Temos falado abundantemente sobre a questão do abandono da UE por parte do Reino Unido, mas faltava uma perspectiva vinda da Grã-Bretanha – deparámos hoje com um artigo do lúcido e prestigioso jornalista e analista político John Pilger – Por que motivo a Grã-Bretanha disse não à União Europeia. Curiosa a coincidência de Pilger usar, tal como nós fizemos num recente editorial, a metáfora saramaguiana da «jangada de pedra». Quem preferir ler o texto na íntegra e na versão original, basta clicar
http://johnpilger.com/articles/why-the-british-said-no-to-europe
Os britânicos não decidiram abandonar a Europa numa jangada de pedra!, o que seria muito mais complicado e de consequências mais difíceis de imaginar do que a vontade democraticamente expressa de sair da União Europeia… Convém salientar, mesmo que na União Europeia estivessem todos os países da Europa; e não estão. Quiseram sair porque, entre outras razões, «na Grã-Bretanha de hoje, 63% das crianças pobres crescem em famílias em que somente um membro tem trabalho. Para eles, a armadilha está montada. De acordo com um estudo, mais de 600 mil residentes da segunda cidade britânica, a Grande Manchester, estão «a sofrer os efeitos de uma pobreza extrema» e 1,6 milhões estão a cair na miséria»[…] foi um acto de democracia pura. Milhões de pessoas comuns recusaram ser ameaçadas, intimidadas e rejeitadas com desprezo pelos enfatuados dirigentes dos principais partidos, líderes da oligarquia dos negócios, da banca e dos media […] foi um voto dos zangados e desmoralizados pela extrema arrogância dos defensores do «ficar» e a campanha de destruição na Grã-Bretanha de uma vida civil socialmente justa. O último reduto das reformas históricas de 1945, o Serviço Nacional de Saúde, foi tão subvertido pela privatização apoiada por Conservadores e Trabalhistas que agora resolveram lutar pela sua vida […] Um primeiro aviso foi 0 do ministro das Finanças, George Osborne, uma mescla do antigo regime britânico com a máfia bancária da Europa, que ameaçou cortar 30 mil milhões de libras aos serviços públicos se as pessoas votassem da maneira errada.
Ao longo da campanha, a imigração foi explorada com um enorme cinismo, tanto por políticos populistas da direita como por políticos trabalhistas que se inspiraram na sua própria tradição de promoção e fomento do racismo, um sinal, não da corrupção na base mas sim no topo. A razão por que milhões de refugiados fugiram do Médio Oriente – primeiro do Iraque, depois da Síria – está nas invasões e no caos provocado pelos imperialistas da Grã-Bretanha, Estados Unidos, França, União Europeia e NATO. Antes disso, houve a destruição deliberada da Jugoslávia. Ainda antes houvera o roubo da Palestina e a imposição do Estado de Israel.
Os propagandistas mais eficazes do “Ideal europeu” não foram os da extrema-direita, mas a insuportável classe aristocrática para quem a Londres metropolitana é o Reino Unido. Os seus principais membros julgam-se liberais esclarecidos, mesmo «brilhantes», tribunos cultos do século XXI. O que na realidade são é uma burguesia com gostos consumistas, insaciáveis, de instintos antigos quanto à sua própria superioridade. Dia após dia, no seu jornal, o Guardian, olhavam triunfantes para os que consideravam a UE profundamente anti-democrática e uma fonte de injustiça social e de um extremismo virulento conhecido como “neoliberalismo”.
O objectivo deste extremismo é instalar uma teocracia capitalista permanente para assegurar que dois terços da sociedade, na sua maioria divididos e endividados, sejam administrados por uma classe corporativa, e os trabalhadores permanentemente pobres. Na Grã-Bretanha de hoje, 63% das crianças pobres crescem em famílias onde apenas um membro tem trabalho. Para eles, a armadilha está montada. De acordo com um estudo, mais de 600 mil residentes da segunda cidade britânica, a Grande Manchester, estão «a sofrer os efeitos da pobreza extrema» e 1,6 milhões estão a cair na miséria […] catástrofe social pouco conhecida nos media controlados pela burguesia, nomeadamente pela elite que domina a BBC. Durante a campanha do referendo, quase nenhuma peça informativa foi autorizada a intrometer-se no histérico cliché de «sair da Europa», como se a Grã-Bretanha estivesse prestes a ser arrastada por correntes contrárias para algures a norte da Islândia.
Na manhã seguinte à votação, um repórter de rádio da BBC deu as boas-vindas a políticos no seu estúdio como se fossem velhos amigos. «Bem», disse ele para o «Lorde» Peter Mandelson, o arquitecto da desgraça do blairismo, «por que é que estas pessoas querem isto?» Ora «estas pessoas» são a maioria dos britânicos[…]O abastado criminoso de guerra, Tony Blair,continua a ser um herói da classe «europeia» de Mandelson, embora poucos se atrevam a dizê-lo nos dias de hoje. O Guardian uma vez descreveu Blair como o «místico» que tem sido fiel ao seu «projecto» de guerra de rapina. No dia seguinte à votação, o colunista Martin Kettle propôs uma solução brechtiana para o mau uso da democracia pelas massas. «Agora certamente que concordamos que os referendos são maus para a Grã-Bretanha», dizia a manchete encimando o seu artigo de página inteira. O «nós» não foi explicado, mas foi entendido – assim como «estas pessoas» também foi entendido. «O referendo retirou legitimidade à política, apenas (…); O veredicto sobre os referendos deveria ser implacável. Nunca mais».
A espécie de brutalidade de que Kettle sente saudade é encontrada na Grécia, um país agora em evaporação. Ali, também eles tiveram um referendo mas o resultado foi ignorado. Tal como o Partido Trabalhista na Grã-Bretanha, também os dirigentes do governo Syriza em Atenas são produtos de uma classe média educada, rica, altamente privilegiada, treinada na falsificação e na traição política do pós-modernismo. O povo grego corajosamente utilizou o referendo para pedir ao seu governo «melhores condições» em relação a um status quo venal em Bruxelas que estava a esmagar a vida do seu país. Foi traído, tal como os britânicos teriam sido traídos.
Na sexta-feira, a BBC perguntou ao líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, se homenagiaria a despedida de Cameron, seu camarada na campanha do «ficar». Corbyn, repugnantemente, louvou a «dignidade» de Cameron e desviou a conversa para o seu apoio ao casamento gay e as suas desculpas às famílias irlandesas enlutadas pelo domingo sangrento . Nada disse sobre a tendência para a discórdia de Cameron, suas políticas de austeridade brutal, suas mentiras sobre a «defesa» do Serviço de Saúde. Nem tão pouco recordou pessoas que prepararam guerras no governo Cameron: o envio de forças especiais britânicas para a Líbia e os tripulantes britânicos que faziam pontaria para bombas da Arábia Saudita e, acima de tudo, a saudação à terceira guerra mundial.
Na semana da realização do referendo, nenhum político britânico nem, que saiba, qualquer jornalista se referiu ao discurso de Vladimir Putin em S. Petersburgo, comemorativo do 75º aniversário da invasão da União Soviética pela Alemanha nazi em 22 de Junho de 1941. […] Putin comparou a actual movimentação de tropas e material bélico da NATO para as proximidades das fronteiras ocidentais da Rússia, à Operação Barbarossa do Terceiro Reich. Os exercícios da NATO na Polónia foram os maiores desde a invasão nazi; a Operação Anaconda simulou um ataque à Rússia, presumivelmente com armas nucleares. Na véspera do referendo, Jens Stoltenberg, secretário-geral da NATO, avisou os britânicos de que estariam a pôr em risco «a paz e a segurança» se votassem pelo abandono da UE. Os milhões que o ignoraram, tal como ignoraram Cameron, Osborne, Corby, Obama e o tipo que dirige o Banco da Inglaterra, desferiram uma bofetada, a favor da paz e da democracia na Europa.
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