CARTA DO RIO – 112 por Rachel Gutiérrez

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A semana foi assustadora. O terrorismo quer anunciar o fim do mundo. Sim, é esta a ameaça dos jihadistas: o fim do mundo civilizado, o fim dos valores do Ocidente, sua laicidade, sua diversidade e suas festas, sua teimosa celebração da vida. Na França, não há festa mais bonita e contagiante do que o 14 juillet, que rememora a queda da Bastilha e celebra a Revolução que se coroou de palavras mágicas: Liberdade, Igualdade, Fraternidade.

Nice é uma das cidades mais felizes da França. A Promenade des Anglais, que enfeita sua orla extensa e bonita, é como o nosso calçadão, lugar de longas caminhadas, de distensão, de passeio para chinês nenhum botar defeito.  E foi justamente ali, onde havia paz e alegria, beleza e cor dos fogos de artifício que um insano infeliz escolheu matar, destruir arrasar.

Depois, veio a tentativa de golpe na Turquia, com um número ainda maior de mortos, com notícias contraditórias e insuficientes sobre quem defende, de fato, a legalidade e a liberdade. Para a pacifista que sou, toda violência é absurda, todo conflito armado é aberrante, mas a imprevisibilidade dos atos terroristas lhes confere um poder total, absoluto. É o Mal absoluto.

O mundo está muito triste. Aterrador!unnamed

E foi por isso que a menina Esperança, que costuma sair do poema de Péguy para me visitar em momentos difíceis, veio desta vez com suas companheiras, duas senhoras bastante idosas e cansadas: a Fé e a Caridade.  As três, tão diferentes, como se sabe, encarnam as Virtudes Teologais que Péguy quis celebrar em seu poema. Acostumada com as visitas de Esperança, fiquei muito surpresa quando ela entrou com as outras duas, na minha sala, esta manhã. Elas são irmãs, mas a diferença de idade entre as duas mais velhas e a menor é muito grande. Esperança é temporã.

 

Observo a que se chama Fé e lembro que Péguy em dado momento de seu longo poema a comparou a uma Catedral. Ela é vetusta, bastante austera, alta e magra, olhos escuros muito profundos, e um leve sorriso ilumina-lhe o rosto. Já Caridade mais parece uma senhora gorda e tranquila, com braços redondos, acolhedores. Péguy a comparou a um grande hospital de Misericórdia, un Hôpital-Dieu. Não é, portanto, por acaso que sua roupa sugere um antigo uniforme da Cruz Vermelha.

La Foi est une Épouse fidèle

La Charité est une Mère.

Une mère ardente, pleine de coeur.

 

(A Fé é uma Esposa fiel/ A Caridade é uma Mãe/ Uma mãe ardente, de grande coração.)

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Minhas visitantes estão abatidas e tristes.

Caridade é a primeira a falar. Diz que tem sofrido muito por causa da situação dos refugiados na Europa, mas também não esquece os casos terríveis de balas perdidas no Rio de Janeiro, tantas crianças, tantas vítimas inocentes, como as inocentes vítimas de Nice. Sofre também com o desespero dos desempregados mundo afora e aqui, com os dependentes de drogas e os viciados em crack de São Paulo e do Rio. Na Europa, sofre com a desesperança dos jovens ingleses, que se sentiram traídos pelo resultado do último plebiscito, preocupa-se com o problema racial nunca resolvido nos Estados Unidos e com a perspectiva de uma vitória de Trump… são muitos os problemas que enfrenta a bondosa e cansada Caridade.

Fico olhando para a aparente impassibilidade de Fé, a mais velha e a mais misteriosa. E acho estranho que ainda esteja viva num mundo como o de hoje. Então ela repete as palavras do poeta:

… Pour croire il n’y a quà se laisser aller, Il n’y a quà regarder

( Para  crer basta se deixar levar, basta olhar)

O poeta a comparou a uma velha avó, uma boa paroquiana, uma simpática velhinha que nos conta histórias dos tempos antigos, que aconteceram há muito, muito tempo… Confesso que a admiro ainda mais. E imagino que ela viva mesmo numa Catedral, onde a luz atravessa os vitrais e enche tudo de cores brilhantes, onde a polifonia dos cânticos mistura vozes diferentes numa harmonia bela e intensa. E tenho vontade de ouvir todas as vozes das muitas formas de Fé numa grande Catedral.

Fé sabe que o mundo contemporâneo dela muito se afastou, sabe que há novos deuses fortes e terríveis: o dinheiro, o poder, a prepotência e a corrupção. Mundo onde o parecer e o ter tomaram o lugar do ser. Mas ela é forte e sabe se renovar até mesmo em crenças ingênuas como as da autoajuda, do “pensamento positivo” etc. Com Caridade, luta pela preservação da Natureza e pela “sustentabilidade.”

Surpreendentemente, a mais triste de todas, nesta visita, é a “menininha de nada”, aquela que nos deveria dar Bom Dia todas as manhãs. Porque é ela que deve carregar tudo em seus frágeis braços, é Esperança que sabe se projetar no futuro para transfigurá-lo, novo, melhor.

Car la Foi ne voit que ce qui est,

Et elle elle voit ce qui sera.

La Charité n’aime que ce qui est

Et elle elle aime ce qui sera.

 

( Porque a Fé só vê aquilo que é

E ela vê o que será.

A Caridade só ama o que é

E ela ama o que virá.)

Sim, a Fé se desdobra e se mantém, a Caridade, mal ou bem, faz o que pode. Mas, convenhamos, está difícil para a menina Esperança ver com alegria o que nos reserva o futuro. Vislumbrar dias melhores, sonhar com a Paz e com a Fraternidade. Acreditar que há solução para este nosso tão triste e insensato mundo. Diz o poeta:

… La Charité est une mère et une soeur.

Pour ne pas aimer son prochain, mon enfant, il

faudrait se boucher les yeux et les oreilles.

À tant de cris  de détresse.

 

( … A Caridade é uma mãe e uma irmã

Para não amar seu próximo, minha criança, seria

preciso tapar os olhos e os ouvidos.

Aos tantos gritos de aflição. )

Terríveis são os tempos em que precisamos descobrir forças para consolar e reanimar a mais preciosa das Virtudes: minha amiguinha Esperança.

 

2 Comments

  1. Gostei de ler, minha querida amiga. Uma abordagem diferente dos tempos que vivemos, abordagem culta, profunda que está de harmonia com o Ser que és.
    António

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