
Há dias atrás, referi aqui o espanto que causou em alguns meios intelectuais a publicação da correspondência privada de René Magritte com o seu agente em Nova Iorque. Surpreendeu, sobretudo, a minúcia do grande pintor surrealista belga na abordagem das questões comerciais relacionadas com os seus quadros. A propósito desse pequeno e despretensioso texto, travou-se depois um interessante debate com judiciosas intervenções, particularmente as do Adão Cruz e do Josep Vidal. Na realidade, poetas, pintores, escritores, artistas, em suma, têm de sobreviver como qualquer outro ser humano – transaccionando a sua obra ou desenvolvendo outras actividades.
E acredito que o carácter prosaico de algumas dessas actividades choque as pessoas que vêem no artista o demiurgo, o criador de transcendência, não conseguindo vislumbrar para além da persona o ser humano, o homem-comum. Usando mais uma vez Fernando Pessoa como exemplo, não terá sido um desperdício para a Literatura Universal que ele tenha gasto tempo a escrever cartas comerciais? Cartas, aliás, escritas num inglês de uma qualidade tão refinada que os destinatários se surpreendiam com a linguagem com que o correspondente tratava assuntos comerciais. Por outro lado, terá sido essa experiência que lhe permitiu escrever o Livro do Desassossego.
Numa conferência que deu em Tomar, em meados dos anos 60. o escritor Alves Redol referiu que numa reunião de trabalho de uma agência de publicidade, estavam quatro escritores muito conhecidos (Redol era um deles) tentando encontrar a melhor frase para o anúncio a uma máquina de lavar. Hei-de um dia abordar aqui a relação da publicidade com a literatura e a arte. Pessoa (que também escreveu tetxos para anúncios) perdendo tempo num escritório, Alves Redol, e tantos outros escritores, procurando as palavras mais apelativas para vender electrodomésticos, são dois exemplos.
Porém, o caso de Jean-Arthur Rimbaud (1854 -1891), é ainda mais chocante. A sua obra principal – Une Saison en Enfer,
Iluminations e Bateau Ivre – foi escrita entre os 15 e os 18 anos, na adolescência, portanto. Com Lautréamont e Alfred Jarry, foi, mesmo assim, um dos maiores poetas do Simbolismo francês e, já no século XX. uma das maiores referências do movimento surrealista. E as suas obras, mais de um século após terem sido escritas, ainda são inovadoras.
Numa conversa à mesa do Gelo, ouvi uma vez Herberto Hélder afirmar que um jovem pode ser um grande poeta (e referiu o exemplo de Rimbaud), mas que só a maturidade confere a experiência indispensável a um bom romancista. Parece-me uma teoria comprovada – poeta pode-se ser em qualquer idade; romancistas adolescentes, não me estou a lembrar de nenhum e se existe é a tal excepção que confirma a regra. Numa carta a Izambard e a Paul Demeny explicava o seu método para chegar à transcendência poética ou o poder visionário através do “longo, imenso e sensato desregramento de todos os sentidos.” (Les lettres du Voyant [As Cartas do Vidente]).
Como é possível que um poeta luminoso como Jean-Arthur Rimbaud, que um jovem de um tão invulgar génio poético, tenha dado lugar a um adulto tão diferente? A um traficante de armas?
Disso falaremos amanhã.
(Continua)
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Este artigo de Carlos Loures foi publicado no Estrolabio em 12 de Fevereiro de 2011. Clicar em:
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