REQUIEM PARA UMA UNIÃO EUROPEIA JÁ MORIBUNDA. – REFLEXÕES EM TORNO DO BREXIT, DA UE E DA GLOBALIZAÇÃO – 7. BREXIT: REPETE-SE O JOGO? “FALHOU, TENTE DE NOVO!”, por MICKAEL EHRMINGER

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

E depois do Brexit caiu o pano e ninguém estava em cena, David Cameron, Boris Johnson, Nick Farage, Jeremy Corbyn tinham desaparecido – Uma série de textos tendo como pano de fundo a União Europeia e a sua classe política

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Brexit: repete-se o jogo? “Falhou, tente de novo !”

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Revista Causeur.fr, 1 de Julho de 2016

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Manifestação anti-Brexit. Sipa. Numéro de reportage : REX40437594_000027.

Em vez de pôr em causa o resultado da consulta popular do 23 de junho, David Cameron tomou a decisão de maneira elegante e anunciou que deixaria o 10 Downing Street a partir do próximo 9 de setembro, para deixar lugar a um novo Primeiro ministro que será encarregado das negociações para a saída da União Europeia. Pense-se e diga-se o que se quiser, os responsáveis britânicos são mesmo assim mais respeitadores da democracia do que os seus homólogos franceses. Não se cessará de recordar o referendo de 2005 sobre o projeto de Constituição europeia, massivamente rejeitado pelos Franceses, e cujo resultado foi pisado aos pés de Nicolas Sarkozy em 2008 instituindo o tratado de Lisboa por via parlamentar.

O direito de voltar a votar?

De maneira surpreendente, são os eleitores do campo vencido que reclamam o direito de se recomeçar. Para o efeito, acabaram por instrumentalizar uma petição em linha que tinha sido criada antes do referendo por um militante em prol do Brexit a fim de reclamar, de maneira anedótica, pensando ao mesmo tempo que o seu campo não tinha nenhuma possibilidade de ganhar, tendo em conta as últimas sondagens de que ele dispunha, a instauração de um novo referendo se a participação fosse inferior à 75% e que nenhum dos dois campos tivesse atingido a barra dos 60%. O mesmo é dizer que se tratava de uma petição completamente fantasista, mas de que os partidários da “permanência” acharam por bem aproveitar.

A primeira preocupação é inerente às petições deste tipo: não há nenhum controlo da identidade dos signatários. Assim, é possível assinar uma infinidade de vezes tantas quantas as moradas de que possa eletronicamente dispor. Pode assim assinar este texto como Superman, residindo ao Vaticano. De resto, um elemento que permite calibrar a seriedade deste tipo de consulta: recenseava-se este fim de semana mais de 36.000 assinaturas provenientes do Vaticano, cidade-estado que contava segundo as últimas notícias apenas 451 piedosas almas. O segundo elemento de crítica é evidente. Desde quando é que se pede legitimamente a um povo que vote uma segunda vez porque a primeira votação não era suficientemente boa? A União Europeia é uma forma de regime autoritário que põe em causa o direito centenário dos povos em dispor de eles mesmos?

Quando a emoção ultrapassa a razão

Os dirigentes europeus, face a este revés, endurecem os seus pequenos músculos, mostram as suas garras, redobram de autoritarismo face aos que cometeram a asneira de querem retomar a sua liberdade. Estes mesmos dirigentes europeus que ousavam menos abrir as suas goelas de lobo em frente de Erdogan, cederam a todas as suas exigências, apesar da sua posição ambígua sobre o fundamentalismo islâmico. Estes mesmos que afogam a tesouraria grega à golpes de milhares de milhões desde há vários anos, atirando o país para o caos social, sem estar a fornecer o mínimo de solução em face da falência anunciada do berço da civilização ocidental.

Tratar-se-ia, por conseguinte, para o Reino Unido e a partir de agora deixar em toda a urgência a União Europeia ativando o procedimento do artigo 50 do tratado sobre o funcionamento da União europeia o mais depressa possível. Esta precipitação diz mesmo muito longa sobre o estado dos tecnocratas europeus, e dos dirigentes eurobeatos. Esta consiste em adotar a estratégia do pior, em lançar o Reino Unido no desconhecido, sem preparação, sem concertação, a lançá-lo do alto de uma falésia sem paraquedas nem rede de socorros, como se este fosse doravante o inimigo a abater. Os Britânicos escolheram o seu destino, este far-se-á fora da União Europeia, e “um destino não é uma punição”, como o escreveu Camus. Os defensores da União Europeia, contrariados pelo voto soberano dos Britânicos, desejam ver as suas profecias cataclísmicas realizarem-se. Contudo, o único meio para que o desastre aconteça é provocá-lo. Prova se for necessário que o Brexit não anuncia o fim do mundo, enquanto se previa uma “ sexta-feira negra ” sobre os mercados, a única bolsa a ter bem suportado o choque foi a de Londres, perdendo no fim de contas menos de 2,5%; situação quase já restabelecida desde então.

Ressaca europeísta

Se existe uma urgência hoje, é a de redefinir o que deve ser a Europa. Vê-se em vários países-membros da União progredir os partidos soberanistas, que os europeístas convencidos se satisfazem em qualificar de partidos de extrema-direita, jogando assim sobre o suposto regresso dos anos 1930, e explorando o medo de uma ideologia “nauseabunda” que regressa “às horas mais sombrias da nossa história”. Se os partidos soberanistas registam votações cada vez mais importantes em muitos países europeus, incluindo na França, onde a Frente nacional totalizou nas últimas eleições regionais mais votos que o Partido socialista, que de socialista tem apenas o nome, não é por rejeição do outro, nem devido à uma xenofobia intestina, a um racismo visceral, a uma atitude reacionária rançosa. Se o soberanismo volta à carga, hoje, é porque os povos europeus estão cansados de terem que se submeter a decisões e recomendações mais ou menos vinculativas elaboradas no ambiente feltrado da tecnocracia de Bruxelas, por eurocratas não eleitos , desligados da realidade e ignorando muito das realidades nacionais. Cada povo tem a sua história, a sua identidade, a sua cultura; querer passar estas particularidades pela trituradora europeísta para elaborar uma gloubiboulga informe é um crime. Não há nada de egoísta no desejo de um povo querer escrever as suas próprias leis, elaborar o seu orçamento, ter a sua moeda nacional, controlar quem entra, quem sai, quem permanece no seu território. Não há nada de xenófobo ao desejar privilegiar os seus cidadãos nacionais sobre o mercado do emprego, o alojamento, ou a atribuição das ajudas sociais financiadas pela solidariedade nacional. As boas almas francesas – a maior parte do tempo, dos artistas empenhados, digamo-lo – não têm no entanto nenhum problema em irem para os Estados Unidos, e não há país mais protecionista, usando e abusando de estratégias monetárias a todo o custo, protegendo as suas fronteiras ao limite da paranóia, e onde se extasiam pela subida de um negro americano à presidência, somente pela sua cor e não por uma verdadeira adesão ao seu programa

Há no entanto uma coisa que Bruxelas parece ter esquecido: os povos empenharam-se de maneira mais ou menos voluntária na União Europeia, não lhe venderam a sua alma sem qualquer concessão. A União europeia não é suposta ser uma prisão da qual não se sai mais depois de se ter lá posto o pé. A saída da União está prevista pelos tratados, e os povos são livres de fazer esta escolha de maneira soberana. As ameaças, em contrapartida, não estão previstas pelos tratados. Alguns permitem-se dizer que para dissuadir outros países de se envolverem na mesma via que o Reino Unido, é necessário que a sua partida seja dolorosa. Juncker anuncia já que não se tratará de um divórcio por conciliação, ele que censurava os primeiros-ministros demasiado atenciosos para com os seus eleitores…

A democracia não é um jogo

O poder do povo, pelo povo, para o povo é doravante nulo e sem efeito? O cidadão lambda que vai votar para decidir do seu futuro é apenas um peão no tabuleiro de xadrez de Bruxelas, em primeira linha para sofrer as consequências desastrosas dos jogadores sentados de uma parte e da outra da mesa ? Que fizemos nós da democracia? A democracia não é um jogo. É um instrumento de gestão da cidade. As eleições e os referendos são a sua expressão direta. Ora, certos homens políticos deixam-se ir ao ponto de fazerem declarações totalmente dementes. Enquanto a França está em declínio desde há vários anos, que não teve êxito até agora em refazer-se da crise de 2008, que François Hollande financia a sua política mortífera pelo empréstimo tóxico que nos arruinará a prazo, que o emprego e o crescimento tem estado e estão perdidos bem longe do alcance da nossa visão, que os Franceses já não têm mais nenhuma confiança nas suas instituições e que reclamam cada vez que se leve em conta as suas vozes, Emmanuel Macron confessou na terça-feira 28 de Junho no Clube Bourbon que as políticas francesas “já não procuram propor um projeto aos eleitores, mas procuram não perder em frente de Marine Le Pen “. Que confissão de um brutal  vazio intelectual. Não se trata mais para as nossas elites de procurar e apresentar soluções aos Franceses para restaurar o nosso belo país na sua grandeza, os nossos líderes aplicar-se-iam por conseguinte apenas a querer ser oposição a uma candidata. E todos os golpes são autorizados. É já tempo para que isto acabe. Não, a democracia não é um jogo; mas se o fazem … apenas o povo soberano deve ser o vencedor. Que a sua opinião vá no sentido da doxa, ou contra ela, não  se põe em causa a vox populi.

Mas isto custa a encontrar junto destes fervorosos defensores dos direitos do homem e dos “ valores republicanos”, para quem as trombetas do Apocalipse ressoam já tão fortemente no interior das suas orelhas alucinadas que ficaram surdas à mais pequena  contradição, quando a contradição  é a verdadeira base do debate democrático. As únicas contradições a que estes pobres pregadores de más notícias chegam ainda a confrontar-se são as suas… Enquanto que os povos pedem cada vez mais democracia e uma Europa menos invasiva, indo no sentido dos interesses nacionais, servem-lhes uma velha sopa fria europeísta a caminhar para uma dissolução cada vez mais acentuada das identidades nacionais e para uma integração mortífera num fato comum demasiado grande para uns, demasiado pequeno para outros, com  Merkel e Juncker a terem  na cabeça os capacetes de cozinheira e de alfaiate …

 

Mickael Ehrminger, Revista Causeur, Brexit: on refait le match? “You failed, try again!”. Texto disponível em: http://www.causeur.fr/brexit-royaume-uni-union-europeenne-cameron-democratie-38968.html

Mickael Ehrminger est diplômé de l’ENS Ulm et secrétaire général du Collectif “Usagers de la Santé”, affilié au Rassemblement Bleu Marine.

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