Está quase a começar o ano lectivo e com ele a angústia social de quem gosta de especular sobre o lado de cá da escola, o lado visível de algum insucesso e alguma indisciplina.
O lado de lá da escola, o mais verdadeiro lado da escola, o lado das aprendizagens, o modo como está organizada, a participação dos alunos e dos pais na vida da escola. Esse lado parece que incomoda e na verdade incomoda saber-se que a escola ensina e educa os jovens e as crianças para amanhã serem cidadãos democráticos que respeitem as instituições democráticas e que sejam capazes de entender que a democracia não aparece já feita, é conquistada todos os dias através dos nossos actos. A escola tem que ensinar que a escola democrática existe porque muitas mulheres e muitos homens foram presos e torturados, que muitas crianças foram separadas das suas famílias para que os pais pudessem lutar pela liberdade estando na clandestinidade.
A Escola Democrática não abriu as portas e já está, estamos a viver em democracia!
Foram muitos os estudos, as realidades que se puseram em diálogo fervilhante para que se acertassem ideias, valores, para que se organizasse uma escola atendendo às realidades dos alunos, das famílias da comunidade.
Nos anos 80 a colocação dos professores era feita à mão…
Havia turmas com 15 alunos porque precisavam de um método diferente de ensino.
Os acontecimentos trágicos, destas últimas semanas, de violência entre menores com idade para andar na escola passaram-se na rua, sem escola à vista. Foram condenados por todos.
O que andavam a fazer na rua, de madrugada?
Como estavam alcoolizados?
Como é que um jovem de 15 anos vai a casa da namorada às 3 horas da manhã?
Se esta violência tivesse ocorrido no recreio da Escola, esta já teria sido apontada a dedo como responsável, porque não soube impedir que tal acontecesse.
Oxalá que destes lamentáveis exemplos começasse a pairar na cabeça da sociedade que não são as ruas e as escolas que fazem a violência, que não são os vizinhos ou amigos ou a escola que por si só impedem a violência, mas a sociedade à qual os jovens pertencem.
Ninguém ensina crianças e jovens para matar, mas estendem-lhes o tapete quando desvalorizam ou praticam a violência no seio das famílias.
Quando depois de tantos crimes expostos nos jornais e nas televisões se passa para outra notícia, como se a violência entre jovens fosse algo de normal, o que é normal são pequenas disputas entre eles.
E voltamos ao mesmo, não são os jornais nem as televisões que tornam os jovens violentos.
É sabido que a Violência acontece quando se lhe abre o caminho, e que violência gera violência.
Se houver uma arma em casa pode acontecer o pior…
Se a televisão apela às coisas boas através de actos que simulam violência, porque é que eu não hei-de sê-lo, também, porque quero algo que me é inacessível?
Se o pai bate na mãe sem que a sociedade exija uma sanção social porque é que o namorado não há-de bater na namorada?
E no meio de tudo isto se situa a Criança que cresce imitando.
E no meio de tudo isto se situa uma mãe que diz: não, não consigo impedir que a minha filha com 13 anos chegue a casa às tantas da manhã!
Mas que bom, as escolas vão abrir as suas portas para mais um ano lectivo, mais uma vez quando se discute o lado de lá da escola.
É suposto não haver violência nem na escola nem em casa. Mas a Escola não a controla e a família é o local onde há mais cenas de violência contra adultos e Crianças…

