Sobre as mentiras emitidas pelas Instituições Internacionais, assumidas como verdades pelos governos nacionais e difundidas pelos seus media | 1. Fim do euro – uma análise dos argumentos para retardar o inevitável, a queda do euro I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Sobre as mentiras emitidas pelas Instituições  Internacionais, assumidas como verdades pelos governos nacionais  e difundidas pelos seus media – uma pequena série de artigos

 

1. Fim do euro – uma análise dos argumentos para retardar o inevitável, a queda do euro1

Júlio Marques Mota

The Flash # 343 Eco Natixis é interessante por mais de uma razão [1]: dá argumentos relativamente fortes face ao que os autores acreditam ser o custo do desmantelamento da moeda única. Dito de outra maneira, os autores defendem a permanência no euro e defendem ainda mais esta globalização sem nenhum argumento especifico, colocando-se apenas num terreno supostamente neutro, o das “leis” em economia e mostrando, nesta base que, tal como afirmava Margaret Thatcher, NÃO HÁ ALTERNATIVA. Sendo um texto de Natixis é um texto feudalizado aos interesses subjacentes à economia global , o mesmo é dizer à actual globalização e, por essa via, feudalizado aos interesses actuais da zona euro uma vez que esta mais parece interessada em defender os interesses da industrialização chinesa e da desindustrialização europeia do que a renovação do tecido produtivo europeu e o emprego. Fomos ingénuos, terá dito o antigo Comissário Michel Barnier, relativamente aos acordos comerciais continuamos ingénuos poderemos nós dizer, uma vez que nada mudou neste campo em Bruxelas: quanto mais concorrência pelos preços, melhor!

É pois neste quadro que devem ser vistas as conclusões de Natixis sobre a permanência no euro e sobre a globalização, em que segundo eles mudar é pior que ficar tudo na mesma, conclusões estas que não discutem.

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O gráfico 2 pode ser visto como reflectindo a desindustrialização na zona euro e nos países indicados separadamente. Um gráfico que suficientemente elucidativo da política ou ausência de política industrial em sentido lato que tem sido praticada pela União Europeia. E dizerem-nos agora que mudar é pior que ficar tudo na mesma é ignorar o que sabemos desde Lewis Carrol e o seu livro Alice no País das Maravilhas que citamos de memória e onde se diz que não ir para lado nenhum é também ir para algum lado. No nosso caso significa perder posição face aos concorrentes mas perder posição face aos concorrentes, os países emergentes, é continuar na linha descendente que no gráfico é mostrada.

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O gráfico três a) e b) podem ser vistos como um exemplo do custo elevadíssimo das políticas de desvalorização internas seguidas na Europa e tomando como exemplo o caso espanhol.

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São 3 os argumentos analisados e avaliados no texto de Natixis: um mix de ativos e passivos externos com peso de até 6-7 vezes o PIB de alguns países, uma segmentação das cadeias de valor tornada pouco passível de ser refeita e finalmente um efeito de acumulação e concentração em áreas que constituem planetariamente buracos negros industriais.

O primeiro argumento parte da constatação de que uma modificação soberana da paridade seria hoje carregada de efeitos financeiros tão consideráveis como quando existiam Estado-Nações.

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No que respeita à França, a adição de ativos e passivos externos das empresas, bancos e Estado representavam apenas 60% do PIB em 1990. Esta mesma adição em 2016 representa 620% do PIB. Isto significa que nessas condições, o efeito mecânico simples de uma desvalorização de 20% desenvolveria consequências gigantescas. Uma nova repartição dos patrimónios dos atores considerados representa um montante próximo do PIB …

Certamente, haveria, em teoria, ao nível macro um largo efeito de compensação entre os atores, ( passivos que aumentariam pela queda do valor da moeda, ativos que aumentariam pela mesma razão, compensando-se parcialmente) mas ao nível micro teríamos – repúdio de dívidas ou um tsunami colossal. Este argumento só seria válido se os prejuízos daí advindos fossem garantidamente superiores aos que se dão com a situação presente, sendo certo que uma crise num, qualquer país da União Europeia e em particular da zona euro levaria igualmente a um tsunami e quem sabe se não seria de dimensão bem superior.

O segundo argumento baseia-se na constatação de que o aumento contínuo das importações europeias de todos os países emergentes (em percentagem do PIB, multiplicação de acordo com os países da zona entre 3 e 5) teve o efeito de suprimir os concorrentes nacionais candidatos a uma inserção nas cadeias de valor. Claramente, uma desvalorização não teria qualquer efeito sobre a composição dos referidos canais. Por outras palavras, a elasticidade preço de importação seria próxima de zero para todos os componentes importados. Um índice de uma tal realidade seria de acordo com Natixis a continuação do aumento dos volumes de importação, apesar da recente queda da taxa de câmbio do euro.

O texto de Natixis releva aqui do mais puro cinismo, confundindo-se curto prazo com médio e longo prazo. Estamos no reino do anedótico. Mas mais ainda. Imaginemos que temos uma desvalorização. O preço dos bens importáveis sobe, com tudo o resto constante. Se se trata de produtos intermediários, o produto final sobe. Neste caso a procura desce e necessariamente haverá efeitos de substituição de produtos importados por produtos nacionais, a não ser que se admita que os países europeus nada produzem e estão tão mortos que não produzem nem serão capazes de produzir outros produtos a responder ao efeito de substituição. Além dos produtos de substituição, para o mesmo produto intermediário haverá produtores que se colocarão a produzir esses mesmos bens que concorrem agora contra os bens estrangeiros mas em melhores condições que antes da desvalorização. Adicionalmente e se falamos em “leis” da economia não podemos ignorar que evocar o jogo das elasticidades tem na verdade sentido mas sobretudo em termos de médio e longo prazo. E então, porque é que as elasticidades preço dos bens importados a longo prazo devem ser nulas? A curto prazo admite-se, mas a longo prazo, não. Não me explicam isso? Repare-se: dizer que a elasticidade preço é zero significa que as quantidades importadas são constantes e são independentes dos preços. Ora isto é um absurdo quando inscrito na duração temporal. Os preços sobem, diminui a procura global e aumenta a oferta interna, a prazo pelo menos. A estrutura produtiva muda, a repartição muda, as competências mudam. Conclusão: o artigo deste ponto de vista releva da pura demagogia. Um texto encomendado é o que diríamos para assustar as gentes de esquerda que se opõe a esta zona euro e a esta globalização, uma vez que considera que quaisquer que sejam as mudanças, nada muda, segue-se na mesma via mas às arrecuas. Que grande conclusão!

A conclusão de Natixis seria então que toda e qualquer desvalorização iria apenas provocar um aumento dos preços dos bens importados , com os seus efeitos em termos de diminuição dos rendimentos internos, com os seus efeitos em termos de queda do poder de compra e, por fim, a baixa da procura interna.

O terceiro argumento, que só reforça o segundo baseia-se sobre a quase impossibilidade de obter relocalizações industriais. A globalização, as vantagens comparativas assim obrigam, levou ao surgimento de áreas de forte concentração industrial: Ásia do Sudeste , México, etc. Os efeitos de dimensão permitiram depois um reabastecimento quase planetário com a desindustrialização relativa do resto do mundo e até mesmo de alguns países emergentes. Estes mesmos efeitos de dimensão supõem também enormes mercados homogeneizados pela livre-troca e pela relativa falta de risco cambial. Ver-se-ia muito mal as relocalizações sobre os mercados de cuja estreiteza também resultaria o restabelecimento da soberania monetária.

(continua)

 

1Um texto feito a partir do texto publicado por Les Crises des années 2010 com o título Fim do euro: argumentos para retardar o inevitável e do texto Flash 343 Eco de Natixis.

La crise des années 2010,  Fin de l’Euro: arguments pour retarder l’inévitable. Texto disponível em : http://www.lacrisedesannees2010.com/2016/03/fin-de-l-euro-arguments-pour-retarder-l-inevitable.html e de Natixis : Ce que ne comprennent pas ceux qui veulent sortir de l’euro ou qui préconisent le protectionnisme, disponível em : http://cib.natixis.com/flushdoc.aspx?id=90392

1 Comment

  1. Está é uma situação que nos povo estamos fartos de perceber. Após entrada na União Europeia foi um tal desmantelar as nossas indústrias: as pescas, a produção agrícola, metalurgica, etc…, reduzindo a mão de obra.Promovendo ó desemprego. Com isso afectando ó poder de compra do povo e os fecho estabecimento comerciais e industriais. A balança económica foi-se a vida.

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