espaço onde o homem mata, morre e se desfaz; um espaço onde como disse Hemingway em Farewell to Arms

“Abstract words such as glory, honour, courage, or hallow were obscene beside the concrete names of villages, the numbers of roads, the names of rivers, the numbers of regiments and the dates.”24

 

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