EDITORIAL- UM «DITADOR DE ESQUERDA»

logo editorialEm 10 de Setembro de 1756, José I, assinou  a Lei proposta pelo Secretário de Estado do Reino (Chefe do Governo), Sebastião José de Carvalho e Melo, criando a primeira região demarcada no mundo para a produção de vinho – o do Douro, mais conhecido por «vinho do Porto», fundando  a  Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, classificadas pela  UNESCO como Património da Humanidade. A medida foi contestada violentamente, serviu de tema ao romance de Arnaldo Gama – Um motim ha cem annos: chronica portuense do seculo XVIII. que por seu turno permitiu a Miguel Franco escrever a interessante peça teatral O Motim. Porém, o Porto  talvez não fosse hoje uma das cinco maiores áreas metropolitanas da Península se esta medida que, obviamente, feriu interesses privados em benefício de um amplo leque de habitantes da região, não tivesse sido tomada. O Porto, que atraiu uma numerosa colónia britânica e proporcionou um desenvolvimento significativo da cidade. tem uma divida de gratidão para com o Marquês de Pombal. De Lisboa não é preciso dizer mais do que isto: deve-lhe a vida.

José Hermano Saraiva considerava que o Marquês e Salazar tinham sido os dois melhores chefes de Estado do nosso País. Não concordamos com a comparação nem com a conclusão dela extraída. Quanto a nós, a semelhança limitava-se ao despotismo com que ambos exerceram o cargo. Bem sabemos que quase dois séculos os separaram, mas parece-nos evidente a diferença de objectivos – Salazar foi um ditador timorato, que foi ao ponto de chamar democracia («orgânica») ao fascismo envergonhado com que conduziu a governação, num figurino que se inspirava no atraso aldeão e na hipocrisia de sotaina -o poder centralizado nas suas mãos, estava ao serviço das grandes famílias, do poder económico e das ordens vindas de Londres ou Washington; Sebastião José eliminou o poder jesuítico, castigou com desumana crueldade a conspiração contra o poder real, mas com o objectivo de promover o desenvolvimento social e económico do País; desprezava profundamente a codícia britânica – embaixador em Londres, recusava.se a falar inglês – enfim era um ditador, tal como Salazar.

Mas como Luiz Pacheco disse num artigo da «Pirâmide», um «ditador de esquerda».

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