CARTA DE VENEZA – LIXO E LIXEIRAS – por Vanessa Castagna

carta de veneza

 

vanessa castagna

 

Das muitas peculiaridades que marcam o dia a dia veneziano, sobretudo o dos seus habitantes, cabe hoje mencionar o lixo, cuja gestão é especialmente delicada numa cidade em que não se prevêem contentores devido a imposições de estética. O tratamento de resíduos, de resto, não pode ser efetuado no local e diariamente (tirando domingos e feriados) o lixo é transportado em barcos para longe da laguna.

Mesmo os turistas menos atentos – os que não se tenham apercebido da falta de contentores para recolha de lixo – devem ter-se deparado, ao começo do dia, com sacos às portas das casas e outros amontoados nas fondamenta onde os barcos vêm buscá-los. Alguns até se terão cruzado com os lixeiros que os carregam em carrinhos próprios para os levarem ao ponto de embarque de cada zona.

Na cidade não há sequer um número suficiente de caixotes para recolher o lixo produzido todos os dias por quem anda na rua e, principalmente nas épocas de maior afluência de turistas, não é raro acumularem-se resíduos à volta desses caixotes, com efeitos desagradáveis para o olhar e não só. Ao fim e ao cabo, em Veneza ratos e ratazanas ainda têm boas condições de vida.

A greve dos trabalhadores deste setor tem sempre um impacto imediato, sobretudo se for no verão, como já estava previsto para os dias 13 e 14 de julho. Os interessados reclamavam a falta de renovação do contrato nacional, já vencido há 30 meses, e só após uma longa negociação se chegou a um acordo que deixou todos mais aliviados.

Custa falar de lixo e, no entanto, ele constitui um universo (aliás, um “submundo”, como diria Don DeLillo) em que os interesses em causa são enormes e, não por acaso, é um dos terrenos em que mais proveitosamente opera a economia mafiosa. O lixo pode tornar-se no pesadelo de qualquer cidade, uma ameaça e um instrumento de chantagem. Para Veneza continua a ser um grande desafio, especialmente em épocas de capitalismo avançado e consumismo autocomplacente.

Lixo - I

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