Lisboa, terça-feira, 25 de Junho de 1487.
A Judiaria Velha, também conhecida como a Grande, era um pequeno universo. Estendia-se ao longo do vale da cidade baixa, entre os limites marcados pelas Igrejas de Santa Maria Madalena, nas faldas da colina do Castelo, e as de São Nicolau e de São Julião. Ladeava, portanto, a nordeste, as ruas dos Ferreiros, também chamada Rua da Ferraria da Judiaria, correndo a Nordeste da Sinagoga Grande. Mais tarde – depois do grande terramoto que devastou Lisboa em 1531 – recebeu o nome de Rua dos Latoeiros. Havia ainda a rua do Picoto, que atravessava toda a Judiaria Velha, na direcção Este-oeste, começando junto à sinagoga, e a rua do Chancudo que corria quase paralela à anterior e que vinha desembocar junto da porta do mesmo nome. Outras ruas e lugares importantes da Judiaria Velha eram também as ruas da Correaria, a Nova d’El-Rei, a de Lava-Cabeças, a da Tinturaria, a da Sirgaria, a de D. Rolim, a do Poço da Fótea, a da Gibetaria, a Rua Estreita, bem como o Beco e a Praça da Sinagoga Grande, A Adega do Rei, a Adega da Dona da Judiaria, as portas de São Nicolau, da Ferraria, do Picoto, do Poço da Fótea, o Beth Midrash, a Escola, o Estudo de Palaçano, a Livraria, o Balneário, o Hospital, as Carniçarias, a Estalagem…
Era, como ainda hoje o é, um dédalo confuso para quem não o conheça bem – templos, albergarias, locandas, ruas, praças, travessas, becos, calçadas, azinhagas, portas – um pequeno mundo. A Judiaria Velha encontrava-se muito perto do coração desta linda cidade, que palpitava ali mesmo, no alto de uma colina, com o Castelo de São Jorge no seu cimo, vigilante como águia defendendo ciosamente o seu ninho. Havia também a Judiaria Nova ou Pequena, que, no fundo, se resumia à rua situada a sul da de Morraz. Ali muito próximo, já situadas na parte exterior da nova muralha, mandada construir por el-rei D. Fernando, iam, aos poucos, surgindo algumas casas de morada, porque a população da cidade, vinda sobretudo das províncias, mas também do estrangeiro, não cessava nunca de aumentar. Também no interior desta muralha nova, no vastíssimo e irregular terreiro do Rossio, se cultivavam terras, tal como ocorria nos arrabaldes. Eram, sobretudo, pequenas hortas, embora, atravessando esse terreiro para Ocidente, aí se achasse situado o grande Paço dos Estaus, mandado construir pelo Infante, senhor D. Pedro, quando foi Regente do Reino em nome de seu sobrinho el-rei D. Afonso, o quinto. Neste magnífico paço, onde hoje funciona o Tribunal do Santo Ofício, se hospedavam os embaixadores das nações e dos reis estrangeiros que aqui vinham e que ali eram recebidos com honras e grandeza por conta da fazenda pública. Hortaliças, frutas, outros vegetais e grandes e vistosas opulências conviviam sem que houvesse queixas, quer de embaixadores, quer de abóboras.
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Naquela tarde quente dos primeiros dias do Estio de 1487, quase à chegada da noite, mas ainda antes que os pregoeiros passassem, como todos os dias faziam ao cair do crepúsculo, gritando para as janelas que era obrigação de todos os vizinhos pôr guarda ao fogo, não fosse um incêndio devorar estas casas, em cuja construção imperava, além da pedra das paredes-mestras, a madeira das asnas dos telhados, das vigas dos sobrados, das paredes divisórias. Casas encostadas umas às outras como donzelas friorentas.
Tendo terminado o seu turno de guarda dentro das muralhas do castelo, o besteiro Lourenço de Mateus, descia a Rua Direita da Porta, vindo como era seu hábito, até São João da Praça, rua onde se situava a casa onde morava com os pais e os tios, a casa onde desde há mais de cem anos os Mateus viviam e da qual já vos falei. Lourenço era um moço alto e forte, usando longos cabelos em respeito pela usança de sua geração. Isto posso afiançá-lo, pois dele me lembro desde que me pegava ao colo e me atirava ao ar, segurando-me depois nos seus braços fortes e poderosos. Minha mãe sempre afirmou que era muito bonito e donairoso e que, mesmo depois de casado, as moças, e mesmo algumas senhoras menos moças, o cercavam e assediavam e que por vezes foi necessário defender o que lhe pertencia com a pertinácia e coragem que todos reconhecemos aos hebreus quando se trata de preservar o seu património.
Muito perto da Rua das Pedras Negras, ficava a velha tenda do judeu Jacob Levi – a Taverna do Falcão Azul, situada fora do perímetro das judiarias, em plena zona cristã. Lourenço habituara-se desde criança a ir à locanda, beber hidromel e comer a famosa «cidrada do judeu», com seu pai Lopo, morto de forma trágica. Por isso, mantendo esse hábito, quase todas as tardes, acabado o seu trabalho na guarnição do castelo, ou pelas manhãs se era nocturna a sua vigia, entrava ali para beber um fresco copo de hidromel e, de caminho, regalar os olhos na visão da filha do tendeiro, a jovem Débora, neta do velho Samuel. Quando estava já próximo da entrada, ouviu gritos e estrondos anunciadores de iminente desacato. Embora manter a ordem pública fosse coisa destinada a meirinhos e beleguins, ele, besteiro da guarnição, sentia também ser seu dever intervir sempre que fosse necessária a mão da justiça, tanto mais que Jacob Levi era um amigo de infância de seu pai Lopo e a formosa Débora não lhe saía nunca do pensamento. Por isso acelerou o passo e entrou na taverna. Era, nesse ano da graça de 1487, um garboso besteiro ao serviço de um dos alcaides-mores da cidade, o senhor D. Nuno Soares. Tinha poucos meses acima dos vinte e cinco anos e, vagueando-lhe pela cabeça, além da tristeza pela morte de seu pai, os sonhos e ambições próprios da idade.
Recuando no tempo e viajando até às origens da nossa família, diria que os Mateus eram gente que tinha migrado cerca de 1380 para esta cidade de Lisboa, vindos do Norte do país, mais propriamente de Foz Côa. O meu trisavô Bartolomeu, nascera já aqui, tendo vivido em plena infância e mocidade as vicissitudes que culminaram a crise dinástica que a morte de D. Fernando provocou, com os terríveis assédios castelhanos e as diversas e ferozes guerras que se seguiram até à nossa jubilosa vitória em Aljubarrota e à ratificação em 1386, com o tratado de Windsor, da aliança que, em 1373, havíamos estabelecido com Inglaterra, que permitiu nos consolidar a independência face à gula de Castela. Em 1396 a guerra com Castela reacendeu-se e em 1400, com apenas 16 anos, Bartolomeu, dizendo-se mais velho, combateu nas hostes do Condestável, quando este cercou Valença de Alcântara. Participou como almogárave nas devastações que os Portugueses praticaram na região de Cáceres. Foi uma curta carreira militar que terminou com o acordo de tréguas, firmado em Outubro de 1402. O acordo vigorou, com intermitências, até à assinatura da Paz de Segóvia, em 1411. No entanto, esses dois anos em que andou na guerra e os mais alguns em que permaneceu nas hostes, absorveram no seu imaginário os mais de quarenta em que foi aprendiz de calafate, cordoeiro e, finalmente carpinteiro. De resto, meu bisavô Simão e meu avô Lopo, foram fustigados, durante as suas vidas com as narrativas do ancião, cuja cabeça vivia mais nesses dois anos difíceis de correrias e batalhas do que nesta época de navegações, descobertas e descobrimentos em que o seu velho corpo sobrevivia. Lourenço recordava com saudade a voz estentórea do bisavô, surdo e quase nonagenário, gritando as suas aventuras na guerra contra Castela porque, dentro da bartolomeica cabeça, Bartolomeu era uma lenda! Morrera sete anos atrás e fora sempre um bom companheiro para o bisneto.
Lourenço tinha a ambição de subir na carreira das armas. Para atingir tal desiderato, a seu favor contava, além de uma forte compleição física e de uma razoável erudição e de um bom treino nas artes militares, um feitio audacioso, sedento de experiências novas. Não era falador, nem a sua irreverência se exprimia por palavras, nesse aspecto era diferente do bisavô Bartolomeu – perante uma injúria ou afronta, uma injustiça ou malvadez, sentia um quase irreprimível impulso para, por suas mãos, por suas mãos repor a ordem, a justiça e a harmonia em seu redor. Contra ele e contra a sua ambição pesava, portanto, um carácter turbulento e apaixonado que, entre o que lhe convinha fazer e o que fazia, tinha dificuldade em encontrar a medida justa, optando geralmente por aquilo que mais trabalhos e complicações lhe acarretavam.
Já idoso, quando falávamos junto à braseira da nossa casa, nas longas noites de Inverno, muitas vezes o ouvi lamentar esse peculiar aspecto da sua idiossincrasia. Porém, não me parecia que o fizesse com sincera compunção. Tenho a ideia de que, vergado ao peso dos anos e à saudade da juventude, lamentava antes já não possuir essa característica agressiva e audaz. Mais uma vez quase perdi o fio à meada. Adiante meu lindo corcel de palavras vãs! Ora bem, estava então Lourenço à porta do Falcão Azul…
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