O DRAMA DOS MIGRANTES NUMA EUROPA EM DECLÍNIO E CAPTURADA POR ERDOGAN E OBAMA – 13. ROBERT F. KENNEDY, JR, DENUNCIA O CONFLITO NA SÍRIA: UMA “GUERRA POR PROCURAÇÃO” POR UM PIPELINE, por TAÏKÉ EILÉE – IV

refugiados - I

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Robert F. Kennedy Jr. denuncia o conflito na Síria: uma « guerra por procuração» por um pipeline

Taïké Eilée, Robert Kennedy Jr. dénonce le conflit en Syrie: une «guerre par proxys» pour un pipeline

29 de Fevereiro de 2016

(CONCLUSÃO)

O jornalismo estenográfico, é um outro nome da propaganda… que justifica plenamente um jornalismo cidadão, como aqui

(http://www.agoravox.fr/actualites/international/article/pas-d-impatience-vous-serez-178158) ou acolá (http://www.agoravox.fr/actualites/international/article/syrie-aspects-militaire-et-178201#forum4516347) sobre o processo sírio, que não se satisfaz precisamente da história que nos é servida sobre uma bandeja pelas autoridades.

Difundido a 18 de Fevereiro de 2016 por France 2 na sua emissão « Un Œil sur la planète », o documentário Syrie : le grand aveuglement  começou seguramente reconhecer  os ziguezagues dos media ocidentais  que dura há já mais de cinco anos.

Kennedy - XVII

Mas a tese “da grande cegueira”, defendida no programa, parece ainda ditada por uma frivolidade demasiado habitual. Recorda-se de resto que é à mesma tese de cegueira que se tinham agarrado os animadores da emissão de France Inter “Encontros com X” quando, em 2009, tinham arranhado um pouco a versão oficial dos atentados do 11-setembro, lançando nas antenas, por um lado, que membros da família real saudita e serviços secretos paquistaneses teriam participado na  organização dos atentados e que, por outro lado, a administração Bush teria  coberto estes responsáveis por interesse. De acordo com o programa Sr. X, a administração Bush tinha ficado cega pela sua obsessão do Iraque, cuja invasão já estava programada, e não tinha dado suficientemente atenção às advertências numerosas que tinha recebido de um ataque próximo de Al Qaïda sobre o solo americano. Na Síria, demasiado obnubilados por não se sabe qual preocupação, os líderes dos países envolvidos no conflito não teriam visto também a chegada do Daech .

Assim, no momento de abordar (durante 8 minutos) o cerne do problema, a guerra energética, a prudência mais extrema permanece em rigor. Eis como o jornalista Samah lançou o assunto que trata dos “aspectos não visíveis do conflito”:

“Há certamente a luta contra Daech, que mobiliza uma larga coligação, mas talvez também haja razões escondidas, menos confessáveis. Evoca-se raramente, mas a Síria ocupa um lugar estratégico sobre a estrada da energia, e quando há gás e petróleo, os desafios e os apetites são colossais.”

Seguidamente, depois de ter recordado a escolha de Bachar el-Assad para o pipeline iraniano (em Julho de 2011) e a sua recusa do pipeline do Catar (em 2009), Alain Juillet, presidente da Academia de inteligência económica, evoca o muito forte descontentamento da Arábia Saudita e do Catar, que virão este novo projecto como uma concorrência inaceitável para as próprias vendas de petróleo, e que por via de consequência teria considerado que era necessário derrubar Bachar el-Assad. A voz-em off diz-nos então:

“Coincidência ou não, é a  partir do verão de 2011, após a escolha do pipeline iraniano, que a rebelião síria vê a ajuda estrangeira aumentar. […] Daí alguns questionarem-se se a guerra na Síria não é também uma guerra da energia.”

Que infinita precaução! Não se afirma nada, a guerra da energia permanece aqui uma simples hipótese. No entanto, Robert F. Kennedy Jr. efectivamente disse-nos “É apenas quando vemos este conflito como uma guerra por procuração para a construção de um pipeline que os acontecimentos se tornam compreensíveis.”

O documentário da França 2 teria podido assim fazer referência, como o facto RFK Jr., aos telex de WikiLeaks que mostram que, a partir de 2009 (e não apenas a partir do Verão de  2011), a CIA começou a financiar os grupos de oposição na Síria. Foi pois dois anos antes das primeiras manifestações. Um outro telex, “Influencing the SARG in the End of 2006”, vindo de  William Roebuck, então encarregado de negócios na Embaixada americana de Damasco, revela mesmo uma vontade americana de desestabilizar a Síria a partir de 2006 (ou seja cinco anos antes da primavera árabe), como o explicou Julian Assange em Setembro de 2015 sobre RT. Tratava-se de criar no governo sírio um clima de paranóia, fazendo-o considerar a possibilidade de um golpe de Estado, o que o teria levado a sobre-reagir. A parte mais séria do plano deveria consistir em alimentar, com a ajuda do Egipto e da Arábia Saudita, “tensões sectárias entre sunitas e chiitas”, com nomeadamente a promoção de rumores, falsos ou exagerados, segundo os quais o Irão tentaria converter ao chiismo os sunitas pobres. Roebuck esperava assim com um pau matar dois coelhos: parar a influência do Irão na Síria e reduzir a influência do governo sírio sobre a sua população.

Um colosso que vale 170 milhões de milhões de dólares

Kennedy - XVIII

Wesley Clark

Não abordaremos aqui em detalhe o terceiro problema que o artigo de Robert F. Kennedy Jr. levanta, nomeadamente a nossa cruel dependência relativamente ao petróleo e as maneiras possíveis de a resolvermos. Promover fontes de energia alternativas, certamente, como já de resto o defende o general Wesley Clark num vídeo apresentado no dia 20 de Setembro de 2012. Mas, como diz precisamente o General, é um combate de gigantes que vai ser necessário efectuar, porque em face dele, vão-se defrontar forças temíveis, previne-se, as das grandes sociedades petrolíferas, que representam as forças económicas mais poderosas do mundo. Recorda que o valor das reservas petrolíferas no subsolo representa 170 milhões de milhões de dólares. O desafio, diz, é inverter a estrutura do mercado da energia e, para o efeito, vai ser necessário enfrentarmos homens que controlam estas reservas energéticas tão lucrativas. Somente um movimento de massa pode levar a bom termo este combate, que convém alimentar através da tomada da palavra pública sobre estas questões. Clark avisa-nos: “ Isto não poderá ser feito em doçura .”

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Nota :

No que respeita à noção “de jihadistas nacionalistas”, pode-se referir a  obra de John Arquilla e de Douglas A. Borer, “Information Strategy and Warfare : A Guide to Theoryand Practice, Routledge, 2007, p. 94-95”. Em resumo, estes jihadistas visam apenas recuperar os  territórios perdidos a um ocupante estrangeiro, geralmenteum  “infiel”. Devido ao seu nacionalismo, tendem em  beneficiar de um apoio popular mais importante do que os outros os jihadistas. Os mais conhecidos destes grupos são o Hamas (que combate a ocupação israelita), Hezbollah (que combate a ocupação israelita  e, em menor escala, combatendo  politicamente contra qualquer retoma da dominação cristã no Líbano), e o grupo Bassaïev em Tchetchénia (que combatia a ocupação russa).

Taïké Eilée,  Robert Kennedy Jr. dénonce le conflit en Syrie : une «guerre par proxys» pour un pipeline. Texto disponível em :

https://taikeile.wordpress.com/category/guerre-en-syrie/

 

Fontes:

Robert F. Kennedy, Jr., « Why the Arabs don’t want us in Syria », Politico, 23 février 2016.

Stephen Kinzer, « The media are misleading the public on Syria », Boston Globe, 18 février 2016.

Robert Naiman, « WikiLeaks Reveals How the US Aggressively Pursued Regime Change in Syria, Igniting a Bloodbath », Truth-out, 9 octobre 2015.

Mnar Muhawesh, « Migrant Crisis & Syria War Fueled By Competing Gas Pipelines », Mint Press News, 9 septembre 2015 [Attention : cet article affirme en préambule qu’un câble de WikiLeaks de 2006 a révélé qu’Israël était à l’origine d’un plan de déstabilisation de la Syrie ; or, ce câble, comme deux commentateurs – ici et  – l’ont remarqué, n’affirme rien de tel.].

« Assange on ‘US Empire,’ Assad govt overthrow plans & new book ‘The WikiLeaks Files’ »,RT, 9 septembre 2015.

Nafeez Ahmed, « Syria intervention plan fueled by oil interests, not chemical weapon concern », The Guardian, 30 août 2013.

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Para ver a parte III deste texto de Taïké Eilée, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

O DRAMA DOS MIGRANTES NUMA EUROPA EM DECLÍNIO E CAPTURADA POR ERDOGAN E OBAMA – 13. ROBERT F. KENNEDY, JR, DENUNCIA O CONFLITO NA SÍRIA: UMA “GUERRA POR PROCURAÇÃO” POR UM PIPELINE, por TAÏKÉ EILÉE – III

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Ver o original em:

https://taikeile.wordpress.com/2016/02/29/robert-kennedy-jr-denonce-le-conflit-en-syrie-une-guerre-par-proxys-pour-un-pipeline/

 

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