CONTOS & CRÓNICAS – PELAS ESTRADAS DE INGLATERRA, por António Gomes Marques

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Será que Warren Buffett leu Lénine? - por António Gomes Marques

 

 

No passado dia 12 de Julho, durante uma visita a Inglaterra, estava planeado sairmos de Plymouth (Foz do Rio Ply) -de onde partiu o «Mayflower» para o Novo Mundo- logo após o pequeno-almoço, com destino a Bristol, com uma primeira paragem em Dartmouth (Foz do Rio Dart), onde, desde 1905, se encontra a Academia da Marinha Britânica.

Dartmouth é uma cidade do sul do Condado de Devon, de onde partiram as duas primeiras Cruzadas (anos de 1147 e de 1190), tendo sido duas vezes saqueada durante a Guerra dos Cem Anos.

Quando estávamos a 7 milhas da cidade, as indicações diziam-nos que devíamos virar à esquerda, mas, surpreendentemente por não termos dado conta de qualquer aviso anterior, verificámos que a estrada estava cortada, naturalmente para aproveitar o tempo de Verão para as obras de conservação, tendo em conta que tal conservação só pode acontecer a partir da Primavera e até aos primeiros dias do Outono, devido às más condições climatéricas nos restantes períodos do ano. A contragosto, lá tivemos de virar à direita, o que nos obrigava a percorrer bastantes mais milhas, mas com a agradável passagem por uma pequena cidade: Kingsbridge (imagens abaixo), na qual fizemos uma paragem para responder às exigências do organismo –não, não é de comida que se trata!- e onde pudemos circular por uma pequena feira de artesanato e de outros produtos da terra, além de uma feira de livros e discos, em parte em segunda mão. Por falar em livros, a cidade poderá fazer-nos recordar Ken Follett e as suas Kingsbridge series: «The Pillars of the Earth» (1989) e «World Without End» (2007)

O prazer que esta inesperada visita a Kingsbridge nos trouxe não fazia adivinhar o que nos esperava.

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Retomámos o caminho para Dartmouth e, poucos quilómetros andados, entrámos numa longa fila de viaturas, camiões, autocarros e automóveis de todo o tipo, que nos retardavam a marcha para o nosso destino. Passada uma hora e a pouco mais de uma dezena de quilómetros de Kingsbridge, foi decidido voltar para trás e esquecer a visita a Dartmouth, tomando agora como destino seguinte Glastonbury, que alguns classificam como a ilha perdida de Avalon, e em cuja Abadia os monges ali residentes no século XII asseguraram ter encontrado os restos mortais do mítico Rei Artur e da sua amada Guinevere. Mesmo hoje, há quem afirme que foram pessoas reais, que existiram mesmo, o que não deixa de chamar mais a atenção para a história maravilhosa do Rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda. O «túmulo do Rei Artur» está devidamente assinalado e eu, na impossibilidade de o abraçar, resolvi pôr o meu braço na placa identificadora. Real ou fictícia, a personagem do Rei Artur merece o meu abraço:

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Mas voltemos à estrada que a esta cidade nos conduziria. Teríamos de passar, de novo, por Kingsbridge e de reduzir o tempo para almoço comprando algo para enganar a fome numa estação de serviço, como fizemos.

As estradas da Grã-Bretanha fizeram-me lembrar as da Irlanda, embora com um piso bastante mais bem tratado. À dificuldade das filas de trânsito nos dois sentidos, juntou-se o facto de as estradas serem muito estreitas, o que obriga, muitas vezes, a que uma viatura tenha de parar e encostar-se o mais possível à esquerda (lembremos que em toda a Grã-Bretanha se conduz pela esquerda) para permitir que a outra viatura passe:

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Durante todo o trajecto e mesmo aquando das manobras a que o Sr. Costa, o motorista, verdadeiramente excelente e óptimo profissional, do nosso autocarro se viu obrigado, não vimos um único polícia de trânsito, como estamos habituados em Portugal e noutros países quando há obras nas estradas. Houve mesmo momentos em que o guia se viu obrigado a «impor a sua autoridade», levando alguns condutores a recuarem em determinado momento ou a avançarem quando ele assim indicava, mostrando não ser apenas Valente no apelido, como na imagem seguinte se pode verificar, sendo o Armindo Valente a figura ao fundo da fotografia, no meio da faixa esquerda da estrada, a dar as necessárias indicações:

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Foi então que me ocorreu uma ideia que pode trazer algum benefício ao nosso défice. Vejamos:

O governo português poderia propor a transferência para a Grã-Bretanha dos antigos primeiros-ministros, a partir de Cavaco Silva e a terminar em Passos Coelho, que ainda não tivessem sido «exportados», como é o caso do «Cherne», onde o governo dos nossos mais antigos aliados os colocaria num gabinete que tivesse por função conceber e dirigir a construção de auto-estradas em todo o território e, já agora, poderia mesmo tal gabinete assumir tal tarefa em todo o Reino Unido, juntando-se o país que para isso falta, ou seja, a Irlanda do Norte. São pessoas muito experientes e que, com a prática obtida em Portugal, poderiam prestar este valioso serviço a Sua Majestade a Rainha Isabel II, com a certeza de que, sendo tamanha a prática destes «construtores», a Rainha ainda teria, com toda a certeza, tempo de vida suficiente para cortar as fitas nas respectivas inaugurações.

Passos Coelho não teve dinheiro nem autorização de Bruxelas e do ministro das finanças alemão para fazer muitos quilómetros de auto-estradas, mas foi o que mais prática teve a ajoelhar, o que não deixaria de agradar a Isabel II, sobretudo aquando do corte das fitas nas inaugurações.

Seria um óptimo serviço prestado a Portugal, que assim se veria livre destas grandes figuras, e um não menos excelente serviço prestado a Sua Majestade, que acabaria por os nomear com um qualquer grau nobiliárquico. O Reino Unido, assim, poderia ficar arruinado, mas em vez de ter apenas as auto-estradas absolutamente necessárias, passaria a ser um Reino moderno e com auto-estradas suficientes para que não mais eu tivesse de parar numa fila de trânsito nas próximas viagens que possa ainda fazer àqueles países

Digam lá se não é uma bela ideia!

Portela (de Sacavém), 2016-07-19

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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