O MAPA (A saga do anadel) -Os Mateus voltam a ter um guerreiro-/20- por Carlos Loures

Lisboa, domingo, 12 de Abril de 1460.

 

Muita chuva caiu depois daquele dia de Maio de 1459 sobre as telhas e calçadas da cidade. Matilde teve dó do rosto suplicante de Lopo e, como lhe confidenciou depois, enamorara-se também do canhestro moço, que parecia por vezes tartamudo, mas, era bem-parecido, ilustrado, honrado e Imagem1inteligente. Maria Beatriz compadeceu-se do irmão e ajudou, fazendo o seu elogio junto não só de Matilde, como da mãe e de Leonor, a tia da moça. As matronas das duas famílias vizinhas tinham trocado impressões quanto à conveniência e oportunidade do namoro e do casamento. Houve numerosos conciliábulos e conclaves de pátio. A mãe da rapariga via o namoro com bons olhos, Lopo parecia-lhe excelente companheiro para Matilde – boa figura e, logo, promessa de netos bonitos, assisado, trabalhador… Por elas, não haveria obstáculos, estavam de acordo. Mas, apesar do consenso feminino, havia um grande obstáculo: o tanoeiro. Não que a criatura tivesse alguma coisa contra Lopo, mas uma filha sua, dizia encolerizado, não era para o primeiro bonifrate que lhe fizesse olhinhos meigos. Era o que faltava! Nem calígrafos, nem escrivães! – Pelos vistos sabia também das pretensões de Julião. Parecia estar a guardar a filha para alguém ligado à Corte.

         E foi preciso que Simão, já ao corrente do namoro, e, Branca Maria, a mãe do jovem copista, que depressa se aperceberam do tormento em que o filho vivia, intercedessem a seu favor. O tanoeiro, apesar de bruto, respeitava a sabedoria e probidade de seu vizinho Simão, a impoluta reputação da família, apenas ensombrada pelos desmandos do almogárave. Muitas vezes o velho e o bruto tanoeiro, apesar de pertencerem a gerações diferentes, tinham estado a beira do confronto físico, depois de acalorados debates, não de ideias que eram coisas que não povoavam as duas pétreas cabeças, mas de impropérios. Após a intervenção de Simão, que o convocou gravemente para uma conversa «entre homens», lá autorizou os jovens a falarem, o rapaz desde a rua para a sua amada na janela ou mesmo a estender-lhe na ponta de uma cana cartelas com versos que o tanoeiro, tão sabedor de letras como uma bigorna, insistia mesmo assim em ver antes que a filha as pudesse ler. Contudo, nem só do lado de Matilde havia preconceitos – Bartolomeu, quando compreendeu o sentido geral do problema que provocara tantos segredos e conversas inaudíveis devido à surdez que com a idade lhe viera, logo começou a atiçar o rapaz:

         – Foge com a rapariga – e baixava conspirativamente a voz – de noite, encostas uma escada à casa desse fi de puta e a menina vem nos nossos braços até à garupa de uma mula. Atravessas o rio na barca do mestre Rui, o adaíl da minha hoste, no tempo do cerco em Castela, e passas para a banda d’Além. Mestre Rui, o adaíl de que muito falava, mais velho do que Bartolomeu, morrera já há muito tempo, mas o almogárave misturava as eras e esses pormenores, de quem estava ou não vivo, não lhe atrapalhavam as histórias. Continuou, pois, a traçar o seu plano:

         – Quando o porco e a estúpida da mulher derem por falta da filha, já estamos em Palmela ou até mesmo, andando bem, em Setúbal. Eu vou convosco, não vá esse cabrão mandar sicários em nossa perseguição. Se o fizer, eu encarrego-me deles, enquanto tu e a menina fogem – traçada esta estratégia, chegavam-lhe alguns escrúpulos – Bem, quando for manhã e passares por uma igreja, desposa-a. Desposa-a antes de… de… tu sabes, o que eu quero dizer. Nós, os Mateus, não somos de aleivosias. Somos todos – olhou dubitativamente para Simão que, alheio à conspiração entre avô e neto, lia serenamente um códice – ou quase todos, gente guerreira, mas de bem – E logo acrescentou outro «sensato conselho»:

         – Se o clérigo se fizer esquisito, mostras-lhe a moeda de ouro que te vou dar. Se ele teimar na recusa, encostas-lhe um trinchão ao pescoço e tiras-lhe a moeda – e berrou – A esses alcovetas de saias, topo-os eu bem demais – Preocupado, Simão, ergueu os olhos do livro.

         Lopo ouvira mais uma vez a história de como, vindo da guerra com Castela, raptara a avó Mafalda e a trouxera desde Condeixa até Lisboa. Em Leiria, um cónego os casara, ameaçado por uma adaga encostada ao pescoço, pois «nós, os Mateus, somos gente de bem». Os pais, quando deram conta destes conselhos, acenaram para que o rapaz não ligasse às palavras do velho. Muitas vezes Lopo pensou que talvez o avô tivesse razão e o rapto fosse a melhor solução para ultrapassar a muralha que o tanoeiro punha entre ele e a filha. Porém, as coisas acabaram por se arranjar de maneira pacífica. A mãe do noivo intercedeu junto de Maria Dominga, a mãe de Matilde, uma pobre mulher que tremia sempre que o marido abria a boca. O segredo para contornar o pavor que o marido lhe provocava, confiou à progenitora do rapaz, era deixá-lo gritar até ficar roxo de cólera e sem alento para continuar a berrar. Quando pedia um copo de água, era a altura para poder defender sem perigo as suas ideias. E assim, lá o casamento se arranjou. Lopo e seus pais aceitaram um dote simbólico e, ponto essencial do tratado, o rapaz declarou não ter o propósito de herdar a tanoaria, que iria ficar para um irmão mais novo de Matilde.

         Após breve noivado, casaram em 12 de Abril de 1460 numa capela da Igreja de São João da Praça, a mesma onde ambos haviam sido baptizados. Lopo completara dezassete anos e Matilde dezasseis. Estava um dia soalheiro. No Falcão Azul, vedado naquele domingo a outros clientes, fez-se um banquete. Fernão Lopes e Mor Lourenço foram padrinhos do noivo, oferecendo uma bela travessa de prata com as iniciais M e L entrelaçadas e cinzeladas ao centro. No ano seguinte foram abençoados com a chegada de um varão, Lourenço. O menino saiu bonito, robusto e saudável e Bartolomeu, com mais de oitenta anos, surdo, mas com uma voz tonitruante com a qual proclamava os seus coriáceos dogmas e asserções, afirmou logo que uma criança tão forte só podia dever-se ao facto de ser seu bisneto. Talvez fosse um erro ter deixado o menino tantas vezes junto dele. Foi companheiro dedicado de Lourenço, mas inculcou-lhe valores que não eram os que Lopo e Matilde haviam sonhado para um filho. O rapaz aprendeu Latim e Humanidades na escola catedral, como acontecia na nossa família desde o avô, mas tendo herdado o feitio assomadiço do velho, embora sofrendo as palmatoadas e chibatadas dos frades para meter na cabeça os casos, as desinências e declinações, nunca teve outro sonho que não o de vir a ser um homem de armas. Bartolomeu que se finou quando o jovem tinha já dezoito anos, exultava:

         – Finalmente os verdadeiros homens voltaram a esta família – gritava, fazendo a habitual menção de cuspir.

 

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