REQUIEM PARA UMA UNIÃO EUROPEIA JÁ MORIBUNDA – REFLEXÕES EM TORNO DO BREXIT, DA UE E DA GLOBALIZAÇÃO – 2. OS PERDEDORES DA GLOBALIZAÇÃO ESTÃO REVOLTADOS E BREXIT É APENAS O COMEÇO – por MATT O’ BRIEN – I

 

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

E depois do Brexit caiu o pano e ninguém estava em cena, David Cameron, Boris Johnson, Nick Farage, Jeremy Corbyn tinham desaparecido – Uma série de textos tendo como pano de fundo a União Europeia e a sua classe política

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Os perdedores da globalização estão revoltados e Brexit é apenas o começo

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Matt O’Brien, The world’s losers are revolting, and Brexit is only the beginning

Washington Post, Wonkblog, 27 de Junho de 2016

matt - I

O mundo tem desfrutado de um período sem precedentes de paz, prosperidade e cooperação nestes últimos 25 anos, mas agora isto parece ter acabado. Pelo menos quando se fala de prosperidade e cooperação.

Isto, mais do que tudo o resto que se possa pensar, é o que a votação da Grã-Bretanha para sair da União Europeia significa. A saída britânica, ou Brexit, tornará o país mais pobre no curto prazo, talvez no longo prazo também, e poderia arrastar consigo a própria Europa. Isso porque a Grã-Bretanha está a rasgar o seu acordo de livre comércio assinado com o resto da Europa. Mas uma preocupação muito maior do que apenas dólares e cêntimos é que isto representa o revés mais significativo na busca de 60 anos da Europa para “uma união cada vez mais profunda”, e representa igualmente o sucesso mais chocante para o novo nacionalismo que está a varrer todo o mundo ocidental.

Brexit, por outras palavras, é o fim do fim da história.

matt - II
O que acontece depois de a Grã-Bretanha ter votado pelo Brexit da UE. Foi uma vitória impressionante para a campanha de “Leave-saída”, a Grâ Bretanha votou para se retirar da União Europeia. É aqui que se coloca a questão do que acontece em seguida. (Jason Aldag, Adam Taylor /The Washington Post)

Isso, é claro, era a famosa ideia de Francis Fukuyama que, com o fim da Guerra Fria, a democracia capitalista não só tinha derrotado o comunismo, mas também todos as outras ideologias. Era suposto ser, como ele escreveu, a “forma final de governo humano”. E na medida em que as democracias tendem a trabalhar em conjunto, o que implicaria que o futuro seria aquele em que a concorrência não só não levaria a conflitos como seria ela que tomaria o seu lugar, que os substituiria. As tarifas seriam sucessivamente reduzidas, o dinheiro iria movimentar-se à escala planetária, do pais onde era menos preciso para onde o fosse mais, e os trabalhadores também fariam o mesmo. Isto significaria, então, que os governos não seriam os únicos a ficarem mais parecidos uns com os outros. Com as pessoas aconteceria o mesmo. Eles deixam de ser cidadãos e chauvinistas, e tornar-se-iam consumidores e cosmopolitas. Cada um de nós teria então o seu Estado-nação mas sem o nacionalismo.

matt - III

Durante um certo tempo, isto parecia-me bastante verdadeiro. A democracia difundia-se pelo mundo, as guerras diminuíram, e as economias abriram-se. Por sua vez, os grupos internacionais como a União Europeia e Organização Mundial de Comércio codificaram tudo isto. Porque como qualquer taxista de Mumbai no-lo poderia ter dito, o mundo era realmente como está descrito num livro de Thomas Friedman.

Ou pelo menos parecia ser assim, se não olhássemos com muita atenção e o fizéssemos com demasiada distância relativamente à realidade. Se alguém assim fez, terá observado as enormes falhas nesta ordem internacional liberal. Por um lado, o capitalismo financeiro não trabalhou sempre tão bem como acima se diz e isto em termos de países. O dinheiro move-se, a entrar e a sair à velocidade de um clique do rato ao computador, expandindo e minguando rapidamente e fazendo então estalar bolhas ao longo do seu caminho. Do México à Argentina, da Tailândia à Coreia do Sul, de Hong Kong à Indonésia, e, eventualmente, dos Estados Unidos para o sul da Europa estes fluxos de capitais ampliaram o ciclo económico do crescimento-recessão da economia, com uma ênfase bem especial para a recessão.

Por outro lado, o capitalismo global não trabalhou sempre tão bem para os trabalhadores no Estados Unidos e na Europa mesmo quando — ou, em alguns casos, porque — tirou centenas de milhões de pessoas da pobreza mais ou menos por toda a parte no mundo.

De fato, a classe trabalhadora nos países ricos viu os seus rendimentos reais, ajustados pela inflação, a não crescerem ou mesmo a descerem desde a queda do muro de Berlim e foram forçados a competir com todos os trabalhadores chineses, indianos e indonésios que fazem parte da economia global. Pode-se ver no gráfico abaixo, realizado a partir dos dados do economista Branko Milanovic ‘. Nele se mostra quanto é que os rendimentos reais aumentaram — ou não — para o mundo inteiro entre 1988 e 2008. Agora, a maneira de ler isto é imaginar que todos nós, em qualquer um dos países, pode estar dentro desde o rendimento mais alto ao mais baixo. As pessoas mais ricas nos países mais ricos (e em cada país quanto a esta questão) estariam na parte superior global dos 1 por cento, a classe trabalhadora nos países dos mais ricos estariam em torno do 80th percentil e a classe média em países da classe média como a China estaria no 50º percentil.

A globalização não criou muitos perdedores, mas a maioria destes estava concentrada nos países que foram a força motriz que estava por detrás da globalização.

matt - IV matt - V

Esta situação é, pois, politicamente um barril de pólvora. Se os trabalhadores do mundo rico perdiam terreno mesmo quando os tempos eram bons, que aconteceria se fossem atingidos duramente por uma das crises financeiras que a nova economia global nova parece gerar regularmente? Bem, as coisas ficariam feias. Embora, na verdade, já começassem a ficar. Os populistas de direita como Pat Buchanan nos Estados Unidos, Jean-Marie Le Pen em França e Jörg Haider na Áustria tinham estado espantosamente perto de alcançarem vitórias eleitorais se não mesmo vitórias, no final dos anos 90 e no início dos anos 2000, centrando-se a incipiente ira da classe trabalhadora contra um inimigo “estrangeiro” e para além das deslocalizações: os imigrantes. Este antagonismo refletiu uma grande ansiedade económica, o medo cultural e até mesmo um ressentimento racial. Os trabalhadores deslocados (destacados) eram sentidos como imigrantes a obterem os postos de trabalho e os rendimentos que seriam os seus. Os trabalhadores ficavam inquietos com o medo de perderem a única coisa — a sua identidade nacional — que o mercado não lhes poderia tirar. E, muitas vezes, apenas não queriam estar rodeados de gente que não era parecida com eles, que não falavam como eles,  de que não tinham a mesma religião.

(continua)

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Leia o original em:

https://www.washingtonpost.com/news/wonk/wp/2016/06/27/the-losers-have-revolted-and-brexit-is-only-the-beginning/

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