REQUIEM PARA UMA UNIÃO EUROPEIA JÁ MORIBUNDA – REFLEXÕES EM TORNO DO BREXIT, DA UE E DA GLOBALIZAÇÃO – 1. FALAR DE SOBERANIA TEM HOJE MAIS SENTIDO DO QUE NUNCA ANTES, por NATACHA POLONY – I

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

E depois do Brexit caiu o pano e ninguém estava em cena, David Cameron, Boris Johnson, Nick Farage, Jeremy Corbyn tinham desaparecido – Uma série de textos  tendo como pano de fundo a União Europeia   e a sua classe política

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Falar de soberania tem hoje mais sentido do que nunca antes

O texto do Colóquio de 18 de Junho do Comité Orwell

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(Photo : SIPA.00677227_000002)

 

Natacha PolonyParler de souveraineté a plus de sens que jamais – Le texte du colloque du 18 juin du Comité Orwell

Revista Causeur.fr, 21 de Junho de 2016

 

 

Vou contar-vos uma história (1). Uma história belga. Mais ainda, a história de um símbolo nacional belga, a maionese que acompanha os fritos servidos nas tendas de feira e nas cervejarias, e de que a receita tradicional é o orgulho dos nossos vizinhos belgas. Recentemente, uma deliberação real autorizou a que se designe maionese como uma preparação que contem 70 e não 80% de óleo, e 5 e não 7,5% de gema de ovo. A razão desta modificação é o pedido apresentado pela indústria para poder permanecer competitiva em face da concorrência estrangeira, que propõe produtos menos caros. Uma onda de protestos entre os  Belgas que denunciam o dumping, a perda de qualidade em nome dos lucros e protestam invocando a tradição, a identidade do seu querido país que é ameaçado pelos assaltos da modernidade.

Esta história é uma parábola quimicamente pura sobre as consequências de uma mundialização desregulada num corpo político: impressão de desapropriação e reafirmação identitária. Há muito a apostar que os nossos amigos belgas serão considerados por certos fabricantes de opinião como simpáticos saloios ou, no pior dos casos, miseráveis chauvinistas em plena deriva populista e identitária. Pode-lhes ser respondido que é o mercado que decide, que se o consumidor preferir pagar a sua maionese menos cara, isso é mesmo a essência do liberalismo, e que eles não quereriam proibir de qualquer maneira a maionese sem óleo e sem ovos. Bolcheviques, é o que eles são! E seguidamente, se não estivermos com atenção, com estas histórias de maioneses, acaba-se por terminar a discutir protecionismo, e outras fantasias xenófobas. Assim ser-se-á levado a falar sobre a abertura dos mercados, sobre o ódio sobre a generosidade e sobre o acolhimento. Com que direito é que eles preferem a sua maionese, estes belgas?

Então, chegamos aqui. Falar de soberania tem ainda algum sentido num mundo globalizado? É a pergunta que nos junta aqui, e nem é por acaso que a colocámos hoje, 18 de Junho…76 anos depois de um apelo que se fez tendo em conta precisamente a dimensão mundial da guerra para apelar à legitimidade face à legalidade que se tinha exprimido na véspera através do pedido de armistício do Marechal Pétain. Voltaremos a este tema, mas o homem do 18 de junho é também o que declarará a 27 de maio de 1942: “A democracia confunde-se exatamente, para mim, com a soberania nacional. A democracia, é o governo do povo que exerce a sua soberania sem entraves.”

Falar de soberania quando o território nacional está ocupado, quando o Estado e com os seus  mecanismos  próprios decidiu colaborar com o inimigo, aí está o que é compreensível. Mas hoje? Será que isto não tem nada a ver com uma velha lengalenga que mascara as obsessões mais culposas?

O perigo soberanista segundo Joffrin, Attali, FOG, BHL…

Há já vários anos que o qualificativo “soberanistas” é colado a estes inclassificáveis que navegam entre a direita e a esquerda e contra quem se faz sentir um brutal mal-estar por causa da retumbante vitória de 29 de maio de 2005. Soberanista, é quando não se diz “cidadãos-republicanos” ou outro termo igualmente engraçado. Mas soberanistas, isto não diz muita coisa à maioria das pessoas. Simplesmente, o termo reapareceu. Recordam-se, estávamos no Outono passado. O jornal Libération decide consagrar uma grande caixa a Michel Offray depois da sua entrevista ao jornal Le Figaro. O filósofo é acusado de ter deslizado para a extrema-direita, de se ter deixado invadir por ideias nauseabundas, rançosas e outros adjetivos caros aos nossos antifascistas de nariz sensível.

Alguns dias depois, depois de várias críticas e disputas por interpostos jornais e outros meios de comunicação social intervindos, Laurent Joffrin apresenta o argumento final: Onfray está sobre “o plano inclinado a deslizar para o soberanismo”. Uma inclinação que o conduzirá “a defender a nação em nome da justiça social”, mas que, diz-nos o investigador de gente com comportamento desviante, “acaba sempre por preferir a nação à justiça social”. Quem pretende proteger o seu povo para melhor detestar os outros. Quem sonha com fronteiras quando seria necessário estender a mão, abrir o coração… Amen.

O soberanismo, aí está o inimigo. Num jornal supostamente de esquerda como Libération, mas também um jornal de direita liberal como Le Point. Basta ler um só editorial de Franz-Olivier Giesbert (é já um esforço) para nos apercebermos que este partiu em cruzada contra o soberanismo, esta nova calamidade (partido é efetivamente o termo: perdeu-se desde há muito tempo). Mas poder-se-ia citar igualmente Bernard-Henri Levy em quem a luta contra o soberanismo resulta do exorcismo. Jacques Attali, muito orgulhoso do seu último achado, uma réplica que ele afirma em cada emissão de televisão em que participa, em frente de cada jornalista entusiasmado: “O que é que é essa história de raízes. Não somos rabanetes. ” Também não somos carvalhos, aparentemente.

É por conseguinte muito perigoso, o soberanismo, tão perigoso que é necessário sacar do arsenal intelectual, de tudo aquilo de que o país dispõe de mais brilhante? O soberanismo, é a guerra, o ódio do outro, a regressão identitária. O soberanismo, são as horas mais sombrias da nossa história. Bom, a palavra não existia, mas compreende-se. O soberanismo ocupa no vocabulário político contemporâneo o mesmo lugar que o populismo. Com este termo quer-se designar uma espécie de manipulação das massas por um discurso demagógico e cujos seus autores saberiam perfeitamente quanto a sua aplicação seria quer impossível quer eminentemente perigosa para o futuro do país.

A livre-troca traz a paz, é bem claro!

Porque tal é efetivamente o tema  que os preocupa. Bem mais do que a dimensão moral posta à frente de tudo para voltarem a representar a pantomina do antifascismo. O soberanismo é condenável porque se opõe à marcha do mundo, porque pretende recusar o inelutável, que é também o único destino desejável. Estamos bem de acordo, a moral não tem grande coisa a ver com tudo isto. Falamos de coisas sérias. Falamos de economia. O soberanismo passeia-se em geral nos artigos e nos sermões audiovisuais acompanhado do seu corolário igualmente sulfuroso: o protecionismo. E os dois são perigosos, porque trazem a guerra quando o comércio livre, “o suave comércio” tão caro a Montesquieu, traz a paz e a concórdia entre os povos.

É, de resto, interessante constatar que nos é proposto como modelo a extensão do comércio livre através de diferentes estruturas supranacionais para acompanhar a mundialização das trocas e a globalização das normas e das culturas e esta globalização  é-nos apresentada ao mesmo tempo como boa moralmente e como inelutável. Bom, porque é que é inelutável? Pede-se-nos que nos congratulemos porque, de qualquer modo, não temos escolha e que será bem necessário viver neste mundo? As nossas elites políticas e mediáticas são leibnizianas: propõem-nos o melhor dos mundos possíveis e não se poupam a esforços sobre os meios para nos convencerem disso mesmo.

Mas dois problemas se levantam a qualquer pessoa que esteja com um mínimo de atenção. O primeiro problema: em que é que esta globalização que determina atualmente a organização das nossas economias e, por capilaridade, o conjunto dos nossos modos de vida, é inelutável? A mundialização, ou seja o aumento das trocas e a circulação dos indivíduos, existe em diferentes escalas desde Alexandre o Grande. É um facto. Um facto que decorre hoje do desenvolvimento dos meios de transportes e da revolução tecnológica que transforma as informações e os capitais em fluxos. E pode-se acrescentar que a terceira revolução industrial, a da informática, dá-lhe uma dimensão que não tem mais nada a ver com que o que nos precedeu. Muito bem. Mas a globalização, ou seja a uniformização das normas e o direito para facilitar o fluxo e estender uma conceção única da organização das sociedades humanas, é ela da ordem da necessidade? Para dizê-lo diferentemente, é obrigatório acompanhar a mundialização de um movimento de desregulação massivo que só beneficia os atores dominantes que são as multinacionais maioritariamente anglo-saxónicas?

(continua)

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(1) – Texto do discurso de Natacha Polony no colóquio organizado em 18 de Junho de 2016 pelo Comité Orwell.

 

  1. Ceci est le texte du discours prononcé par Natacha Polony lors du colloque organisé ce samedi 18 juin par le Comité Orwell.

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Ver o original em:

http://www.causeur.fr/natacha-polony-comite-orwell-souverainete-globalisation-mondialisation-38832.html

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