REQUIEM PARA UMA UNIÃO EUROPEIA JÁ MORIBUNDA. – REFLEXÕES EM TORNO DO BREXIT, DA UE E DA GLOBALIZAÇÃO – 15. A ITÁLIA DOENTE DOS SEUS BANCOS… PORQUE DOENTE DO EURO – por JEAN-LUC GRÉAU

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E depois do Brexit caiu o pano e ninguém estava em cena, David Cameron, Boris Johnson, Nick Farage, Jeremy Corbyn tinham desaparecido – Uma série de textos tendo como pano de fundo a União Europeia  e a sua classe política.

 Selecção e tradução de Júlio Marques Mota


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A Itália doente dos seus bancos…

 Porque doente do euro

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Jean-Luc Gréau, antigo conselheiro do MEDEF, L’Italie malade de ses banques – Parce que malade de l’euro

Revista Le Causeur, 21 de Julho de 2016

 

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Em 2008, a rapacidade dos banqueiros esteve na origem de uma recessão mundial. Em Itália desenha-se o cenário inverso: a recessão está a pôr em risco todo o sistema bancário.

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Não é este o momento de comprar ações da banca, onde quer que seja, em qualquer parte do mundo. Por toda a parte “a rentabilidade dos títulos está em baixa“, os earnings descem, por toda a parte são anunciados  planos de reestruturação ou de redução dos efetivos para inverter a evolução da rentabilidade. Como estamos longe do tempo em que  os turiferários do sistema nos prometiam que os serviços bancários seriam a grande jazida de bons e bem pagos empregos da nova economia globalizada.

É primeiramente o efeito da redução do ritmo económico em curso desde o verão 2014. É seguidamente o impacto não desejado da baixa das taxas de juro impulsionada pelos bancos centrais para dopar o crescimento: as margens bancárias reduzem-se. É ainda a consequência das dificuldades das companhias mineiras e petrolíferas atingidas pela queda imprevista do preço das matérias-primas. Mas é ainda,  por último, o resultado da recessão sofrida pela zona euro: os bancos gregos estão em suspensão, já o tínhamos dito [1], à espera de uma recapitalização feita sobre fundos europeus, mas os bancos italianos também conhecem dias difíceis.

360 mil milhões de euros em dívidas de cobrança duvidosa

Não se deve confundir a ordem das causalidades. A irresponsabilidade dos banqueiros ocidentais está na origem da grande recessão de 2008, toda a gente sabe disso. Mas no caso italiano, a análise deve ser feita em sentido inverso, em que a recessão em episódios repetidos colocou em perigo todo o sistema bancário.

Uma queda de 9% do PIB levou à insolvência de muitas destas pequenas empresas que compõem o tecido económico alpino. Assim, a menos que realmente possamos culpar o descuido ou a depravação dos seus dirigentes, os bancos italianos estão sobrecarregados por 360 mil milhões de euros em dívidas, incluindo 200 mil milhões que estariam em “sofferenze” ou seja, não-reembolsáveis. Hoje, estas dívidas são o pesadelo do primeiro-ministro Matteo Renzi e de Carlo Padoan, o seu ministro das finanças.

O logro dos “testes de resistência”

Mas como é que se faz, ainda uma vez mais, que a verdade irrompa de repente, enquanto o terremoto de 2008 provocou uma série de medidas cautelares, incluindo os famosos “testes de resistência ” ordenados pela Europa para controlar a robustez dos bancos da União, a partir de 2010. No entanto, estes testes provaram-se inoperantes. Foi assim que os bancos irlandeses passaram estes testes em 2010 e isto um pouco  antes de sofrerem uma falência de proporções históricas. Foi assim, que a amplitude da crise bancária espanhola não foi apreendida enquanto ela iria exigir uma recapitalização substancial da ordem dos  60 mil milhões de euros.

Os “testes de resistência ” são realizados com base em quatro critérios: as taxas de juros, a variação no valor dos créditos detidos pelos bancos, a variação  nos rendimentos da clientela , as condições macroeconómicas. No entanto, basta um dos critérios ser subestimado que o teste erra o alvo. Em 2010, foi a subida brutal das taxas de juro dos países do Sul da Europa, em seguida, as medidas de austeridade mal doseadas. No caso italiano, é a subestimação da degradação económica – três consecutivas recessões – e o seu impacto sobre a solidez dos créditos detidos pelos bancos credores.

Uma fábrica de gaz na Itália?

O que fazer, sabendo que o Estado italiano apresenta uma dívida superior a 130% do PIB o que coloca este país no segundo lugar dos Estados mais endividados na Europa e que o governo de Roma se recusa a aumentar a carga com o risco de perder a sua própria credibilidade? E como apelar aos investidores privados, uma vez que o Estado não quer assumir o seu resgate financeiro?

Porque o risco é sistémico. Quando uma grande empresa vai à falência isoladamente, o mundo económico continua a girar sobre os seus eixos. Mas quando um banco médio de Siena ou Veneza ou um pequeno banco de Vicenza está ameaçado, teme-se um efeito de contágio sobre o sistema nacional e os seus vizinhos europeus.

Os nossos amigos italianos estão colocados sob uma situação inédita. Eles criaram um fundo com um nome bem ridículo, Atlas. Este fundo, com 4 a 6 mil milhões de euros em subscrição de ações pelos maiores bancos italianos, é encarregado de servir de apoio adicional quando os bancos que emitem novas ações para se reforçarem não têm subscritores para as comprar em quantidade suficiente. A fórmula engenhosa tende a desmultiplicar a capacidade dos fundos mobilizados: um dos designers falou sobre uma “Bazooka” sistémica para dissipar os receios de contágio.

É um pouco o que nós franceses chamamos de fábrica de gás. Tudo é assente em crédito mantido nos grandes bancos como o Unicredit e San Paolo. Ora, estes bancos não foram poupados pela queda dos preços das ações que reduziu em 40% em média as ações do banco desde 1 de Janeiro. Eles também sofrem com o fracasso de muitos dos seus devedores. Por outro lado, beneficiam da apreciação da dívida pública italiana que estes detêm na sua carteira de ativos em quantidades massivas. Para que a fábrica financeira inventada pela Itália funcione deve, portanto, em primeiro lugar, a economia real entrar numa boa trajetória de retoma e, em segundo lugar, que a dívida pública seja mantida a um nível elevado.

“Que sera sera” ou “quem viverá verá “. Amanhã, nunca é bem longe, cantou Doris Day em “O homem que sabia demais”. Basta-nos pois esperar.

 A Itália está doente do euro

Mas se a Itália está doente hoje dos seus bancos é porque ela está doente do euro. Nós não podemos confundir a economia transalpina, rica de muitas empresas de médio porte bem sucedidas e um setor de luxo pelo menos igual ao francês, com o sector grego, que pertence ao terceiro mundo, ou com o dos portugueses, ainda muito atrasados. Mas a economia italiana não é capaz de suportar na mesma concorrência os países de baixo custo, imposta pela globalização e a concorrência da superpoderosa Alemanha. Ela está encurralada. Se ela pratica a deflação salarial como a Espanha, correria o risco de criar uma crise das relações sociais dentro das muitas pequenas e médias empresas.

Não imaginamos, de momento, a saída da Itália do euro. Os dirigentes italianos não estão mais bem preparados do que os franceses para reconhecerem o erro histórico da moeda única. Um e outro comungam no altar do euro …

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(1) – http://www.causeur.fr/grece-euro-merkel-hollande-34567.html#

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Ler o original em:

http://www.causeur.fr/italie-banques-union-europeenne-euro-crise-39203.html#

 

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