CONTOS & CRÓNICAS – O Escritor da Semana – A IDADE DO GELO – por Carlos Loures/1

contos2 (2)Há cinquenta anos, nas cidades portuguesas, os cafés eram bastiões de cultura e local de encontro de grupos de intelectuais, as chamadas tertúlias. Nos cafés, principalmente nos de Lisboa, do Porto e Coimbra, se gizaram planos para a publicação de revistas, criaram-se editoras, estabeleceram-se acordos entre escritores e editores, em suma, os cafés eram plataformas culturais de grande valor na logística literária – O Café Gelo, no Rossio, que fora ponto de reunião dos carbonários que executaram o Regicídio de 1908, era um desses locais onde escritores e artistas se encontravam, davam largas ao tédio, mas criavam também – no Café Chiado, na Brasileira, no Chave d’Ouro, nasceram revistas, criaram-se grandes obras – Fernando Pessoa escreveu parte significativa da sua obra no Martinho da Arcada. […] A Idade do Gelo, constitui uma homenagem ao Café Gelo e a todos os outros onde se discutiam, criticavam, demoliam ou incensavam as novidades literárias, as edições recentes, muitas delas de obras criadas nas mesas dos cafés. A Idade do Gelo antecedeu a transformação desses locais onde se discutia literatura, onde se criavam revistas literárias – A Águia, Orpheu, Nova Renascença, Presença, Vértice, O Tempo e o Modo, Pirâmide… e onde se sonhava com a queda da ditadura e por vezes se organizavam revoluções. As agências bancárias ocuparam depois esses espaços que constituíam o habitat natural desse bicho bizarro a que se chama poeta.

(de A Idade do Gelo, obra inédita)

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