
As pessoas mais sensíveis à teoria da conspiração tendem, quando buscam as causas ou responsáveis pelas crises, pelas convulsões, pelos confrontos, que eclodem nas sociedades, no interior dos Estados ou entre Estados, a fixar-se em quem com elas beneficia, quem delas tira proveito. A recente tentativa de golpe de estado militar na Turquia, de 15 de Julho, deu oportunidade para largas especulações baseadas nesta teoria.
Pela minha parte não tenho por base, nas análises que faço das crises e conflitos, os argumentos da teoria da conspiração. Se o tivesse a minha leitura do PREC português dos anos 1974-1975 seria, provavelmente, muito diferente da que faço. Mas, não deixo de reconhecer que a reação do presidente Recep Erdogan, a rapidez, amplitude e profundidade do contragolpe, tudo indica que minuciosamente pré-planeado e, muito particularmente a sua inspirada invocação de que o golpe militar fora uma “bênção de Deus”, confere trunfos poderosos aos apologistas da teoria da conspiração.
A generalidade dos observadores estranha o amadorismo e aparente improvisação do golpe militar, intrigante dada a quantidade de altos quadros militares, políticos, juristas, académicos que, segundo Erdogan, nele terão estado envolvidos. Para mim o mais surpreendente foi nunca ter surgido, da parte dos militares que em 15 de Julho saíram para as ruas, ou de quem os empurrou, a preocupação de dizerem ao que vinham. Para além de uma inócua auto-designação de “Comité para a Paz na Pátria”, que pretende invocar Atatürk o que não os distingue da generalidade dos turcos de hoje, a vaga proposta de restaurar a ordem constitucional, direitos, liberdades e o primado da lei, pouco adianta. Evidentemente que, com a vitória em toda a linha de Erdogan e do seu Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) e com a fulminante e colossal purga que se seguiu, nunca mais os revoltosos terão oportunidade de esclarecer os seus objetivos, porque a “verdade” vai ser a que os vencedores difundirem. E não deixa de ser pouco abonatório para os “putchistas” que todos os partidos representados no Parlamento, incluindo o pró-curdo Partido Democrático do Povo (HDP), tenham de imediato condenado o golpe militar. Sabemos bem que nestas situações há, muitas vezes, unanimismos impostos ou convenientes, mas o HDP tem sido reiteradamente uma voz contra Erdogan, a sua condenação do golpe foi anterior à dimensão que a purga viria a assumir e já se demarcou publicamente da possível reintrodução da pena de morte. Parece claro que o HDP não se identificou com a tentativa do golpe militar.
Era fundamental, para que ganhassem a indispensável credibilidade que, de pronto, os militares do 15 de Julho tivessem dado a conhecer, num comunicado, um programa mínimo, pelo menos os grandes objetivos. Creio que chegaram a controlar grandes órgãos de comunicação social, da TV e rádio mas, mesmo que assim não fosse não usaram as redes sociais, poderosa arma da atualidade que foi decisiva na maioria das mal-designadas “primaveras árabes”. Acabou por ser Erdogan a fazê-lo e, através delas, chamar o povo à rua e desencadear o contragolpe. Os apoiantes de Erdogan compareceram em massa enquanto os militares pareciam isolados e, a imagem que transpareceu de que estavam contra o povo, foi demolidora.
Os responsáveis pelo 15 de Julho deviam ter-se pronunciado sobre alguns pontos-chave que poderiam fazer a diferença. Destaco três:
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Daesh: como se posicionavam perante o Estado Islâmico; condenavam a atitude dúplice do Estado Turco ou proclamavam, não apenas a sua condenação mas uma estratégia clara para o combater?
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Curdos: qual a opção sobre o Curdistão Turco; continuavam a considerá-lo o principal inimigo e intensificavam a repressão ou admitiam negociar as suas reivindicações e apoiar os curdos sírios e iraquianos contra o Daesh?
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Palestina: qual a política em relação ao conflito israelo-palestino; prosseguiam as ambíguas relações com Israel que têm sido quase sempre favoráveis ao sionismo, ou optavam decididamente por um reconhecimento dos direitos do povo palestino nos termos das Resoluções da ONU?
