
Requiem para uma União Europeia já moribunda- Reflexões em torno do Brexit, da UE e da globalização

E depois do Brexit caiu o pano e ninguém estava em cena, o palco estava vazio. David Cameron, Boris Johnson, Nick Farage, Jeremy Corbyn, todos eles tinham daí desaparecido, ou melhor, eles nunca lá estiveram, estiveram sim as suas sombras e estas esfumaram-se com o fim do espetáculo, com o resultado da votação Brexit. Naturalmente assim. O espetáculo era apenas virtual, um espetáculo de puras imagens virtuais e nessa ilusão mobilizaram todo o país. Mas a história tem destas ironias, o mal-estar das populações, para o qual há múltiplas razões, transformou em espetáculo real o que à partida estava programado para ser apenas virtual. Um resultado que ninguém quis aceitar. Por isso, face aos resultados da farsa organizada, os políticos fugiram, abrigados na sua fuga pelos media, so british, que tudo fizeram a seguir para os desculpabilizar, BBC incluída.…porque os Brexiters eram a incultura, a barbárie mesmo.
Duas referências quanto à aceitação da votação.
A primeira vem-nos de uma personalidade alemã, Gunther Krichbaum, presidente do Comité dos Assuntos Comunitários Europeus no Parlamento alemão e membro do CDU, que comentava assim três dias depois os resultados do referendo:
“A União europeia contará sempre 28 membros, após a saída do Reino Unido, uma vez que esperamos um segundo referendo sobre a independência na Escócia, que será então vitorioso.”
A segunda é relatada pelo intelectual Brian Gould[1]. No seu blog conta-nos ele:
Entre muitas reações histéricas à decisão de Brexit, um post particular no Facebook chamou-me a atenção. O autor estava convencido que a decisão de sair da UE era o equivalente ao saquear de Roma pelos visigodos, e isto quando a civilização romana estava já nos seus últimos dias.
A esta posição responde Brian Gould:
Não pareceu ocorrer-lhe que a decisão de deixar a UE era o produto de um voto em que uma maioria dos seus concidadãos teve simplesmente, como parte do seu direito democrático, teve um ponto de vista, ou vários pontos de vista, sobre um assunto de interesse para toda a comunidade, e estes pontos de vista eram tão válidos quanto os seus, mas diferentes dos seus. Os bárbaros que ele fustiga não eram invasores de nenhum outro lado; eram britânicos como ele, gozando o mesmo direito que ele teve em analisar as questões e expressar depois o seu ponto de vista pelo voto. É a esta prática que se chama democracia.
A fúria e o ódio despertados pela descoberta que havia realmente uma maioria que discordava de aqueles que pensam que só eles são capazes de decidir o que é correto e apropriado – e a raiva com que aqueles sentimentos são expressos – fornecem-nos uma clara ideia da mentalidade de muitos daqueles que simplesmente não poderiam acreditar que um outro ponto de vista diferente do seu seria possível
Assim são grande parte dos Remainders. A própria campanha mostrou isso mesmo.
Continuar assim é não querer perceber os resultados, é não querer perceber as suas implicações, é não querer perceber sequer porque é que o Labour e Miliband perderam as últimas eleições face aos Conservadores, depois de tanta austeridade por estes aplicada. É não perceber também porque é que os deputados trabalhistas querem agora correr com o seu atual líder…porque este não lhes “deu” a permanência na EU. É, no fundo querer manter a lógica da austeridade que tem sido praticada nestes 6 últimos anos, na Inglaterra e por toda a União Europeia , e que continua a ser defendida quer pelos conservadores quer pelos trabalhistas que agora se manifestam contra o seu lider. No fundo, a mesma lógica portanto que a União Europeia tem vindo a defender. Percebe-se pois que a campanha sobre o Brexit tenha sido uma farsa. As verdadeiras questões não foram discutidas ou quando o foram, foram-no de forma populista, como é o caso com a imigração. As verdadeiras questões podem ser sintetizadas no anúncio de um livro escrito por Brian Gould e John Mills e recentemente publicado em que diz:
O livro chama-se “Call To Action” e é composto por um argumento poderoso para abordar os grandes problemas que têm até agora travado a economia britânica e desde há décadas. Esses problemas incluem uma perigosa perda de competitividade, um nó cego quanto à política sobre a importância da taxa de câmbio, um perene e debilitante défice de pagamentos corrente, o perigoso declínio da indústria transformadora e o recentrar errado da política orçamental sobre a austeridade, sobre a redução do défice orçamental como sendo o principal objetivo da política. O livro apresenta-se bem documentado para servir como guia de ação agora e antes que seja tarde demais.
A economia do Reino Unido está a a caminhar sobre um terreno de austeridade desastrosa e de estagnação – o crescimento do PIB é insustentável, a dívida pública está a crescer e a desigualdade também ela está a aumentar e o desemprego é elevado. Mas todas essas tendências podem ser revertidas, mobilizando algumas alavancas cruciais na política econômica.
Em oposição a tudo isto vejamos o que nos diz John McDonnell MP, Labour’s Shadow Chancellor e percebemos que trabalhistas são apenas uma outra referência para as políticas neoliberais, nada mais que isso. Compreende-se pois, por isto mesmo, que os verdadeiros problemas da Grã-Bretanha estiveram ausentes nas grandes campanhas sobre o Brexit. Vejamos então a posição do chanceler sombra ao governo de Cameron, que nos ilustra bem o que acabamos de afirmar e ficamos com a sensação de já termos lido antes, em qualquer pais europeu, seja Espanha. Portugal, Grécia, Irlanda e assim sucessivamente. Vejamos então:
Reescrever as regras significa hoje três coisas.
Primeiramente, um compromisso absoluto de um financiamento responsável por um futuro governo Trabalhista.
As regras velhas significaram uma demasiada confiança nas receitas fiscais dos serviços financeiros, e em demasiados esquemas de financiamento caros como PFI (private finance initiative ) .
Nós não fizemos o suficiente para impedir e penalizar a evasão fiscal.
Nós devemos mostrar como podemos dar conta de cada cêntimo de aumento em receitas fiscais aumentadas, e cada cêntimo gasto.
Não há nada de esquerda em se ter dívidas públicas crescentes ou em recorrer aos empréstimos para cobrir as despesas públicas correntes.
Contrair empréstimos hoje, é ter que os reembolsar amanhã.
Com uma parcela cada vez maior da nossa dívida pública agora detida nas mãos de estrangeiros os empréstimos contraídos pelo sector público, o governo, representam cada vez mais um prejuízo líquido para todos aqueles que vivem aqui.
O público, corretamente, quer um governo que seja responsável pelas suas finanças. Nós no Partido Trabalhista mostrar-lhe-emos como é que atuaremos tesoureiro responsável.
Nós não seremos o partido que só pensa em gastar dinheiro.
Nós somos o partido que pensa em como ganhar dinheiro[2]
Ainda aqui podemos servirmo-nos de Brian Gould num seu artigo intitulado como é que chegámos a isto[3]: Diz-nos este analista político:
Mesmo para a esquerda, as panaceias neoliberais provaram serem sedutoras, especialmente quando a sociedade pareceu no seu conjunto apoiá-las e quando aceitá-las pareceu ser a única maneira de se ter sucesso eleitoral. O New Labour era uma manifestação clara desta aceitação; o papel da esquerda era pensado como exigindo apenas mais competência e um rosto mais humano para ser apresentada como suporte das verdades, se não eternas, pelo menos como sendo as verdades do nosso tempo.
Este é o mundo em que a maioria de membros do Partido Trabalhista no Parlamento cresceu e em que se formaram para a política. Por definição, eles vêem-se a si-mesmos como a vanguarda, como os pensadores e os profissionais no partido. Estão convencidos que eles é que sabem e a sua experiência das batalhas eleitorais e parlamentares convence-os de que é assim mesmo.
É claro que a crise de hoje não é uma questão de incompetência ou de falta de sensibilidade, o que parece claramente transparecer do texto acima citado cujo autor é o segundo homem mais influente do Partido Trabalhista atual, John McDonnell. Sendo verdade que a falta de competência e de humanidade são um dado dos nossos políticos de hoje, também não é menos verdade que a crise atual, gerada durante décadas tem razões estruturais bem mais profundas e amplas. No fundo, o fundamental é uma questão de modelo de política económica e social, é uma questão também de uma outra visão do mundo que não a neoliberal.
Diz-nos ainda Brian Gould:
Eles também ignoram igualmente que, tal como a via para o neoliberalismo foi permitida por uma revolução intelectual que se tornou somente visível quando os políticos entraram em ação, estamos agora perante uma nova revolução em curso – uma reação contra as deficiências cada vez mais evidentes de uma sociedade que desvaloriza a sua democracia e permitiu que esta tenha sido subvertida por aqueles que utilizaram o mercado “livre” para criarem um enorme e injusto desequilíbrio em termos de poder e de influência. A sua tarefa agora, certamente, não é a de estar a deplorar essa contrarrevolução mas sim a de lhe dar uma ajuda prática, de lhe conferir um sentido no plano político.
Assim, o que é que esta análise significa para os problemas atuais do Partido Trabalhista? Significa que a culpa não pode ser colocada em alguém que, sem necessariamente estar idealmente preparado para a função, se encontrou ele mesmo como sendo o porta-voz escolhido para aqueles que têm sido desprezados – mesmo pelos seus autoproclamados líderes – desde há muito tempo e que agora reconhecem a possibilidade de que a ortodoxia neo-liberal existente desde longa data, que muito os tem muito prejudicado, pode afinal ter um fim. Os deputados trabalhistas no parlamento devem-se questionar como é que deixaram perder a oportunidade e a responsabilidade de contribuírem para se ir em frente neste processo.
Uma análise semelhante encontramos nós também em Bill Mitchell também ele a falar do Brexit. Diz-nos este último autor:
É por isso que o Partido Trabalhista inglês britânico perdeu estrondosamente as últimas eleições nacionais apesar da gestão económica chocante dos Conservadores e isto é, em parte, a razão por que o voto de Leave (Saida) ganhou agora o referendo.
A relutância estrutural do Labour britânico em exprimir uma linha progressiva não somente levou a que a questão da imigração implicasse uma enorme votação no referendo mas igualmente deu a credibilidade a UKIP e a outras forças conservadoras, daí que haja quem agora considere que o Brexit foi um golpe da direita.
O referendo de Brexit deu finalmente aos trabalhadores uma escolha alternativa significativa – ficar ou sair – visto que as eleições gerais têm sido agora apenas uma escolha entre Conservadores neo-liberais ou Trabalhista neoliberais, isto é, nenhuma escolha de facto..
A rejeição do neoliberalismo, assim, pode então ser expressa por esta escolha binária e pela primeira vez assim, desde há muitos anos.
A confirmar as teses de Mitchell e de muitos dos autores incluídos nesta nova série (veja-se por exemplo o texto de Matt O’Brien ou o de Jean-Luc Gréau) diz-nos um recente relatório da British Social Attitudes:
Os trabalhadores têm sido ridicularizados ao longo destas últimas décadas pelas elites neo‑liberais, incluindo os chamados progressistas que se persuadiram a si-mesmos que todos iriam beneficiar com a desregulamentação e com os ataques ao Estado Providência, quando na verdade, bem viram no plano da repartição que enquanto as elites bebiam o seu café com leite e lhes diziam que estava tudo bem, um número crescente de cidadãos era deixado para trás, apanhados pela precariedade e exclusão.
Mas ao mesmo tempo, os apoiantes de UKIP expressam um nível de interesse sobre o grau de desigualdade econômica na sociedade britânica que os põe à esquerda nestas questões. Contudo, estão menos convencidos quanto à resposta da esquerda tradicional para uma tão grande desigualdade – envolvendo o governo na redistribuição da riqueza. Certamente, estão muito mais céticos do que o público acerca do governo em geral – provavelmente confiam menos mo governo ou no parlamento, e muito provavelmente sentem que as pessoas como eles “não têm nenhuma palavra sobre o que o governo faz”. Assim UKIP parece ter sido bem sucedido em reunir um grupo de eleitores que são não somente anti Europa e socialmente conservadores na aparência (que inclui especialmente as suas atitudes com relação à imigração), mas que igualmente estão preocupados sobre a desigualdade econômica e ao mesmo tempo estão profundamente desconfiados do governo.
Ignorar tudo isto, ignorar os mecanismos da globalização e da austeridade sobre os comportamentos das pessoas é dar força aos populismos que crescem como cogumelos por toda a Europa. É tempo de procurarmos perceber bem o que se se passa, de espirito aberto, sem ideias preconcebidas se queremos bloquear o aparecimento, de novo, da besta imunda que pode, mais uma vez, tudo destruir.
Por tudo isto, procurámos organizar uma série de textos tendo como pano de fundo a globalização, a União Europeia, a sua classe política em que se procuram vais para pensar o futuro, o futuro de pós-Brexit.
É pois esta série que passamos a publicar.
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