A OPINIÃO DE DANIEL AARÃO REIS – GLÓRIA E MISÉRIA DE UM DITADOR AMADO

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Fidel Castro fez 90 anos.

Mas de que homem se trata? Ao longo do tempo, quantas metamorfoses?

Há um primeiro Fidel de quem pouco se fala, jovem ainda,  tateando caminhos. Os detratores já o caracterizam como aventureiro. A versão oficial prefere silenciar. John Lee Anderson, em biografia anunciada, talvez ilumine a importância deste período.

O homem ganha nitidez depois de março de 1952, quando um golpe de estado, urdido por Fulgencio Batista, instaurou uma das ditaduras mais sangrentas e corruptas da América Latina, transformando Cuba num cassino e num puteiro. Amarrou-se, mais do que no passado, a dependência ao grande irmão do Norte.

Fidel Castro rebelou-se, como várias outras lideranças. Formou-se uma frente nacionalista e democrática, plural,  contra a ditadura. O programa defendido inseria-se nos movimentos latino-americanos dos anos 1950, por estados soberanos e  regimes democráticos, preocupados com a justiça social. A luta desdobrou-se até janeiro de 1959, quando um exército guerrilheiro,  liderado por ele,  entrou vitorioso na cidade de Havana.

Este segundo Fidel cedo suscitou suspeitas quanto a suas reais inclinações democráticas. Garantia, porém, que jamais se tornaria um ditador.

A realidade caminhava em outras direções: em vez de  liberdades, consolidou-se o   exército rebelde  como instituição reitora. O verde-olivo como cor oficial. O líder  tornou-se  comandante-em-chefe. Militarizou-se a revolução, verticalizada, autoritária. Enquanto os compromissos democráticos definhavam, as políticas favoráveis à afirmação nacional (expropriação de empresas estrangeiras) e ao bem estar social (reforma agrária) mobilizavam as consciências.

Os governos estadunidenses reagiram com brutalidade. Cortaram laços econômicos e diplomáticos, pressionaram os estados latino-americanos a fazer o mesmo, armaram e apoiaram contra-revolucionários. Em suas toscas estimativas, os cubanos capitulariam.

Não foi o que aconteceu. Fidel, numa terceira versão,  agigantou-se como chefe nacionalista e ditador revolucionário. Sua oratória empolgava as gentes, armadas na Praça da Revolução.  Um furacão no Caribe, escreveu J. P. Sartre. Na luta desigual, que durou até o fim dos anos 1960, Cuba tornou-se um ator – pequeno, mas ativo, da guerra fria. A União Soviética apoiou, com ajuda econômica e militar.  Para não trocar a velha dependência por uma nova,   seria preciso revolucionar a América Latina e o mundo. O Che Guevara jogou esta carta. Perdeu-a. E perdeu a vida com ela.

Fidel, realista, ajustou-se. O discurso de apoio à invasão da Tchecoslováquia pelas tropas soviéticas, menos de um ano depois do assassinato do Che na Bolívia, selou uma opção. Desde então, e até meados dos anos 1980, prevaleceu a  dependência aos padrões soviéticos: centralização e estatização econômica, exército profissional, ditadura política,  repressão às oposições. Apareceu um quarto Fidel: ditador marxista-leninista, submisso à ajuda soviética, conservador. Em contrapartida, a população conseguiu altos padrões de bem estar social – educação e saúde gratuitas,  serviços urbanos baratos e habitação igualitariamente distribuída. Havia ineficiência e desperdício, mas a União Soviética pagava as contas. E, no limite, respeitava certas margens de autonomia – Cuba nunca chegou a se tornar uma “democracia popular”, como os satélites da URSS na Europa central.

A perestroika e a desagregação da grande potência socialista encerraram esta fase, com efeitos devastadores. Os EUA aproveitaram e apertaram as cravelhas dos antigos bloqueios. Quando tudo parecia perdido e  se anunciava o fim próximo, a sociedade cubana reativou suas referências nacionalistas. Fidel ressurgiu numa quinta versão, como pai da pátria,  recolocando José Martí no proscênio e deixando o leninismo na obscuridade.

Foram aí de grande valia o recurso a expedientes econômico-financeiros heterodoxos e a aliança com o nacionalismo redivivo na América Latina, rompendo o isolamento cubano. Ironias da história: o que o Che não conseguira com armas nas mãos, seria conseguido agora pela diplomacia. Fidel, nesta última versão, voltava às origens de chefe e dirigente nacionalista.

Depois de décadas no poder, sempre exercido de forma ditatorial, como nacionalista, revolucionário,  socialista ou conservador, Fidel Castro vinculou irremediavelmente  seu nome à história do Estado cubano. Pelos feitos da sociedade, tornou-se um ditador amado, seduzindo pessoas comuns e mesmo intelectuais, medusados por sua inteligência, carisma e oratória.

E assim se fez sua glória. E sua  miséria, que é a de todos os ditadores, e também a das gentes que os amam, pois é triste a Sorte  dos que, perdendo a autonomia e a capacidade crítica,  se prosternam diante de chefes e se deixam subjugar por eles.

Daniel Aarão Reis

Professor de História Contemporânea da UFF

Email: daniel.aaraoreis@gmail.com

 

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