Sobre as mentiras emitidas pelas Instituições Internacionais, assumidas como verdades pelos governos nacionais e difundidas pelos seus media – uma pequena série de artigos | 8. Brexit: o sim ou não, o resultado será sempre um resultado ganhador! – por Jean-Luc Gréau

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Sobre as mentiras emitidas pelas Instituições Internacionais, assumidas como verdades pelos governos nacionais e difundidas pelos seus media – uma pequena série de artigos

truth-or-lie

8. Brexit: o sim ou não, o resultado será sempre um resultado ganhador!
Deus salve a City

Jean-Luc Gréau – economista francês, antigo perito do MEDEF

 

Se o “não” ganhava exactamente há um mês, prova será feita de que tudo o que foi deixado para os tecnocratas de Bruxelas pode ser recuperado. E se for o “sim”, será quase o mesmo, uma vez que o Reino Unido permanecerá na União em troca de concessões estratégicas quanto à soberania dos Estados membros.

1

(Dessin : Soleil)

Quando os nossos bons compatriotas escolhem o seu presidente, o feliz eleito instala-se com a agenda que o sistema confeccionou para ele trabalhar: enfrentar os desafios e as oportunidades da globalização, reforçar a integração europeia, reforçar a competitividade do sítio França, combater os excessos xenófobos. Mas, desde 2007, que inesperado! Uma Grande Recessão ocidental em 2008, a crise do euro de 2010, a Primavera árabe de 2011, a guerra terrorista e a crise dos migrantes em 2015 e, por último mas não menos importante, o referendo inglês de 23 de Junho. A partir de agora o imprevisível torna-se mais importante do que o que é previsível e governar já não é prever mas sim andar a correr para tentar extinguir os incêndios que se desencadeiam um após outro.

O intenso debate que agita os nossos amigos ingleses relativamente à continuação da presença e da pertença do Reino Unido à União europeia tem sido um debate animado. O Estado britânico faz funcionar o procedimento referendário que os republicanos e os socialistas franceses enterraram desde o seu revés de 29 de Maio de 2005. Mas David Cameron tomou um risco calculado arrancando à UE concessões essenciais: a possibilidade de escapar às regras europeias indesejáveis, manutenção das regras financeiras sobre os mercados ingleses e faculdade de suprimir o acesso às prestações sociais para os não ingleses, incluindo para os cidadãos não britânicos da União. Agora, faz campanha pelo “Sim” com numerosos apoios nos círculos influentes do país. Para percebermos bem o que está em jogo ponhamo-nos no seu lugar.

Pelo « Não  »

O ex-presidente da câmara municipal de Londres, Boris Johnson, colocou-se à frente dos partidários da saída da UE com um argumento simples: voltar a dar ao Parlamento nacional a plenitude do seu poder! Mais de quarenta anos de experiência inglesa na União mostraram que o Parlamento não dispunha mais de um poder completo sobre assuntos cruciais, a começar pelo essencial: decidir das despesas e dos impostos. O Tesouro de Londres injecta anualmente 10 mil milhões de libras esterlinas na caixa europeia sem um verdadeiro retorno (1) para a economia e para a sociedade britânica. O governo é submetido aos procedimentos de supervisão orçamental de Bruxelas apesar da sua não-pertença ao euro. Por último e sobretudo, a Inglaterra deve respeitar as regras de livre circulação das pessoas na União.

Foi evidentemente a crise dos migrantes que funcionou de rastilho à pólvora. Até 2015, o mercado do trabalho inglês acolheu milhões de estrangeiros: empregados pouco qualificados da Ásia ou da Europa central e oriental, ou mesmo dos países do Sul da Europa devastados pela crise do euro, mas também o pessoal qualificado nos serviços financeiros, com os franceses à cabeça. Seis mil dos nossos compatriotas trabalham para a City. Desde 2007, dois milhões de cidadãos da União instalaram-se do outro lado do Canal da Mancha, é a “fair immigration”, ou em francês a “imigração escolhida”. Preenche a escassez de mão-de-obra em sectores como a construção e faz apelo aos talentos para dopar os rendimentos dos serviços financeiros.

A crise de migrantes provenientes do Médio Oriente e de Africa modificou as cartas em jogo: com esta parece estar-se na presença de uma invasão e revela-se a incapacidade política do sistema europeu. A União tem mostrado que não dispõe dos atributos de soberania, ou seja, o controlo das suas fronteiras. Não é apenas a Inglaterra que já não é plenamente soberana, mas a instância de substituição também não o é.

Pelo « Sim »

Enunciemos em primeiro lugar os argumentos capciosos. O primeiro evoca o risco para as empresas inglesas de se verem fechar os mercados da União. É absurdo, formal e substancialmente. Como é que esta poderia fechar-se aos bens e serviços ingleses enquanto que está aberta às mercadorias e aos capitais do mundo?

O segundo argumento capcioso emana de Christian Noyer, um verdadeiro representante dos nossos enarcas. Este, que acaba de abandonar o posto de governador de Banque de France, avisa os Ingleses contra o risco de verem as transacções em euros deixar a City para se realizarem no continente, retomando um argumento avançado em 1999, quando a Inglaterra renunciou definitivamente à moeda única. Contrariamente aos anúncios, a City conservou o seu papel proeminente nas transacções monetárias e financeiras, enquanto Frankfurt permaneceu uma praça financeira de segunda categoria. Pela boa razão que, o que faz a diferença, é a qualidade da praça financeira e não a moeda do país. Era verdadeiro em 1999, é verdadeiro em 2016 e sê-lo-á sempre.

Mas existe também dois argumentos sérios a favor do sim. Primeiro, o poder de influência conquistado pelos Britânicos no Parlamento europeu, na Comissão bem como nos Conselho de Ministros e de chefes de Estado. Nada poderia ilustrar melhor este ponto que o papel desempenhado por Jonathan Hill, Comissário encarregado da estabilidade financeira, dos serviços financeiros e da união dos mercados dos capitais. Nomeado em Setembro de 2014, ele esforçou-se ao máximo em liberalizar ainda mais os serviços financeiros europeus e acaba de fazer adoptar pelos governos um projecto que permitiria relançar a “titularização”, esta maravilhosa máquina a criar crédito que desembocou na grande crise financeira americana, espanhola, irlandesa, mas também inglesa (2). Naturalmente, tomar-se-iam, desta vez, as precauções necessárias. Sem nos estarmos a alongar sobre a justificação desta medida, ela mostra como é que o Reino Unido pode fazer avançar os seus interesses e os da City. Ora, no caso “de Brexit”, a proposta do seu Comissário tornar-se-ia caduca. E a City perderia uma vantagem potencial. God save the City! Eis pois, sem nenhuma sombra de dúvida, o argumento que poderá mostrar-se como decisivo para “o sim”.

Seguidamente, o medo de ver a Europa, uma vez a Inglaterra desligada, deixar-se tentar pelo proteccionismo. O argumento é formalmente absurdo. É a Inglaterra, em grandes dificuldades por um défice comercial recorde, que deveria poder encarar certas medidas de protecção comercial. De maneira simétrica, não se vê a Alemanha aceitar uma política que poria em perigo as suas formidáveis exportações! Mas é necessário aqui fazer a parte da ideologia inglesa ancorada no comércio livre, considerado como benéfico para ela e para o resto do mundo, desde o abandono das Corn Laws em 1846.

 

O Brexit” e nós

Mas o que será “o Brexit” se for visto do exterior? O que deveria saltar aos olhos de todos, é que a vitória de David Cameron abriu um precedente. Se “o sim” ganhar, qualquer país-membro da União poderá entrar em negociação com o sistema europeu pedindo para ser liberto dos seus constrangimentos negativos: Schengen, a directiva dita Bolkestein sobre os trabalhadores destacados, a doutrina da concorrência “leal e não falseada”, sem estar a esquecer o sacrossanto Tratado de estabilidade orçamental (3)… Aconteça o que acontecer, partindo de considerações muito terra a terra, David Cameron abriu talvez a via para um desmembramento progressivo da integração europeia. Então teria morto a Europa, a Europa tão desejada por François Mitterrand e Jacques Delors, e François Hollande, o seu fiel discípulo, ter-se-á apercebido disso mesmo quando subscreveu as exigências do Primeiro-ministro inglês?

  1. Uma fracção importante dos fundos de coesão estruturais europeus em proveito dos países pobres e sub-equipados da UE.

  2. Os bancos ingleses estão quase todos estatizados. 

  3. Incriminado por François Hollande durante a sua campanha,. aceite por ele em Junho de 2012, colocado sob a supervisão de Pierre Moscovici nomeado comissário em 2014.

Jean-Luc Gréau, Revista Causeur, Brexit: oui ou non, c’est win-win! God save the City. Publicado na revista Causeur e no seguinte endereço:

http://www.causeur.fr/brexit-union-europeenne-cameron-royaume-uni-38350.html#

Publicação autorizada na língua portuguesa e a ser editada em A viagem dos Argonautas.

Leave a Reply