EDITORIAL – O AMIGO DO POVO

 L’Ami du peuple (O ADiário de Bordo - IImigo do Povo), foi o nome que Jean-Paul Marat deu ao jornal onde expunha as suas propostas para reformar radicalmente a sociedade francesa que, apesar da Grande Revolução de 1789, continuava eivada de injustiças herdadas da estrutura social da Idade Média que por aqueles últimos anos do século XVIII ainda persistiam – a nobreza fora derrubada, mas a burguesia herdara-lhe o chicote com que flagelava o dorso dos deserdados.   

Nascido em 24 de Maio de 1743, em Boudry, possuía um daqueles cérebros privilegiados, capazes de armazenar conhecimentos de diversas áreas e de os interligar, conferindo às medidas por ele propugnadas uma invulgar solidez científica – médico de profissão, manejava com desenvoltura as suas teorias humanistas, sendo conhecido principalmente pela sua actividade jornalística. Com uma taxa de analfabetismo elevada os seus artigos, escritos numa linguagem simples e desabrida eram lidos e interrompidos por palmas nos botequins e nas tabernas e com enfado e raiva nos salões da burguesia.

O radicalismo de Marat assustava. Aliás, quer na bancada girondina quer na jacobina, as suas intervenções assustavam. Em contrapartida, o conceito burguês de democracia é extremamente redutor – desde que haja liberdade de expressão, há democracia. As chamadas liberdades fundamentais são importantes. Mas não chegam para configurar uma sociedade democrática – só o direito ao trabalho e a uma vida digna, o direito ao acesso à instrução e, sobretudo, o direito de participar na vida política.

Marat tinha um conceito abrangente de onde se excluía a corrupção e o nepotismo. Era temido e respeitado por seu carácter impetuoso e pela postura descomprometida diante do novo governo. A sua persistente perseguição aos prevaricadores, tornou-o numa das três figuras de destaque, juntamente com Danton e Robespierre, formava o triunvirato que configurava o poder revolucionário, implacável, que fazia rolar cabeças. O povo confiava neles.

Mas foi  uma rapariga do povo, Charlotte Corday, que no dia 13 de Julho de 1793, o matou, apunhalando-o no peito quando Marat estava no banho.

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