A Liberdade, a cultura, a democracia e a justiça social são as nossas paixões.
– Rapaz, sabes o que é um almogárave? – Quase sempre que o via, o avô Bartolomeu lhe fazia esta pergunta. E, para maior infortúnio do jovem Lopo, o ancião via-o todos os dias, pois a família habitava, desde há muitos anos, toda na mesma casa, ou seja, Lopo, seus pais, Simão e Branca Maria, Maria Beatriz, sua irmã mais velha, moça bonita e já casadoura, seu irmão Antão, o mais novo dos três, ainda estudando na vizinha escola catedralícia e seu avô paterno, o tal velho e destemido almogárave. Ficava a casa da família Mateus na Rua Direita de São João, freguesia de São João da Praça, junto da Judiaria Grande, na aljama de Lisboa, mas, da casa propriamente dita, um pouco mais adiante vos falarei com algum pormenor. O que vinha a ser então um almogárave? Ora, não sabia Lopo outra coisa, pois ouvira centenares de vezes a pergunta e outras tantas a explicação, bem como as longas e complicadas, mas – reconheça-se – nunca enfadonhas, histórias adjacentes. Contudo, o obstinado velho, simulava não ouvir e nunca queria atentar na afirmativa resposta do seu jovem neto, pois decidira já que, fosse ela qual fosse, explicaria tudo de novo. Era fatalidade a que o pobre Lopo nunca lograva fugir: