CONTOS & CRÓNICAS – O ESCRITOR DA SEMANA – OS TÃO BADALADOS RANKINGS – EVA CRUZ/1

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004 - adão - os tão badalados rankings

Refiro-me a um artigo que publiquei há vários anos no Jornal, A Página da Educação.

Infelizmente o artigo mantém a atualidade. Os leitores serão diferentes, e por isso o reescrevo quase na íntegra com ligeiras alterações. Se mais não for, as alterações a que me vejo obrigada para seguir o acordo ortográfico. Não sou contra inovações, mas esta não me entra na cabeça.

Há já muito tempo que perdi a vontade de comentar factos. O sonho que alimentava o espírito combativo foi perdendo penas das asas e tende a quedar-se num conformismo amargo mas legítimo. Sinto que é pregar no deserto e, embora não vencida, desisti de tentar convencer. Às vezes, porém, o compromisso que se assume com a vida é tal, que a voz se solta e antes que dê comigo a falar sozinha, escrevo.

Fui professora de mais de um milhar de alunos e vivi por dentro todas as reformas do Ensino. Apesar de aposentada há já uns anos, vivo ainda os problemas da Educação e sinto-me suficientemente lúcida para os analisar.

Avaliar escolas por resultados numéricos de exames é contrariar todo o espírito que preside à filosofia da Lei de Bases do Sistema Educativo e às reformas que mais ou menos nela assentaram. O mínimo que se pode dizer é que o resultado é enganoso ou falacioso.

Considero, inquestionavelmente, que os bons resultados académicos são importantes.

Sempre valorizei a exigência científica, não me deixam mentir os meus alunos e os professores que formei. Só que esses resultados são números que reflectem realidades merecedoras de análise à luz de muitos fatores, especialmente fatores sócio-económicos dos alunos. Com isto não quero negar o valor dos bons alunos, dos que obtêm bons resultados à custa do seu trabalho, das suas capacidades intelectuais e do empenho do seu professor. Há, no entanto, alunos que, sem ajudas paralelas à escola, e de meios desfavorecidos, conseguem o que outros não conseguem. São casos raros.

O que pretendo perguntar é onde está avaliado o papel da Escola nas competências humanas e humanizantes, o resultado do papel essencial da Educação. A Escola ensina, mas acima de tudo educa. E a Escola é o meio privilegiado para educar para a vida.

A Escola nova assenta em conceitos bem definidos de Educação e Formação. Implica, por isso, critérios novos, outras metodologias e estratégias, outra ordem de meios e recursos, porque os seus objetivos são diferentes. Acima de tudo propõe-se construir um novo projeto de vida. Por isso a Escola não pode estar desligada do homem e da sua vida em relação.

Durante décadas, o Ensino-Aprendizagem foi enformado de uma filosofia positivista, servida por modelos de investigação quantitativa e aplicação selectiva, catalisadores de diferenças e geradores de desigualdades e insucessos. Tocada por uma visão humanista, a Escola repensou o seu papel, apercebendo-se do valor das diferenças e foi levada à valorização de ações e interações. Daí nasceu uma Escola dinâmica, baseada na promoção da pessoa humana. Mas hoje tal não passa de “words mere words”, como diria Shakespeare. E a prova são os critérios que levam aos tão badalados rankings.

O fenómeno da marginalização e da exclusão atinge-nos a todos e por isso há que o encarar de frente e com grande lucidez. Há ainda no mundo quem pense que é possível desmontar e atacar as causas do fenómeno. Há escolas e professores que fazem um trabalho ciclópico para conquistar e integrar aqueles que, por razões diversas, não são os culpados do seu próprio insucesso. São muitas vezes essas escolas e os seus professores que se situam nos últimos lugares dos tais rankings.

Apesar de ter pertencido a uma escola situada nos primeiros lugares do ranking, congratulo-me, não acriticamente, e solidarizo-me com todos aqueles que, no silêncio e fora do palco, continuam a trabalhar alimentados pelo sonho e pela utopia.

(ilustração de Adão Cruz)

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Este texto foi publicado no Estrolabio em 5 de Novembro de 2010.

http://estrolabio.blogs.sapo.pt/373108.html

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