O MAPA (A saga do anadel) Capítulo V.O almogárave.. por Carlos Loures

Imagem1– Rapaz, sabes o que é um almogárave? – Quase sempre que o via, o avô Bartolomeu lhe fazia esta pergunta. E, para maior infortúnio do jovem Lopo, o ancião via-o todos os dias, pois a família habitava, desde há muitos anos, toda na mesma casa, ou seja, Lopo, seus pais, Simão e Branca Maria, Maria Beatriz, sua irmã mais velha, moça bonita e já casadoura, seu irmão Antão, o mais novo dos três, ainda estudando na vizinha escola catedralícia e seu avô paterno, o tal velho e destemido almogárave. Ficava a casa da família Mateus na Rua Direita de São João, freguesia de São João da Praça, junto da Judiaria Grande, na aljama de Lisboa, mas, da casa propriamente dita, um pouco mais adiante vos falarei com algum pormenor. O que vinha a ser então um almogárave? Ora, não sabia Lopo outra coisa, pois ouvira centenares de vezes a pergunta e outras tantas a explicação, bem como as longas e complicadas, mas – reconheça-se – nunca enfadonhas, histórias adjacentes. Contudo, o obstinado velho, simulava não ouvir e nunca queria atentar na afirmativa resposta do seu jovem neto, pois decidira já que, fosse ela qual fosse, explicaria tudo de novo. Era fatalidade a que o pobre Lopo nunca lograva fugir:

             – Pois fica sabendo meu rapaz – recitava o ancião, sempre com o dedo indicador muito esticado – gesto que talvez dele tenha herdado no sangue, pois, sobretudo quando falo com gentes das mais novas gerações, me surpreendo com o indicador em riste – que um almogárave é um homem, um ginete audacioso, vestido de loriga e cota, munido de lança, adaga e às vezes de besta armada, que entra em correrias na retaguarda das hostes inimigas, onde fica a carriagem e se armazenam as provisões de boca, o gado bovino, os rebanhos de gado miúdo, as armas e munições de guerra, as alfaias dos artífices, os instrumentos e medicinas dos físicos, as mulheres que mitigam as necessidades dos soldados, porque, claro, os homens longos meses fora de suas casas… – o velho por esta altura da prédica ficava sempre um pouco tartamudo – bem esta parte explico-ta depois… – enfim, onde se guarda tudo o que é necessário ao funcionamento de um grande exército em campanha. Como dizia, o almogárave surge como se viesse do nada, silencia as sentinelas cortando-lhes as gorgomeleiras com a adarga, pilha, destrói, incendeia e mata e, realizada a sua fatal, mas necessária missão, desaparece, tão depressa como surgiu, como se nunca tivera existido ou como se fora uma nuvem em céu de Agosto – e completava a, mil vezes repetida, explicação, sublinhando com voz estentórea, terrível – eu sou um almogárave!

            Quando era mais pequeno, criança ainda de colo, Antão, irmão mais novo de Lopo, o benjamim da família Mateus, desatava em aterrorizado berreiro quando o velho gritava no sempre apoteótico final da sua estafada crónica guerreira. A rogo da nora, Bartolomeu lá condescendia em baixar um pouco o tom da voz, resmungando porém:

            – A chorar? Ora, está visto que filho de copista, de iluminista, de calígrafo, ou lá o que é isso que todo o dia fazeis na Torre Albarrã, filho de escriba, temeroso sai! – E repetia para Lopo, agora num tom de voz mais baixo – Escuta bem meu rapaz, eu sou um almogárave!

            O velho Bartolomeu dizia sempre «eu sou» e não «eu fui», como deveria dizer, pois estava a falar de coisas acaecidas cinquenta anos antes, anteriormente à era em que Portugal celebrou a primeira paz com Castela, a precária paz de Segóvia, no distante ano de 1411. E acrescentava sempre com um ar de superioridade:

            – Mas, que sabem tu e teu pai, calígrafos, copistas que sois, destas coisas de armas? Tempos difíceis os de hoje, dizeis. Não, bofé, tempos difíceis foram esses, os meus! – E, se a conversa tinha lugar na rua, cuspia sobre a calçada. Porém, sempre que falava do «seu tempo» o olhar iluminava-se-lhe e a voz parecia crescer de emoção e vigor.

            Porque, dizia o idoso Bartolomeu, apesar de muito mais difíceis do que os actuais, esses tempos eram, apesar da terrível Peste Negra e da interminável guerra com Castela, incomparavelmente mais belos. Sim na verdade o céu era muito mais azul, o sol bem mais quente e luminoso, o vento mais perfumado, o odor do mar mais salgado e penetrante nos sentidos, os frutos mais saborosos, as aves mais belas e mais subtil e sedoso o seu voo, as moças mais formosas, ainda que mais, muitíssimo mais, recatadas. Tudo era mais difícil, mais duro. Mas tudo era melhor. Difícil era compreender os anciãos, pensava Lopo. Nem todos, no entanto. Na realidade, o rapaz conhecia um ancião, calmo sábio e ponderado, bastante diferente do que seu avô era. Parava ao fim da tarde pela locanda do mestre Samuel Levi, que a velha tabuleta de madeira indicava ser a Taverna do Falcão Azul, na Rua da Porta do Mar, ali mesmo, a dois passos da Catedral. Nos dias de maior calor o jovem ia ali beber uma água muito límpida e fresca temperada com limão e adoçada com mel de abelhas, que quase sempre acompanhava com uma cidrada deliciosa, dessa que se costumava comer por alturas das festividades do Natal, mas que o engenhoso hebreu tinha artes de vender durante todo o ano. Das bandas de Enxobregas, onde agora eu me acho em protegida clausura, lhe chegavam tais mimos, dizia aos clientes.

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