REQUIEM PARA UMA UNIÃO EUROPEIA JÁ MORIBUNDA. – REFLEXÕES EM TORNO DO BREXIT, DA UE E DA GLOBALIZAÇÃO – 25. O BREXIT: QUAL A IMPORTÂNCIA? por YVES-MARIE LAULAN

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

E depois do Brexit caiu o pano e ninguém estava em cena, David Cameron, Boris Johnson, Nick Farage, Jeremy Corbyn tinham desaparecido – Uma série de textos  tendo como pano de fundo a União Europeia   e a sua classe política

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O Brexit: qual a importância?

Laulan - I

Yves-Marie Laulan, Presidente do Institut de Géopolitique des Populations, Le Brexit: quelle importance?

 Revista Metamag, 11 de Julho de 2016

 

A saída da Inglaterra da União Europeia tem ela a importância dada pela imprensa? Sim e não.

Em primeiro lugar, então que mosca picou o infeliz Cameron de organizar este não menos infeliz referendo até agora tão afastado das tradições políticas britânicas, quando ninguém lhe pediu nada. O seu objetivo era destruir pela raiz uma oposição já visível dentro do seu próprio partido. Um caso bem sucedido: isso é o chamado “atirar um tiro sobre o próprio pé”. E não falhou o tiro. Vê-lo pois desembarcado do seu próprio partido e, sem dúvida, da vida política. Mas, provavelmente, poderia «horresco referens», ser eleito deputado europeu.

Na verdade, a lição da história voltou a demonstrar muitas e muitas vezes, que o referendo é uma armadilha para tolos que na maioria das vezes funciona contra o político que pensava ser prudente ao utilizá-lo. Evidenciado pelo referendo de Abril de 1969 que marcou prematuramente o fim da carreira política do general de Gaulle.

Em si mesmo este evento tem apenas as dimensões restritas que, na maior parte, se referem à própria Grã-Bretanha. Esta última, pelo caminho que as coisas estão a tomar, depois da Irlanda, corre o risco de perder a Escócia, cada vez mais irritada pelas posições contrárias assumida pela sua grande vizinha, pondo fim a 4 séculos de União política (o Ato da União data de 1707). Desde então, a Inglaterra, 5 por cento do PIB mundial,  encontrar-se-ia transportada para vários séculos atrás, para o tempo da rainha Anne. Seria um enorme recuo da Inglaterra. Ela permaneceria mesmo assim à frente da República de Mónaco e do Liechtenstein.

Para já a Grã-Bretanha pagou bem caro por esta variação absurda de humor com a queda da libra e com o risco de ver saltar para o exterior muitas das suas atividades financeiras, que têm sido até agora  o alfa e o Ômega da atividade económica da Grã-Bretanha. Desde há já muito tempo que não se produzem nem motas, nem automóveis nem tratores em Inglaterra. (Exceto sob licença estrangeira e com capital estrangeiro. A indústria transformadora britânica vive uma verdadeira agonia). No entanto, as lojas de “fish and chips por todos os cantos das ruas” estão florescentes e os turbantes Siks ou turcos vêem-se por todo o lado.

Este país tem estado realmente em queda e por todos os pontos de vista em termos de coerência interna que caracterizam uma grande nação, abandonando de passagem uma boa parte da sua dignidade, do seu orgulho e até mesmo da sua identidade nacional.

Sabe-se, por exemplo, que o novo prefeito de Londres, Sadiq Khan, que substituiu Boris Johnson, este inquieto de cabelo de albinos, advogado convicto do Brexit, é um corajoso paquistanês de  tez morena e, claro, muçulmano? Prestou ele juramento sobre a Bíblia ou o Alcorão? A história não o diz. É pena.

Não, não é, porque os londrinos estejam maciçamente convertidos ao Islão mas tudo simplesmente porque os paquistaneses invadiram as ruas de Londres, ao ponto de constituir uma forte minoria. Sabe-se, por exemplo, que 37% dos residentes de Londres não nasceram na Grã-Bretanha? Que Sadiq Khan seja  um homem muito corajoso, não é esta a questão. O problema é que ele é paquistanês e muçulmano. E mais cedo ou mais tarde, estas questões da maioria religioso-demográfica alegremente deixada debaixo do tapete tendem a aparecer e a pesarem muito na vida política do país e no funcionamento da sociedade civil. Estas são bombas-relógio demográficas.

A Inglaterra paga aqui por décadas de comunitarismo e sentimento nacional levado ao exercício de um liberalismo extremo.

No que diz respeito ao Brexit, pode-se argumentar que o evento é menos importante em si mesmo do que aquilo que se podia prever, nomeadamente o desmantelamento, pedaço por pedaço, do edifício laboriosamente montado a partir de há mais de meio século, desde a CECA, a Comunidade do Carvão e do Aço, até hoje.

Na verdade, a UE, uma associação de dimensão variável, dividida em diversos sub-conjuntos, dependendo do humor do tempo e do gosto do dia, zona euro, espaço Schengen, era essencialmente uma união aduaneira, um espaço de livre circulação de pessoas e mercadorias. Mas muitos países e não dos menos importantes, como a Noruega ou a Suíça, beneficiam das mesmas vantagens sem fazerem parte da UE.

A União Europeia é de alguma forma uma “suave” carapaça externa da Europa. Ela não oferece nenhuma proteção militar imediata explícita como a que é fornecida pelo artigo V da NATO. Mas é claro que atacar um país membro, país da União Europeia teria sem dúvida graves  consequências para o agressor. Por outras palavras, a União Europeia tem um papel geopolítico indiscutível e é agir com muita leveza estar a renunciar a este papel,  o que acaba de fazer a Grã-Bretanha sob o mau pretexto de “recuperar” a sua soberania plena que, na verdade, quase não tem estado ameaçada.

Então, a UE, serve para quê? Também não se sabe muito bem. Mas é claro que a UE irrita, para não dizer mesmo uma outra coisa.

Verdade seja dita, se UE estivesse confinada a ser isso, mais um punhado de subsídios que beneficiam os países menos desenvolvidos, qualquer pessoa não teria nada a dizer.

Mas o drama da UE continua a ser este trabalho incessante da infernal burocracia europeia, dez vezes demasiado grande que, sob a tutela zelosa do infame Junker, acredita encontrar a receita para a criação do Estados Unidos da Europa, o sonho de sempre, começando pela dimensão regulamentar, de acordo com as normas europeias, dos enlatados de pequeno peso e do comprimento dos raios das rodas das bicicletas. Por outras palavras, é a Europa pelo baixo. É esta máquina de triturar o  vento que alimenta mais do que qualquer outra coisa o sentimento antieuropeu.

È de facto necessário ocupar estes regimentos dos funcionários que estão entediados até a morte numa Bruxelas sem dúvida também raramente atingida por alguns ataques terroristas. No entanto em conformidade com a lei de Peter, quanto  menos eles têm que fazer, mais numerosos eles são, o regime destas pessoas burocráticas que se medem pelo número de escravos ocupados a não fazerem nada e pelos metros quadrados dos seus gabinetes, sinal incontestável do seu poder e da sua riqueza, tal como outrora os crânios inimigos que ornamentavam a morada dos chefes africanos.

Ora, são estas mesmas normas europeias esquisitas, cuidadosamente destiladas no dia a dia por este exército de funcionários europeus subocupados, que acabaria por se tornar com o tempo como uma espécie de borbulha a incomodar a pele desde o cidadão  europeu médio ao mais modesto .

Pessoalmente na minha aldeia europeia havia um fabricante de queijo local que teve muito sucesso. Foi forçado a fechar a loja e a reconverter o equipamento, porque o número de moscas por metro cúbico na produção do seu rústico queijo excedia as normas europeias. Ah, mas.

O modelo de referência não confessado neste tipo de atividade artesanal é a aldeia holandesa limpa, polida, impecável, que produz uma série de produtos sem sabor, mas de acordo com as normas europeias.

A rejeição maciça da Europa que se incuba aqui e acolá, tem-se estado a cozer-se  neste tipo de panelas burocráticas.

Além de que a Europa está totalmente desarmada face à crise dos migrantes que ainda agora apenas começou. Então para que serve Europa e as suas micro-normas insensatas?

A Europa está claramente em crise. Ou se reforma ou explode.

O que o corajoso Junker, cujo físico só atesta a sua paixão burocrática (depois de cobrir anos de atividades bem-sucedidas de uma enorme evasão fiscal no Luxemburgo), parece ter esquecido é que os Estados Unidos da América se forjaram a ferro e fogo, depois de 5 anos de um conflito de rara violência que custou 1 milhão de mortes e vários milhões de feridos e a destruição de bens incalculáveis.

Poderá fazer a Europa dos pequenos pesos mas irá perder a Europa das  grandes Nações.

As Nações não se concebem senão na dor, não no conforto das luxuosas poltronas dos diplomatas.

Yves-Marie Laulan, Presidente do Institut de Géopolitique des Populations, Revista Metamag, Le Brexit: quelle importance? Texto disponível em:

http://metamag.fr/2016/07/11/le-brexit-quelle-importance/

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