GIRO DO HORIZONTE – BARACK OBAMA EM HIROXIMA- por Pedro de Pezarat Correia

 imagem11

Barack Obama visitou Hiroxima, quando estão prestes a completar-se 71 anos sobre a destruição da cidade e o genocídio que resultou da primeira bomba atómica lançada pelos EUA, em 6 de Agosto de 1945. Foi o primeiro presidente norte-americano a fazê-lo e isto diz muito do complexo de culpa que os responsáveis políticos de Washington transportam nas suas consciências. Uns ou outros foram a Berlim e a Tóquio, a Dresden e a Hanói, a Bagdad e a Cabul. Nunca a Hiroxima ou a Nagasaki. Com a presença em Hiroxima Obama também ousou exibir uma diferente atitude do presidente da hiperpotência global, depois do atrevimento que já evidenciara com o discurso de Praga de 5 de Abril de 2009, com o degelo das relações com Teerão, com o derrube da abertura a Havana.

Pela pouca imprensa que li – por razões de higiene mental leio cada vez menos imprensa escrita e vejo cada vez menos telejornais generalistas portugueses, apenas o indispensável e com as devidas cautelas para me manter minimamente informado –, constatei que esta preferiu especular com o facto de Obama não ter pedido desculpas. Compreendo porque não o fez. Terá pensado que não deveria ferir a “excessiva sensibilidade auditiva” dos muitos Donald’s Trump’s e Hillary’s Clinton’s, que tentariam anular os efeitos positivos que a visita de Obama, sem dúvida, comportaria. A verdade é que a visita constituiu por si só, implicitamente, um reconhecimento do pecado. E quando se reconhece um pecado é o perdão que se está a pedir. Quando Obama abraça, compungido, um velho e alquebrado “hibakusha” – sobrevivente que tinha 8 anos quando do holocausto de Hiroxima –, quando lembra que “a morte veio do céu” sabendo bem que foi um seu antecessor na Casa Branca que a enviou, quando afirma que foi a Hiroxima “para refletir sobre a terrível força libertada e para homenagear os mortos”, quando invoca “o horror das crianças confusas perante aquilo que os seus olhos viram”, quando reconhece que o seu país está entre aqueles sobre quem, “por possuírem milhares de ogivas, recai a responsabilidade de trabalhar por um mundo livre de armas nucleares”, quando assume que por herança da ação militar dos EUA em Hiroxima “a humanidade mostrou ter meios para destruir-se a si própria”, pedidos de desculpas expressos seriam redundantes.

Penso que uma das afirmações mais importantes do presidente Obama, em Hiroxima, foi a de que não iria revisitar a decisão tomada por Harry Truman de usar as bombas atómicas no Japão. Ao omiti-lo, porque se o fizesse não poderia deixar de justificar o gesto do seu antecessor, permite concluir que, pelo menos, é sensível à argumentação, hoje geralmente aceite, de que foi uma decisão gratuita quando a rendição do Japão já era inevitável a curto prazo. Ao fazê-lo Truman havia querido, acima de tudo, evitar a intervenção da URSS que já tinha declarado guerra ao Japão, para não se ver obrigado a negociar os despojos, como já estava a fazer na Europa. As bombas atómicas, com o preço das tragédias imediatas e do início da paranoica corrida ao nuclear foram, acima de tudo, um aviso a Moscovo.

Fica-me a ideia de que o cidadão Barack Obama, e até mesmo o próprio presidente Barack Obama, é sensível a esta argumentação. Até porque não esqueço que foi Barack Obama quem, ainda candidato, apoiou uma reflexão que se traduzia num apelo para um mundo livre de armas nucleares, articulada pelos antigos secretários de estado George Shultz e Henry Kissinger, pelo antigo secretário da defesa William Perry e pelo antigo presidente do Senate Armed Services Committee Sam Nunn, que foi publicado numa edição especial de Janeiro de 2007 do Wall Street Journal. E quem, já como presidente, fez em Praga, em 5 de Abril de 2009, o mais célebre e notável discurso que algum responsável máximo de uma potência nuclear alguma vez foi capaz de proferir. Aí afirmou, corajosamente: «(…) como potência nuclear – como a única potência que usou uma arma nuclear – os Estados Unidos têm uma responsabilidade moral de agir (…) os Estados Unidos darão passos concretos em direção a um mundo sem armas nucleares (…) reforçaremos o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares como base da cooperação. A base da negociação é simples: países com armas nucleares avançarão para o desarmamento, países sem armas nucleares não as adquirirão; e todos os países poderão aceder a energia nuclear pacífica (…)»

Mas estas posições de Obama também provam outra coisa: é que a política de defesa e de segurança dos EUA tem condicionamentos e servidões que ultrapassam, em muito, o que o próprio presidente pensa, e diz. De facto, no seu mandato, a estratégia nuclear do Pentágono não deixou de apostar e investir no aperfeiçoamento da arma nuclear, violando objetivamente o Tratado de Não-Proliferação que o presidente prometera reforçar. O programa de miniaturização dos engenhos, que está a desafiar e incentivar igual investimento das maiores potências, nomeadamente da China e da Rússia, é a maior ameaça que paira sobre o mundo. Porque, em muito breves palavras, para além de revolucionar toda a estratégia em torno da arma nuclear, tornando-a mais “aceitável” e passando da lógica da “arma de não-emprego” à da “arma de emprego”, torna-a mais suscetível de cair em mãos de organizações terroristas, ou da criminalidade internacional organizada, a maior ameaça potencial com que a humanidade hoje se confronta.

Enquanto Obama anuncia que é preciso trabalhar por um mundo livre de armas nucleares, o seu departamento de defesa e o complexo industrial-militar trabalham para a proliferação nuclear.

A isto os analistas politicamente corretos chamam “realismo” da política internacional. Que não admite pedidos de desculpas.

30 de Maio de 2016

Deixar uma resposta

%d bloggers like this: