Na semana que findou falou-se muito dos “cem dias de Marcelo”. Na presidência da República, obviamente.
Uma festa em contínuo, valorizam uns. Pelo meio apanhou, entre outras, a prolongada Tomada de Posse, o Carnaval, o 25 de Abril, os 40 Anos da Constituição da República, o final da Taça de Portugal de Futebol, o 10 de Junho, o Santo António, o Campeonato Europeu de Futebol e viagens, muitas viagens. Não era preciso tantos eventos e datas assinaláveis, a festa era ele, era Marcelo, se não houvesse acontecimentos relevantes Marcelo criava-os.
Um frenesim, dizem outros. Ele diz que as pessoas dizem que ele é hiperativo. Não é assim. Ele vê que as pessoas veem que Marcelo é hiperativo.
Uma canseira, dizem os maldizentes de sempre. Uns ingratos que não agradecem os esforços de Marcelo para, em 18 desses 100 dias, não ter aparecido em público, não ter falado em público, não se ter deixado envolver pelo entusiamo público.
Uma estratégia perfeitamente delineada, dizem os mais céticos, provavelmente os mais realistas. Trata-se de conquistar o máximo de simpatia, de ampliar apoios entre aqueles, muitos, para quem política é sorrisos, “porreirismo”, palmadinhas nas costas, de aproveitar a disponibilidade popular para a liderança afetuosa depois de 10 anos da fria, distante, desconfiada e cinzenta incomunicabilidade cavaquista. É a nova versão da “primavera marcelista”, já não contra o detestado salazarismo, mas contra o rejeitado cavaquismo. É uma estratégia preventiva, cujo objetivo é criar espaço de manobra, para o depois da festa, para o arrumar da feira, para a ressaca.
O outro Marcelo tinha feito sinal para a esquerda para virar à direita, dizia-se. O que não era verdade pois, se fez alguns sinais à esquerda, do que duvido, nunca deixou de seguir pela direita e para a direita, para onde nunca precisou de virar pois foi o percurso que sempre foi o seu. Este afirma que veio da direita, o que é conhecido. Só que ainda não sabemos a intenção, se foi para vir ao encontro da esquerda, ou se foi para tentar puxar a esquerda para o seu lado? A direita não gosta, a esquerda desconfia. Será que há um “centrão” à espera de Marcelo?
Será bom que Marcelo não se iluda. Já devia conhecer bem a “ingratidão do bom povo português” e como passa depressa das “euforias de apoio” às “iras do desencanto”, quando as coisas entram no real. Com o seu frenesim hiperativo reúne todas as condições para tropeçar nos próprios pés. Cuidado com o degrau!!!
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O registo dos cem dias foi também a oportunidade para os analistas voltarem a uma questão recorrente: é o semi-presidencialista regime constitucional português mais tendencialmente presidencialista, ou mais tendencialmente parlamentarista? Será que isso depende da personalidade de quem ocupa Belém? O sistema é moldável? Qual das tendências é preferível?
Creio que, para já, Marcelo resolveu a questão. De uma penada, como é sua marca. O regime é, pura e simplesmente, marcelista.
Ser marcelista quer dizer que é “presencialista”. O presidente é omnipresente, em toda a parte e em toda a hora.
Ser marcelista é ser “parlarista”. O presidente fala, fala, fala, fala torrencialmente fala de tudo. Aliás no estilo que o tornou conhecido.
Ser marcelista é ser criacionista. O presidente, se necessário, cria factos, cria pretextos, cria oportunidades para que o “presencismo” e o “parlarismo” sejam permanentes.
Ser marcelista é ser comentarista. O presidente não consegue desligar-se da atitude do comentador, que lhe está colada e que o elegeu. Não se limita a falar de acontecimentos e de pessoas, descreve, explica, justifica, critica, prevê.
Ser marcelista é ser nacional-populista. O presidente acha que os portugueses é que são bons, que são melhores que os franceses, que são os “melhores do mundo”; o presidente acha que o povo é que é bom, que as elites é que dão cabo dele; o presidente está bem é no meio do povo, semeando afetos e colhendo votos.
Ser marcelista é ser “interventista”. O presidente define prazos de validade do governo, escolhe candidatos a líderes partidários.
Para já os analistas de serviço podem estar descansados. Esse problema existencial da natureza co nosso sistema regime constitucional está, por agora, resolvido. O presidente Marcelo Rebelo de Sousa resolveu-o em cem dias.
Mas, também aqui, Marcelo que se cuide. É que o regime marcelista também está a evidenciar uma outra caraterística, e essa pode ser-lhe bem menos favorável. Está a revelar-se “banalista”. Está a banalizar a função presidencial. E a banalização do cargo que deve ser encarado pelos cidadãos como uma referência, do estatuto que deve ter acima de tudo valor simbólico, da competência que se deve impor como última instância, não é a virtude institucional mais recomendável.