Sobre as mentiras emitidas pelas Instituições Internacionais, assumidas como verdades pelos governos nacionais e difundidas pelos seus media – uma pequena série de artigos | 13. IV A mesma análise feita por Blanchard e Christine Lagarde – Viva a austeridad

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Sobre as mentiras emitidas pelas Instituições Internacionais, assumidas como verdades pelos governos nacionais e difundidas pelos seus media – uma pequena série de artigos

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IV – A mesma análise feita por Blanchard e Christine Lagarde – Viva a austeridad

Mais tarde, vem o economista-chefe Olivier Blanchard vem reconhecer que se enganou nos multiplicadores da despesa pública. Inacreditável, mais uma vez, e mais uma vez não acreditamos na boa-fé do senhor Olivier Blanchard e de Daniel Leigh no seu já famoso estudo Growth Forecast Errors and Fiscal Multipliers, como também não acreditamos na boa-fé de Christine Lagarde. Refiro aqui o que escrevi na carta aberta citada quanto à continuação no mesmo rumo:

Tudo dito, portanto, e não é verdade o que afirma sobre a ausência de pensamento crítico. Mas a sua narrativa sublinha e valida o que se tem feito em termos de políticas de austeridade que, uma vez não criticadas, se podem considerar por si aceites. Desta forma, o que se tem hoje como realidade económica e social na Europa é portanto o resultado dessas mesmas políticas e sobre as quais não se deve, na sua opinião, mudar de rumo como explicitamente afirma. Sobre a sua narrativa construamos uma outra, de forma rápida, e para isso tomamos como base (…) um outro texto lapidar de Weisbrot e Ray (2011), editado por CEPR, sobre a monstruosa manipulação que se tem feito à volta da deflação interna, onde se analisa a situação da Letónia, ainda bem recentemente muito elogiada em Riga por Lagarde e por Olivier Blanchard com exclamações de “Viva a austeridade” e de que seria um bom exemplo a seguir no resto da Europa. [Com efeito] de acordo com a agência Bloomberg, Christine Lagarde elogiou a Letónia, pela sua “determinação colectiva e pela sua resiliência” em resolver os seus problemas económicos e disse que este país báltico poderia servir como uma inspiração para os dirigentes europeus, na sua luta com a crise do euro. “Em vez de espalhar a dor ao longo de vários anos, fazendo-o suavemente, a Letónia decidiu ser dura e agir rapidamente”, e acrescentou que os cortes orçamentais foram de 15 por cento do PIB ao longo de três anos. “É difícil de acreditar quando se olha para trás que realmente se fez isso”, disse Lagarde, que acrescentou: “Nós interpretamos o sucesso do programa como sendo o alcançar de uma verdadeira conquista, de uma verdadeira proeza”. Disponível em http://www.businessweek.com/ap/2012-06/D9V743LO1.htm

Um gráfico bem elucidativo sobre a realidade económica da Letónia é bem exemplificativo do descaramento sem limites de quem actualmente está à frente das Instituições que nos (des) governam

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Mas viva a Austeridade é o que nos diziam Olivier Blanchard, o economista-chefe do FMI e a sua Directora Geral, Christine Lagarde.

Em Junho de 2012, Mark Weisbrot assinalava:

A Letónia sofreu as piores perdas de PIB a nível mundial durante a crise financeira mundial e a recessão de 2008-2009, sacrificando quase um quarto do seu rendimento nacional no altar da austeridade. Pior ainda, o desemprego subiu de 5,3% para mais de 20% da força de trabalho disponível. E se forem contada as pessoas que saíram do mercado de trabalho ou involuntariamente passaram a trabalhar em tempo parcial, o desemprego/subemprego atingiu um pico de mais de 30%.

Mas mesmo isso não nos dá a medida da extensão do sofrimento que suportaram os letões. Cerca de 10% da força de trabalho foi forçada a abandonar o seu país e muitos nunca mais irão voltar. A economia letã cresceu 5,5% no ano passado, mas é projectada vir a crescer apenas 2% este ano – uma recuperação lenta para um país que até agora caiu num enorme buraco. Muito pior ainda, o desemprego continua a ser brutalmente elevado e em 16,3%, segundo os dados oficiais, e de 23,6% no quadro de uma noção mais larga como a acima referida, incluindo pois os trabalhadores involuntariamente a tempo parcial e os que desistiram de estar no mercado de trabalho. As projecções do próprio FMI mostram que a Letónia, precisa de uma década completa para alcançar o valor do seu PIB pré-crise.

Se isto é um sucesso, talvez os governos da zona euro devam começar a pensar sobre o que a Troika considera insucesso.

Mas a pior parte da mensagem distorcida do Lagarde é a ideia de que os países da zona euro poderiam emular ou aprender as lições positivas da experiência da Letónia. Na verdade, a Letónia nem sequer tem uma bem-sucedida “desvalorização interna”, mesmo que se ignorem as questões sociais e os enormes custos humanos – como a Troika (BCE, Comissão Europeia e o FMI) gostam de fazer. Uma “desvalorização interna” só funciona se o país pode reduzir os seus custos de mão-de-obra suficientemente para se tornar mais competitiva nos mercados mundiais e desse modo melhorar a sua balança comercial. Isso foi feito, como foi tentada na Letónia, através da criação de desemprego em massa e da redução dos salários. (Isto não é uma teoria da conspiração: Este é o raciocínio económico real por detrás de uma estratégia de “desvalorização interna”, e como é suposto que ela possa funcionar.)

A Letónia conseguiu um grande sucesso que criar desemprego em massa, mas isso não alterou significativamente a sua taxa de câmbio real para que isso pudesse a que as suas exportações (ou a redução das suas importações) a tirassem da recessão. Na verdade, a balança comercial do país contribui muito pouco para a recuperação.”

Em suma, as verdades dos senhores que dirigem as Instituições que nos (des) governam são o que todos nós sentimos na pele como mentiras. O texto agora citado também não nos deixa dúvidas.

Mais tarde, Olivier Blanchard, o mesmo de Viva a Austeridade, vem-nos dizer num texto tornado célebre que o FMI se tenha enganado no cálculo dos multiplicadores, que estes em vez de situaram na vizinhança de 0,5 se situariam entre 0,9 e 1,7, considerando muita gente que mesmo este valor máximo de 1,7 está subestimado. Ora foi na base destes multiplicadores que foram justificadas as políticas de austeridade desencadeadas pela Troika. Na leitura desta mea culpa muita gente acreditou que as coisas iriam mudar. Aqui o engano é total como o foi com a conferência de Vitor Constâncio em Atenas que criticou duramente a UEM para depois concluir que não se devia mudar de rumo. Aqui, com Olivier Blanchard, o discurso é mais “limpo”, mais discreto, mas que concluiu ele? Por uma política de expansão, o oposto de Viva a Austeridade. Nem pensar!

Vejamos uma síntese do famoso mea culpa que não é mea culpa de coisa nenhuma:

O que é que implicam os nossos resultados sobre os actuais multiplicadores? Nos nossos resultados sugerem que os multiplicadores orçamentais actuais são maiores do que os responsáveis pelas previsões económicas estimaram. Mas o que é que eles assumiram? Responder a esta pergunta não é fácil, uma vez estes responsáveis pela previsão económica utilizam modelos em que multiplicadores orçamentais são implícitos e dependem da composição do ajustamento fiscal e outras condições adicionais. Nós acreditamos, no entanto, que era uma situação aceitável assumir que os multiplicadores usados no início da crise seriam em média de 0,5. Um número de estudos baseados nos dados anteriores à crise nas economias avançadas indica que os multiplicadores actuais de aproximadamente 0,5, são valores plausíveis e é plausível que os previsionistas façam em média, hipóteses consistentes com esta evidência.

Em Outubro de 2008 no relatório World Economic Outlook de Outubro de 2008 o capítulo sobre política orçamental apresenta estimativas de multiplicadores para 21 economias avançadas durante 1970-2007 que em média eram 0.5 dentro no espaço de três anos (IMF, 2008, p. 177). Da mesma forma, o World Economic Outlook de Outubro de 2010 no capítulo sobre consolidação orçamental apresenta estimativas de multiplicador para 15 economias avançadas durante os anos de 1979-2009 que eram em média de 0,5 por cento dentro de dois anos.

No entanto, os nossos resultados [de multiplicadores mais elevados] devem ser interpretados com cuidado. Como é sugerido por considerações de ordem teórica e empírica neste e noutros trabalhos sobre o tema, não há nenhum multiplicador que seja independente do tempo e do espaço, e isto para todos os países. Os multiplicadores podem ser maiores ou menores ao longo do tempo e de acordo com as respectivas economias. Nalguns casos, os efeitos de confiança podem compensar parcialmente os efeitos directos. Tanto quanto as economias se posicionam numa trajectória de retoma e com as economias a saírem da armadilha da liquidez, os multiplicadores deverão retornar aos seus níveis anteriores de antes da crise [ou seja, a tornarem-se depois mais pequenos].

No entanto, parece-me seguro para o momento que se atravessa e quando se pensa no processo de consolidação orçamental, passar a assumir maiores multiplicadores do que antes da crise. Finalmente, vale a pena ressaltar que decidir sobre a postura adequada da política orçamental exige muito mais do que uma avaliação sobre o valor dos multiplicadores orçamentais de curto prazo. Assim, os nossos resultados não devem ser interpretados como sendo uma argumentação a favor de uma qualquer postura específica sobre a política orçamental e em qualquer país específico. Em particular, os resultados não implicam que a consolidação orçamental seja indesejável. Virtualmente todas as economias avançadas enfrentam o desafio da ajustamento orçamental em resposta a níveis de endividamento publico elevado e de futuras pressões sobre as finanças públicas devido a mudanças demográficas. Os efeitos a curto prazo da política fiscal sobre a actividade económica são apenas um dos muitos factores que precisam de ser considerados na determinação do ritmo adequado de consolidação orçamental para qualquer país”

Tudo dito mas isto faz-me lembrar um texto que uma vez li sobre a crise dita de suprime por um muito bom analista em que este comentava com alguma ironia a justificação para a crise: esta também teve origem num erro: pensaram os valores estimados para o período da crise tomando como base os dados de bem antes da crise! Apenas isso. Aqui encontramos a mesma explicação. Mas será preciso estar pago a peso de ouro para fazer erros destes? Mas cuidado. Não se trata de um erro, mas sim de uma opção. Vejamos o texto com muito cuidado e a leitura não é muito diferente da feita por Vitor Constâncio: não se deve mudar de rumo, quando por exemplo nos diz que “os efeitos a curto prazo da política fiscal sobre a actividade económica são apenas um dos muitos factores que precisam de ser considerados na determinação do ritmo adequado de consolidação orçamental para qualquer país.” Mesmo no mea culpa a tentativa de branquear a responsabilidade dos homens do FMI quanto aos efeitos terríveis sobre as sociedades que emergem das políticas erradas que foram pelos homens do FMI determinadas, justificadas, defendidas, é também aqui mesmo impressionante.

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