Antes de cair em traiçoeiros poços, perdendo de novo o fio da meada que me comprometi a desenredar perante os vossos olhos, falemos do mapa que é a razão de ser desta história. Mas, já vos avisei das voltas que o pensamento me dá e das armadilhas em que pelo caminho tropeça e cai. Por volta de 1476, Lopo deixara de ser copista e montara uma oficina perto de casa onde executava cartas e mapas portulanos que os capitães e pilotos de navios que partiam de Lisboa ou aqui arribavam lhe encomendavam e que, as mais das vezes, se baseavam em apontamentos de decifração difícil, pois ou não sabiam escrever ou escreviam de forma complicada, substituindo palavras por hieróglifos pessoais. As cartas exigiam longas conversas com os clientes. Tudo começou cerca de 1480, quando Lopo acabava de fazer amizade com Vaz da Cunha, dele recebendo a encomenda de trabalhar numa carta que parecia inspirada noutra que, por encargo de el-rei D. Afonso, Fra Mauro, com a ajuda de Andrea Bianco, realizara. Ali se reunia ainda o conhecimento que as navegações feitas até então permitiam. A carta terá vindo para Portugal em 1459. Pêro Vaz da Cunha, depois conhecido como o Bisagudo, viera ao Falcão Azul recomendado por um amigo, trazendo a tal carta que lhe chegara vinda de familiares ou amigos de Inglaterra. Neto de Álvaro Pais, chanceler dos reis D. Pedro e D. Fernando, filho de Luís Álvares Pais, mestre-sala de D. Duarte e de D. Afonso V, sendo, na altura, pajem da Corte, tinha o jovem os seus vinte anos e, embora as idades e as condições sociais fossem diferentes, o seu pendor para as coisas náuticas indo ao encontro do saber de Lopo, depressa os tornara cúmplices de longas divagações, especulando sobre os limites do mundo e do Universo.
A carta que Vaz da Cunha trouxe, no aspecto, era um mapa típico da época, onde a falta de conhecimento era substituída pela imaginação – seres fantásticos, ilhas prodigiosas, coisas bonitas umas vezes, aterradoras outras, fantasiosas quase sempre. Este mapa-mundo era ainda mais intrigante do que usualmente. Baseava-se não só nas informações que vinham de Polo, Conti e de outros viajantes, como nas notícias recolhidas dos navegadores portugueses, pois a costa africana aparecia ali já coincidente com tudo o que os nossos marinheiros tinham descoberto até 1444, contendo dados desconhecidos, mas que vinham preencher lacunas. Mas não nos adiantemos. Vaz da Cunha queria que Lopo, mantendo as tais informações novas, introduzisse as correcções que quase quatro décadas de posteriores descobertas e navegações permitiam.
Logo se formou uma junta científica ad hoc para que o mapa encomendado pelo jovem fidalgo fosse um espelho fiel do estado dos conhecimentos. Eram cientistas que trabalhavam sob a orientação do grande Abraão Zacuto, os mestres José Vizinho, médico hebraico dado às ciências que também era conhecido por Mestre José Judeu, e Rodrigo, outro físico e cosmógrafo judeu, eram da opinião de que devia ser levado em conta o Guia Náutico de Munique, referência para todos os que se interessavam pelas navegações. Martin Behaim, um jovem germano natural de Nuremberga, conhecido como Martinho da Boémia, que também aparecia na assembleia reunida na oficina de Lopo, na Rua da Porta do Mar, trouxe-lhe uma sua carta onde a Ocidente da península Ibérica e da costa de África que as navegações portuguesas tinham permitido conhecer, aparecia, além das ilhas das Flores e das Antilhas, ilhas como Catai e Cipango, antecedendo a costa oriental da Ásia. Essa sua carta tinha como matriz o mapa de Martellus Germanus. Behaim estava também a conceber um globo, a Erdapfel, representando o planeta que, como agora todos sabem e na altura já se afirmava, tem a forma esférica de uma laranja. Trouxe para a oficina um primeiro modelo experimental desse globo, que foi instrumento muito útil nas deduções que estabeleceram. O seu contributo foi, pois, precioso.
Mas uma dúvida persistia em todas as doutas cabeças – e se a grande massa de terra entre a Europa e a Ásia, que aparecia esboçada no mapa, não fosse nem Catai nem Cipango?