A OPINIÃO DE DANIEL AARÃO REIS – «Todos na bandeja»

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“Nós só fizemos o que todo o mundo faz”.  A cândida frase de Lula, com o passar do tempo, tornou-se a expressão da mais (im)pura verdade.

É certo que os petistas têm do que reclamar, por serem os mais bombardeados, uma espécie de alvo preferencial. Mas o PT há de reconhecer que deteve a presidência imperial brasileira durante quase quinze anos. Além disso, o contraste entre suas propostas de defesa da honestidade no trato da coisa pública e a realidade de seus mal-feitos ainda hoje surpreende. Mas a coisa assumiu uma tal amplitude, os ataques tornaram-se tão violentos que, se um marciano, por distração, aterrissasse por aqui, talvez imaginasse que o PT inventara a corrupção na Terra dos Papagaios.

Não era, porém, simples assim. A corrupção tinha uma robusta tradição e estava mais disseminada do que se poderia conceber. Assim, apesar das linhas de defesa dos privilegiados e dos poderosos,  a coisa toda veio a público, num raro episódio de strip-tease político.

A polícia já nem precisa investigar. Ela simplesmente prende ou ameaça com a prisão. Os detidos, salvo exceções, com receio da tranca dura, falam tudo o que sabem, o que apenas suspeitam saber e mesmo o que não sabem,   trocando as celas por tornozeleiras eletrônicas e liberdade vigiada.  Os  acusados ainda livres, também temerosos da sorte que os espera,  saem a campo, gravador no bolso, entregando colegas, amigos e inimigos, conhecidos e desconhecidos. Multiplicam-se as delações numa atmofera deletéria e deprimente. 

Seria divertido, não fosse patético ou trágico, acompanhar como as lideranças  tentam extrair de cada delação o que as beneficia, ignorando o que as desmoraliza e  prejudica seus interesses. Como sempre, é muito raro flagrar um suspeito reconhecendo suas responsabilidades. Apresentam-se sempre como vítimas das circunstâncias ou induzidos por pessoas ainda mais espertas.

Entretanto, ao se acusarem mutuamente com tanta abrangência e minúcias, e tanta miséria moral, acabaram, sem querer, prestando um serviço relevante. Evidenciaram algo que  hoje se tornou muito claro: é o sistema político que se encontra comprometido, em seu conjunto e nos seus fundamentos. Cunha, Maranhão, Lula, Temer, Aécio, Alkmin, Dilma, Renan, Sarney e outros podres Pedros Correias da vida, todos  têm um sagrado – e legítimo-  horror das delações premiadas, porque,  se a coisa continuar como está, não há a menor dúvida de que o sistema todo vai desabar, arrastando todos de cambulhada.  Assim, a frase de Romero Jucá é também exata e complementa a de Lula: não se trata de uma ou outra cabeça, são todas elas que se encontram na bandeja.  

Ocorre que um sistema político não nasce por geração espontânea nem apenas das maquinações de mentes perversas. Trata-se de compreender por que e como foi possível a sua construção.  Responder a esta questão nos levaria mais longe do que a ideia rasante de prestar solidariedade a tal ou qual político “injustiçado” ou de protestar contra golpes e contra-golpes, reais ou imaginários.

 Antes de prosseguir, porém, vale a pena formular uma ressalva:  se é verdade que um dado sistema político é uma construção social, não seria exato concluir daí que ele é o o retrato perfeito ou imutável da sociedade em que existe. De fato o sistema político brasileiro apresenta  conhecidas distorções e incongruências, como os espelhos deformantes que devolvem imagens bizarras daqueles que os observam. Além disso, não se deve perder de vista que as sociedades podem mudar mais rapidamente do que suas estruturas políticas, tornando-se críticas e dispostas a reformá-las.

Um caminho possível para entender o que se passa talvez nos levasse a investigar o período em que surgiu o atual sistema político – o da longa transição que levou o país da ditadura à democracia que temos. Seria uma inexatidão afirmar que a grande maioria optou então por silenciar sobre o período ditatorial? Como na época posterior a uma outra ditadura, a do Estado Novo, preferiu-se uma forma sorrateira de deixar o passado em paz. Assim,  quando foi promulgada a Constituição de 1988, cultivou-se a ilusão de que a ditadura fora vencida – e superada.

Entretanto, mesmo a olho nu, é possível perceber quão fortes ainda permanecem certos aspectos da última ditadura, como se fossem cacos perfurantes no corpo da democracia, atualizando e potencializando tradições de injustiça e arbítrio: o agro-negócio, o poder das empreiteiras, a hegemonia do capital financeiro, a tutela das forças armadas, a violência da polícia, o caráter predador do desenvolvimento econômico, as persistentes desigualdades sociais. E se o sistema político que temos fizesse corpo com estes fundamentos? Não fosse mais do que a sua expressão política? Se a resposta a tal pergunta for positiva, haveria aí um caminho – um horizonte – para formular as bases de uma reforma política pela qual valesse a pena lutar.   

 

 

 

Daniel Aarão Reis

Professor de História Contemporânea da UFF

Email: daniel.aaraoreis@gmail.com

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1 Comment

  1. O que importa, professor, como diria Sartre. não é o que fizeram de nós, mas o que vamos fazer do que fizeram de nós.
    cordial abraço

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