REQUIEM PARA UMA UNIÃO EUROPEIA JÁ MORIBUNDA. – REFLEXÕES EM TORNO DO BREXIT, DA UE E DA GLOBALIZAÇÃO – 6. UM CHOQUE DE CULTURAS NA GRÃ-BRETANHA, por CRAIG WILLY

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

E depois do Brexit caiu o pano e ninguém estava em cena, David Cameron, Boris Johnson, Nick Farage, Jeremy Corbyn tinham desaparecido – Uma série de textos tendo como pano de fundo a União Europeia  e a sua classe política.

GED

Um choque de culturas na Grã-Bretanha

Craig Willy

Craig Willy, Culture Clash – Why Inequality Led To Brexit-British social policies are in dire need of reform

GED – New Perspectives in Global Economic Dinamics, 11 de Julho de 2016

 

A desigualdade social e as divisões entre classes, gerações e regiões terão sido relevantes na promoção de sentimentos antieuropeus entre muitos Britânicos no referendo recente da UE. As políticas sociais britânicas estão a necessitar de uma profunda reforma.

A decisão do povo britânico – por uma maioria de 51,8% num referendo – para deixar a União Europeia enviou ondas de choque para todo o mundo. Pela primeira vez e de memória viva, o sentido da política europeia para cada vez mais integração e mais internacionalização foi invertido formalmente. Num contexto de nacionalismo e de populismo em clara ascensão no mundo ocidental, muitos que tinham pensado a ordem liberal do após-guerra como segura estão agora a questionarem-se ansiosamente. Porquê?

Como acontece  muito frequentemente com referendos, deslindar as várias motivações e causas que conduziram a uma votação particular é virtualmente impossível. Muitas e diferentes razões sobrepuseram-se a apelar aos eleitores de “Brexit”: principalmente, o descontentamento  com a partilha da soberania britânica com uma UE em crise profunda, descontentamento com a política nacional e com os meios de comunicação social e descontentamento com a imigração.

O primeiro ministro de saída David Cameron tomou a decisão de realizar um referendo  como parte de um cálculo político: antes das  eleições parlamentares de 2015, o líder conservador prometeu um referendo sobre a permanência ou não do Grã-Bretanha  na UE,  Brexit,  a fim de impedir  a subida eleitoral do Partido da independência de Reino Unido (UKIP). UKIP pela sua parte tinha-se transformado numa força firmemente crescente, particularmente entre a classe trabalhadora inglesa branca, fazendo campanha contra a UE e a imigração.

 A estratégia de Cameron funcionou no curto prazo: o seu partido ganhou uma maioria absoluta dos lugares nas eleições, enquanto que o UKIP, apesar de ter tido  12% dos votos alcançou apenas um lugar no Parlamento, o que é devido ao peculiar sistema eleitoral britânico de votação por maioria simples. O descontentamento do povo britânico com os políticos e a política assim como contra a imigração foi canalizado então contra a UE. Mas agora Cameron perdeu a votação no referendo que disponibilizou ao povo britânico e está de saída do cargo de primeiro-ministro.

Ironicamente, a pertença à  UE não era o fator principal  estando atrás da imigração para os britânicos. Seguramente, a Grã-Bretanha teve que dar as boas-vindas a muitos cidadãos europeus, particularmente da Europa Central mas igualmente de França, Europa do Sul,  e de muitos outros lados  que desejavam fazer aí a sua casa. Contudo, o facto é somente um, é  que o Reino Unido fazia parte da UE. Dois terços da imigração no Reino Unido – que Cameron tinha prometido reduzir antes da sua eleição – eram então da responsabilidade de Westminster e não de Bruxelas. Além disso, havia mesmo provas de que os imigrantes da UE tinham tendência a ter maior nível de formação, pagaram mais em taxas para as Finanças  britânicas  do que o custo em serviços públicos que lhes foram fornecidos.

Além disso, os Ingleses tinham-se fixado numa posição original na União. Não faziam parte da zona euro e da  sua moeda única nem faziam parte do espaço de Schengen que estabelece a a livre circulação das pessoas. A Grã-Bretanha era pois capaz de ficar relativamente isolada  durante a maior parte das crises no continente.

Um país de ricos e dos pobres

A Grã-Bretanha tem sido desde há muito tempo um dos países mais bem sucedidos de Europa. Com a economia recuperada da crise financeira a Grã-Bretanha tem estado a ter um crescimento do emprego impressionante, com o desemprego a atingir um ponto baixo,  de apenas 5%. A “austeridade” do governo tem sido relativamente moderada, com uma politica monetária expansionista e com défice relativamente baixos medido pelos padrões europeus, embora haja alguns cortes nos serviços públicos. Além disso, o crescimento do emprego tem sido acompanhado de um aumento da insegurança no trabalho e com uma diminuição significativa em salários reais.

A concorrência sobre os salários a estagnarem ou mesmo a descerem acontecendo o equivalente nos serviços públicos, num contexto de forte imigração parece ter motivado o sentimento pelo Brexit. Como refere Como refere Bertelsmann Stiftung  num relatório intitulado Sustainable Governance Indicators sobre a Grâ-Bretanha :

“As pressões sobre a política social são evidentes, desde a precariedade das muitas áreas do [Serviço Nacional de Saúde] e aos sistemas de cuidados à incerteza acerca da mudança radical no sistema de benefícios pode ser feito o trabalho como pretendido. Deste ponto de vista a imigração tem efeitos contrastantes. Os migrantes são significativamente ajudados nos serviços sociais para preencher postos de trabalho, mas parte da oposição à migração ainda levanta mais criticas considerando que estes coloca fortes pressões sobre muitos serviços públicos locais.”

A dimensão da imigração para o Reino Unido nos últimos anos tem sido considerável. A população estrangeira estará já acima dos 13% de todos os residentes, quase tão alta como nos Estados Unidos da América. O número de imigrantes na Grã-Bretanha mais do que duplicou ao longo dos últimos 25 anos, passando de 3,7 milhões em 1990 para 8,5 milhões em 2015. Trata-se comprovadamente de imigração de trabalhadores não qualificados o que tem levado à diminuição dos salários, ainda que, de acordo com o Banco da Inglaterra, não seja uma descida muito grande[1].

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Além disso, a Grã-Bretanha tornou-se igualmente num país mais desigual ao longo dos anos, num país de muitos pobres:

[Há] a persistência das divisões em torno dos vários critérios sociais além das classes sociais, tais como a geografia ou a raça. […] A [Desigualdade] permanece relativamente alta quando comparada com outros países da OCDE  e a distribuição da riqueza tornou-se mais desigual.

A desigualdade foi agravada em particular por um sistema fiscal incapaz de reduzir a fuga aos impostos e pela duplicação ou mesmo  pelo triplicar das propinas e de outros custos nos estudos universitários, para cima das £9,000 por ano.

Estes fatores sociais parecem estar associados com a política de identidade, particularmente à volta da identidade inglesa. Isto parece evidente tanto a partir dos resultados de votação de Brexit e dos dados das sondagens. Na Inglaterra e no País de Gales a maioria das pessoas votou para deixar a UE, com as maiorias a votarem Remain na Escócia (dinamizando o movimento secessionista) e na Irlanda do Norte. Numa sondagem 72 % das pessoas identificadas como “English” disseram que apoiam a saída, enquanto que nenhuma maioria apoiou a saída entre aquelas que se identificam como “Inglês” “Galês,” “Escocês,” ou “outros.” Além disso uma maioria absoluta destes inquiridos acredita que a imigração para a Grã-Bretanha poderia ser melhor controlada fora da UE.

Havia igualmente claras divisões geracionais, regionais ou de classes. Os reformados apoiavam a saída da EU três vezes mais que os jovens. O inglês branco, o rural, de menos estudos e a classe trabalhadora em geral inclinaram-se  para a votação na saída da EU. Isto apresenta todas as características de um conflito clássico de culturas dentro do país, entre as elites (que, em geral, tendem a apoiar os Remain ) e o cidadão comum , urbano ou rural, com elevada formação ou iletrados que em geral eram os defensores  do Leave.

Os benefícios de Brexit para a Grã- Bretanha provavelmente serão pequenos

Depois do choque inicial, os resultados práticos do voto de Brexit estão ainda para serem vistos. Tudo vai depender muito do acordo atual (ou da falta dele) que o governo britânico e os dirigentes da EU venham a alcançar. Na prática, não poderá haver grande mudança,  de todo, particularmente se a UE exige a manutenção da livre circulação das pessoas em troca do acesso ao mercado único (e, pode-se talvez acrescentar, em troca do direito de cidadãos britânicos viverem e trabalharem na Europa continental). A maioria esmagadora das autoridades de ambos os lados do canal desejam que o comércio continue imperturbado.

O Reino Unido poderá provavelmente ter mais flexibilidade em como gasta o seu dinheiro (repatriando pelo menos uma parte da sua contribuição para o orçamento da UE) e em fixar os acordos comerciais com os outros países. Mas os benefícios disto, penso eu, serão pequenos. A Grã-Bretanha, contudo, terá perdido todos os poderes oficiais da representação e de votação dentro das instituições europeias, significando uma perda de influência reguladora sobre o mercado exportador, o mais grande do país, e possivelmente irá debater-se com problemas no setor financeiro e este é da mais alta importância para a City de Londres.

O resultado de Brexit permanece pois incerto. O que é claro contudo é o seguinte: num contexto de gente muito rica e muitíssimos mais a serem pobres, de desigualdade crescente, de mudanças identitárias nacionais  e de um conflito crescente de culturas entre elites a quererem ainda mais internacionalização e uma grande parcela do povo britânico, o Brexit é pouco suscetível de ser a última manifestação da política populista e nacionalista.

Craig Willy, Culture Clash- Why Inequality Led To Brexit-British social policies are in dire need of reform, disponível em:

https://ged-project.de/topics/international-trade/future_of_eu_single_market/brexit/culture-clash-why-inequality-led-to-brexit/

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[1] Nota de Tradutor. Veja-se Staff Working Paper No. 574, The impact of immigration on occupational wages: evidence from Britain, Stephen Nickell and Jumana Saleheen. Disponível em: http://www.bankofengland.co.uk/research/Documents/workingpapers/2015/swp574.pdf

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