Sobre as mentiras emitidas pelas Instituições Internacionais, assumidas como verdades pelos governos nacionais e difundidas pelos seus media – uma pequena série de artigos | 7. A ideia maluca de que o aumento dos preços do petróleo pode agora ser bom para a economia – por Matt O’Brien I

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Sobre as mentiras emitidas pelas Instituições Internacionais, assumidas como verdades pelos governos nacionais e difundidas pelos seus media – uma pequena série de artigos

7.A ideia maluca de que o aumento dos preços do petróleo pode agora ser bom para a economia

Matt O’Brien, Washington Post, The crazy idea that higher oil prices might be good for the economy right now

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Coisas engraçadas estão agora a acontecer quando as taxas de juros são zero, mas são tão engraçadas que até a baixa enorme dos preços do petróleo pode na verdade estar a prejudicar a economia?

A resposta, de acordo com o Fundo Monetário Internacional e o seu economista chefe Maurice Obstfeld, é talvez. Isto é, pelo menos é o que ele e os seus colegas disseram quando tentaram explicar porque é que a forte descida do preço do petróleo não deu à economia o tiro de arranque para a retoma de que as pessoas esperavam que acontecesse. Agora, é verdade que o preço do crude bruto mais barato tem sido algo como um vento económico adverso na medida em que transformou o boom de xisto — e todos os seus gastos em plataformas e sondas de perfuração — numa recessão sobre estes materiais. Mas os economistas do FMI estão a tornar isto numa questão mais geral e mais controversa. Não dizem que os baixos preços do petróleo estão a prejudicar a indústria do petróleo. Eles estão a dizer que os baixos preços do petróleo estão a prejudicar-nos porque as taxas de juro são baixas, perto de zero.

Isto é verdadeiramente paradoxal. Os preços mais baixos nas bombas, afinal, são supostamente um auxílio para economia, colocando mais dinheiro nos bolsos das pessoas.

Porque é que o FMI pensa o contrário? Bem, tem a ver com o que os economistas chamam de taxa de juro real, que é a mesma velha taxa de juro, de que todos falam a que se deduz a inflação. Então, está-se a ver, é o que determina o quanto as empresas vão ou não vão investir. Pense nisso da seguinte forma: cada um de nós estará muito mais disposto a pagar 5 por cento por um empréstimo se acreditarmos que os preços vão subir 5%, do que se acreditarmos que os preços não subir mesmo nada e em tudo. Isso é porque o nosso rendimento deve subir com a inflação, enquanto as dívidas não sobem. A palavra mais importante aqui, porém, é a de “acreditar”. Isto significa que as expectativas de inflação são mais importantes que a própria inflação em si, uma vez que são elas que nos interessam quando estamos a tentar decidir se vamos contrair um empréstimo por alguns anos, ou, no caso de uma hipoteca, por décadas. Mas em qualquer caso, o panorama é bastante simples: quanto mais baixa a taxa de juros real é, quanto mais as pessoas tendem a investir e quanto mais pessoas investem mais a economia tenderá a crescer.

Isto é menos linear, no entanto, diríamos mesmo mais complicado, o que se deve ao facto de que as taxas de juros não podem ir muito longe abaixo de zero. Se não fosse assim, as pessoas iriam tirar todo o seu dinheiro do banco em vez de estar pagar uma taxa para o manter no sistema bancário – e isto é o que seria uma taxa de juros negativa — e enfiá-lo-iam debaixo do colchão. Então, neste mundo onde toda gente mantinha o seu dinheiro em cash, a taxa de juros sobre o dinheiro em cash tornar-se-ia a taxa de juro para toda a economia. O que é isto? Bem, zero. O dinheiro guardado debaixo do colchão, afinal de contas, não paga nenhum juro, nem há pois nada que o leve a pagar uma multa também. E é por isso que os economistas dizem que há mais ou menos um ” limite inferior de zero ” nas taxas de juros.

Agora, se pensarmos nisto, isso significa que qualquer coisa que reduz a inflação, quando as taxas de juros são zero também reduziria o crescimento. É pois por isto que, nesse caso, a baixa inflação significaria altas taxas de juros reais. Agora, lembremo-nos, que estas taxas de juro reais são as taxas de juro normais, nominais, menos a taxa de inflação. Então, se o número que cada um de nós estiver a subtrair (inflação) fica menor, mas se o número ao qual está a subtrair a taxa de inflação estiver fixo no valor zero no zero, obterá então um valor cada vez maior. Seja a taxa de juro nominal de valor zero e se a taxa de inflação for de (-0,2) a taxa de juro real é de então de [0 – (-02)] = 0,2. Se a taxa de inflação negativa passar para (-0,3) a taxa de juro real passará para 0,3 e assim sucessivamente. Crescente pois à medida que a taxa de inflação é cada vez mais decrescente. E em casos extremos, essas altas taxas de juros ajustado pela inflação — o custo real do empréstimo que importa —poderiam sempre retardar a economia e levá-la mesmo para zonas de crescimento negativo por serem de maior impacto (negativo) que o impacto positivo da descida do preço dos combustíveis na bomba de gasolina.

A questão, então, é de se saber se a baixa dos preços do petróleo irá realmente transformar as expectativas de inflação baixas. Se o fizerem, então o petróleo mais barato pode ser uma coisa má para a economia neste momento, fazendo subir as taxas de juros reais esperadas, uma vez que falamos de expectativas de inflação. E a outra face da moeda é que o petróleo mais caro pode ser bom teoricamente uma vez que aumente as expectativas de inflação e reduza então as taxas de juros reais. Como exemplo vejam-se o exemplo acima. Com a taxa de juro nominal em zero e a taxa de inflação em 0, 2 % e não em (-0,2%) a taxa de juro real vem então ( 0- 0,2) = (-0,2%). Se a taxa de inflação sobre para 0, 3 a taxa de juro real desce para (0- 0,3%) = (-0,3%) , ou seja a taxa de juro real é decrescente pois com a taxa de inflação a crescer- Isto é certamente, como Obstfeld afirma, um resultado “perverso”

Isto realmente pode ser verdade? Bem, é o exemplo a mostrar que coisas estranhas podem acontecer quando as taxas de juros são zero. A história simples é que a forma como a economia funciona não é assim a de um funcionamento automático. Algo tem que mudar para que funcione — e esse alguma coisa são, geralmente, as taxas de juros

Por outras palavras, a economia depende do ajustamento das taxas de juro em face do que está a acontecer, com a palavra-chave a ser – ajustamento. Consideremos o seguinte: a razão pela qual novas poupanças se transformam em novos investimentos e novos desempregados se transformam em novos empregados é então porque o primeiro elemento de cada um destes pares de elementos reduz as taxas e estas taxas mais baixas fazem com os segundos elementos destes dois pares de elementos venham a realizar-se. Então, se as taxas não caem — porque elas estão no zero — então a economia não vai funcionar, como o faz normalmente. De todo, não irá funcionar.

Mas só porque isso pode ser verdade não quer dizer que o seja. A única maneira de saber, como mencionamos antes, é que se baixa dos preços do petróleo se transforma em mais baixas expectativas de inflação. Se não o fizerem, então não haveria nenhum paradoxo de todo.

(continua)

 

Matt O’Brien, Washington Post, The crazy idea that higher oil prices might be good for the economy right now. Texto disponível em:

https://www.washingtonpost.com/news/wonk/wp/2016/04/13/the-crazy-idea-that-higher-oil-prices-might-be-good-for-the-economy-right-now/

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