A CANETA MÁGICA – Os portugueses são espanhóis? -2 . por Carlos Loures

 Ocaneta1 motivo por que voltei a este tema, tem a ver com  comentários a um artigo que aqui publiquei em Setembro de 2012. Nele colocava a questão do gentílico pátrio que deve ser aplicado aos portugueses. E para começar, vou abordar o gentílico que mais nos é aplicado e aquele que nós mais acarinhamos, usando-o, na linguagem corrente, no plano oficial, até na linguagem diplomática – o de lusitanos.

E a designação tem origem não em raízes históricas,  mas mais provavelmente, na criatividade do  poeta renascentista André de Resende (1500.1573) que nas suas obras Vicentius Levita et Martyr, Erasmi Encomiun e De antiquitatibus Lusitaniae. Provavelmente, porque por aquela segunda metade do século XVI, vários poetas usaram «lusitano» como sinónimo de português e Camões não foi o primeiro, embora, mercê do seu génio, seja o responsável pela fixação do adjectivo (historicamente errado, filologicamente inamovível)- pois a estância 21 do canto III da magnum opera da nossa Literatura, vale por mil verdades históricas:

Esta é a ditosa pátria minha amada,
À qual se o Céu me dá que eu sem perigo
Torne, com esta empresa já acabada,

Acabe-se esta luz ali comigo.
Esta foi Lusitânia, derivada
De Luso ou Lisa, que de Baco antigo
Filhos foram, parece, ou companheiros,
E nela antão os íncolas primeiros

Criámos, com base numa liberdade poética o conceito de lusitanidade e o de lusofonia – um espaço internacional – o dos países lusófonos. Obviamente que o adjectivo tem origem na divisão administrativa que os romanos instauraram na Península. Outros ocupantes tinham  atribuído outras designações. Mas comecemos a escavar antes da romanização.

O nome mais remoto que encontrei (e cuja base científica não garanto) foi  I-SAPHAN-IN, que se diz significar em fenício “costa dos coelhos”. Quando, no quadro da Segunda Guerra Púnica (218 a.C-201 a.C. )as tropas romanas invadiram a Península, o I-saphan.in, na transliteração para o latim, deu na evolução do português, Hispaniae, Hispânia, Hespanha (até à reforma ortográfica de 1911), Espanha. Em castelhano, o vocábulo, seguindo um trajecto paralelo, chegou   ao actual España e em catalão fixou-se em Espanya. Porém, quanto a mim, o problema não se situa no campo da linguística, até porque, nos documentos  oficiais predominava o latim. As picardias anexionistas vinham de longe – não esqueçamos que Afonso VII de Castela e Leão, filho de D. Urraca, primo direito do nosso Afonso I, se coroou em Saragoça, cognominando-se o Imperador, apunha à sua assinatura o título de Imperator totus Hispaniae. E os monarcas portugueses não estão inocentes nesse tipo de fanfarronada. Não falando de D,Teresa, mãe de Afonso I, que a partir de 1112, quando enviuvou, passou a usar o título de rainha, ou do próprio filho que se autoproclamou rei  em 1129, 50 anos antes de a comunidade internacional, pela bula papal Manifestis probatum, reconhecer a independência de Portugal.


Continuarei  a aprofundar este tema que sendo filologicamente quase irrelevante assume uma vertente política importante .- a de uma nação que submete outras nações usando o idioma como arma.

 

 

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