AS MUDANÇAS AFECTAM A DIVISÃO DO TRABALHO – ROBOTIZAÇÃO E ECONOMIA DIGITAL ACENTUAM A FRAGILIDADE DO EMPREGO – por IGNACIO MURO BENAYAS

Falareconomia1

Selecção de Júlio Marques Mota. Texto remetido por Francisco Tavares.

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As mudanças afetam a divisão do trabalho

Robotização e economia digital acentuam a fragilidade do emprego

Ignacio Muro Benayas, Los cambios afectan a la división del trabajo – Robotización y economía digital acentúan la fragilidad del empleo

http://www.bez.es/ , 29 de janeiro de 2016

Os papéis funcionais redefinem-se e o emprego polariza-se.

A novidade é que são os postos de trabalho intermédios os que desaparecem.

O mercado laboral está num buraco cada vez maior nas economias da OCDE.

Benayas - I
Operários trabalham junto a robots numa fábrica japonesa; Issei Kato/Reuters

A industrialização acelerada dos serviços dará lugar, por um lado, a novos espaços de concentração de efetivos humanos, com salários base, potencialmente propensos a reivindicações coletivas, e, por outro lado, à explosão de um novo perfil de trabalhadores autónomos, associados à figura do que John Moravec denomina `knowmads´, novos nómadas, pessoas disponíveis para trabalhar a qualquer hora, em qualquer lugar.

A evolução de curto prazo do emprego, que está refletido nas estatísticas do desemprego registado ou nos inquéritos da EPA (Encuesta de población Activa do Instituto Nacional de Estadística de Espanha), a sua pouca qualidade associada à contratação temporal e precária, costuma preocupar, e com razão, os cidadãos.

Contudo, não é habitual perguntarmo-nos em que medida determinadas características dos novos empregos estão ligados às mudanças tecnológicas que vemos diariamente. Isso levar-nos-ia a responder às seguintes perguntas:

Porquê o aumento da produtividade, que sem dúvida provocam estas mudanças, não levou à elevação do nível de vida da maioria das pessoas?

E porque existem dúvidas razoáveis quanto à sua influência negativa sobre a qualidade do emprego ou, inclusive, sobre o risco de que provoque, desta vez, uma destruição líquida de postos de trabalho?

As dúvidas partilhadas por tecnólogos e economistas pertencentes a instituições de primeiro nível resumem-se a duas questões fundamentais:

  • Se a perda de empregos provocada pela digitalização encontrará contrapartida com a criação de outros empregos que equilibrariam a balança e

  • se a tecnologia digital será, apesar dos aumentos de produtividade que provoca, uma fonte acrescida de desigualdade social.

No fundo trata-se de analisar se o optimista princípio da destruição criativa, elaborado por Schumpetter, se cumprirá desta vez. Ou, por outras palavras, se a combinação entre uma instabilidade financeira recorrente, com crises periódicas, e uma mudança tecnológica rupturista nos colocará perante um cenário com consequências sobre o emprego absolutamente diferentes das que têm sido atribuídas à denominada sociedade do conhecimento.

Desemprego massivo ou apenas mudanças na divisão do trabalho?

Os diversos estudos que analisam a influência tecnológica sobre o mercado de trabalho estadounidense costumam utilizar os últimos anos do século passado como referente da consolidação da nova onda tecnológica. Esses estudos têm ocupado não apenas grandes especialistas mas também instituições de prestígio como o MIT, que publicou, em 2012, um extenso relatório sobre o futuro do mercado de trabalho, ou mais recentemente, em 2014, o Instituto Pew Research que efectuou um inquérito entre quase 2.000 grandes peritos que deviam responder quanto à incidência estimada da mudança tecnológica sobre o emprego líquido tendo por horizonte o ano de 2025.

Se acrescentarmos a estas análises prospetivas os relatórios que a OCDE realizou sobre as mudanças no mercado de trabalho desde 1995, obtemos um horizonte de 30 anos que transcende uma perspetiva meramente conjuntural e que identifica tendências de um largo ciclo tecnológico com alguma consistência estrutural.

Não é tanto que as mudanças façam correr o risco de uma vaga de desemprego massivo mas sim, fundamentalmente, alterações na divisão do trabalho e na utilização do emprego qualificado que, de alguma forma, rompem com os paradigmas que identificamos com a chamada sociedade da informação.

Se os diagnósticos antecipam efeitos negativos sobre o emprego nos Estados Unidos, a indiscutível primeira potência tecnológica, parece óbvio que as consequências para os países da União Europeia serão piores e, em maior medida, para os que como Espanha ocupam posições intermédias na cadeia de valor. De alguma forma, a sobrequalificação e a precarização do emprego que sofrem os nossos jovens, estariam enquadrados neste contexto e seriam somente uma antecipação de uma vaga mais geral.

As mudanças nos processos produtivos fazem-nos entrar num novo taylorismo. As tarefas mais complexas, como a programação de um computador ou a redação de um texto legal, podem se já ser decompostas em partes do mesmo modo que o taylorismo decompôs, no início do século XX, as operações humanas mais mecânicas.

As mudanças têm uma dupla dimensão: por um lado, revolucionam os subsectores de serviços, especialmente os que estão mais ligados com os profissionais do conhecimento; por outro, convulsionam os processos industriais e de fabrico pela entrada em cena de uma nova geração de robots de uso geral. As novas máquinas não estão mais concebidas para determinados postos de trabalho de determinadas indústrias mas sim são adaptáveis a diversos tipos de negócios, e dizem respeito a tarefas comuns de muitos sectores de atividade. Em qualquer caso, o contributo do ser humano fica profundamente alterado, porque qualquer trabalho que possa ser sistematizado em rotinas fica aberto à automatização total ou parcial.

O inflar do emprego

O que o economista do MIT David Autor assinalava em 2010  está a ser confirmado pelos factos: nas economias da OCDE o mercado laboral está a inflar-se. As oportunidades concentram-se cada vez mais, por um lado, em poucos empregos de alta qualificação e salários muito altos dedicados a tarefas abstratas e, por outro lado, numa maioria de perfis de baixa qualificação, principalmente postos de trabalho da indústria de serviços no escalão pior remunerado (preparadores de alimentos, ajudantes de cuidados no lar e outros associados às diversas formas de venda).  Os papéis funcionais redefinem-se e o emprego polariza-se.

A novidade é que são os postos de trabalho intermédios os que começam a desaparecer, o que significa que está em perigo uma boa parte dos empregos mais qualificados ocupados por licenciados, que até agora representavam as profissões liberais independentes, como arquitetos, médicos, advogados ou professores. E as classes médias. Eles, e outros como eles, ver-se-ão afetados na medida em que realizam trabalhos em que são segregáveis funções rotineiras ou em que novas aplicações podem tirar partido, por exemplo, da sua capacidade para analisar imagens ou compreender o vocabulário em contextos complexos.

Os consensos entre os peritos integrados no painel do Pew Research apontam para o que hoje começa a ser evidente o que no futuro se acentuará, com duas consequências: por um lado, continuará a ampliar-se o leque salarial entre os diferentes tipos de trabalhadores; por outro lado, muitos dos empregos perdidos nos últimos anos não regressarão.

Mudanças na natureza do trabalho e no contrato social

Se esta nova forma de produzir acarreta profundas implicações na organização do trabalho, também o acarretará na natureza do contrato social. A industrialização acelerada dos serviços dará lugar, por um lado, a novos espaços de concentração de efetivos humanos, com salários base, potencialmente propensos a reivindicações coletivas, e, por outro lado, à explosão de um novo perfil de autónomos, associados à figura do que John Moravec apelida de knowmads, novos nómadas, pessoas disponíveis para trabalhar a qualquer hora, em qualquer lugar. Os think tank e outros centros de pensamento estratégico cuidam já de elogiar o papel desses freelance globais, considerados modelo e exemplo da liberdade do novo trabalhador, a mais adequada aos novos tempos. Correspondem a um modelo social em que a estabilidade nos ganhos familiares requerirá aos membros ativos assumirem, em plena liberdade, diferentes trabalhos a tempo parcial, com horários dispersos e retribuições variáveis “que tornarão mais fácil a conciliação da vida familiar e laboral”.

Fica preocupado com este diagnóstico? Pois confiemos em que a sociedade (ou seja, nós mesmos) encontre o caminho para que se distribuam adequadamente os aumentos de produtividade gerados pelas mudanças tecnológicas, que são, desde logo, suficientes para melhorar os níveis de bemestar herdados, desde que a sua repartição entre capital e trabalho seja a adequada.

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Ver o original em:

http://www.bez.es/272071533/La-digitalizacion-debilita-la-calidad-del-empleo.html#posicion_1

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