A CRISE AUSTERITÁRIA E A QUADRATURA DO CÍRCULO – REFLEXÕES SOBRE A CRISE DA ECONOMIA, DO PENSAMENTO ECONÓMICO E DA DEMOCRACIA – TEXTOS DE REFERÊNCIA PARA ENTENDER A REALIDADE PRESENTE – A) SATYAJIT DAS – A CORRIDA AO COLAPSO: PARTE 3. A INEFICÁCIA DA POLÍTICA ECONÓMICA.

Obrigado ao blog do tirloni.
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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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A Corrida ao Colapso. Parte 3: A ineficácia da Política Económica

Satyajit Das

Satyajit Das, The Ineffectiveness of Economic Policy

Economonitor, 28 de Março de 2016  

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photo: Nicolas Raymond

Embora o banco central e as políticas  governamentais  tenham estabilizado as condições, não restauraram  o crescimento nem  criaram  inflação suficiente para resolver os problemas do mundo da dívida. Como Helmuth von Moltke, um oficial do século XIX  do exército prussiano, observou: “nunca nenhum plano de batalha  sobrevive ao primeiro contato com o inimigo”.

Dado que a maior parte do crescimento recente foi dinamizado pelo  dívida que alimentava o consumo e o investimento, o crescimento mais lento do crédito previsivelmente afetou o nível de atividade económica. O crescimento mais lento da população, a falta de novos mercados com a maioria das Nações integradas no sistema de comércio global, as taxas mais lentas de inovação, a melhoria de produtividade mais lenta, o envelhecimento da população nas   nações desenvolvidas, o declínio no ensino de Ciências, os efeitos das  variações  climáticas  e a diminuição da taxa de rentabilidade  do  investimento em energia e na produção alimentar  tudo isto combinada com o disparar da   dívida irá limitar o crescimento durante   algum tempo.

Há também pouca  evidência a propósito de inflação, embora os preços dos ativos tenham aumentado  acentuadamente em resposta às baixas taxas de juro.

De uma perspectiva política, a inflação auxiliaria  na redução dos níveis de dívida, aumentando as taxas de crescimento nominal acima da taxa de juro nominal. Isso diminuiria o poder de compra, reduzindo o valor da dívida. Onde a dívida é  detida nas mãos de investidores estrangeiros,  a inflação  reduziria o valor da dívida através de depreciação da moeda. A inflação também poderia levar a mais  consumo, tanto quanto as pessoas aceleram o seu consumo  em antecipação de preços  mais elevados no futuro.

Decisores políticos temem a deflação. As receitas fiscais em geral iriam estagnar ou até mesmo cair. As descidas  de preços dos  ativos também reduziriam as receitas fiscais. Haveria uma apreciação do valor real da dívida. O elevado nível de endividamento implicaria ser cada vez mais difícil pagar o serviço da dívida, ou seja, a carga da dívida,  com graves consequências para o sistema bancário.

A premissa é que expandir a oferta monetária criará a inflação tal como um aumento da liquidez disponível pode levar a um aumento dos bens e serviços procurados causando assim aumento dos preços. Na prática, o processo é complexo, com um conjunto de condições adicionais para que se gere inflação.

Os bancos centrais controlam a base monetária, uma medida estreita da oferta monetária constituída pela moeda criada pelo banco central e em circulação  mais as reservas que os bancos comerciais mantêm no banco central. A relação entre a base monetária, a criação de crédito, o rendimento  nominal e a  actividade económica é instável. Enquanto a oferta de dinheiro aumenta, a velocidade de circulação  do dinheiro  pode diminuir.

A liquidez fornecida é detida  pelos bancos como excedente  de reservas junto dos  bancos centrais. Os bancos não aumentaram a concessão de crédito  refletindo este facto a falta de procura na concessão de  crédito  e uma vontade de não  emprestar por causa de constrangimentos sobre o capital ou ainda  outras restrições. As reduções na permissão de alavancagem dos bancos,  o aumentos nos custos de controlo  bancário sobre a liquidez  e as restrições quanto aos processos de transferência de risco, tais como titularização e produtos derivados, também afetam a circulação dos fundos. A redução da velocidade  de circulação do  dinheiro acaba por neutralizar o aumento nos   fluxos de dinheiro .

A inflação também requer  um desequilíbrio entre a oferta e a procura. Muitas das economias mais desenvolvidas têm um significativo “gap” (a diferença entre a produção máxima possível e a produção efectiva)  que varia de 2% a 8%, embora a sua dimensão seja  incerta devido a quedas na participação da força de  trabalho  que pode levar à redução na capacidade  produtiva. A diferença referida reflete uma procura menor  mas  revela também um  excesso de capacidade produtiva. Em muitas indústrias, tais como a  indústria automóvel,  as  considerações políticas e nacionais têm significado a  manutenção de operações não rentáveis. Isso  traduz–se em perda de capacidade competitiva e em baixa taxa de inflação pelos preços.

Economista Wynn Godley pode ter assumido uma posição  correta quando ele observou que: “os governos já não  podem controlar a massa monetária ou a moeda escritural dos bancos da mesma forma que um jardineiro não  pode controlar a direção de uma mangueira, agarrando o jato de água”.

Enquanto ineficaz em alcançar os resultados  pretendidos, as políticas atuais têm subprodutos tóxicos.

As políticas orçamentais  expansionistas deixaram muitos países com grandes níveis de dívida soberana. Embora haja um debate sobre o nível sustentável de empréstimos públicos  não há acordo quanto aos  níveis elevados da dívida  que podem afectar negativamente o crescimento.

Altos níveis de dívida pública também reduzem a flexibilidade e aumentam o risco de dificuldades financeiras. A rápida acumulação de dívida pública, na sequência dos acontecimentos de 2007 / 2008 restringe agora a capacidade de muitos governos para responderem  a novas crises.

Taxas de juro  vizinhas de zero e a QE   distorcem a actividade económica normal.

As baixas taxas de juros reduzem o rendimento dos aposentados a viverem das suas poupanças, levando assim à diminuição da sua procura. As baixas  taxas, de  uma forma perversa,  reduzem o consumo e aumentam a poupança uma vez que os mais baixos rendimentos das suas poupanças forçam muita gente a sentir-se obrigada a colocar mais de parte, para o seu fim de vida, para satisfazer as suas futuras necessidades.

As baixas  taxas  baixam  artificialmente o custo de capital, favorecendo a substituição do trabalho por bens de capital no processo de produção. A redução do nível de emprego resulta por seu lado na redução do rendimento e do consumo, ou seja reduz  a atividade económica.

O estratega de investimentos de CitiGroup  Robert Buckland argumenta que as  taxas baixas e a QE na verdade  reduzem o emprego e a atividade económica, o inverso pois do que seria de esperar. Estas políticas incentivam uma mudança na carteira de títulos, de obrigações para ações. Mas como os investidores estão à procura mais de rendimento  do que aplicar em  capital para o   crescimento através da aquisição de ações, então estes  investidores obrigam as empresas a aumentar os dividendos e a fazerem recompras.

Para responder a estas  pressões, as empresas aumentam  o fluxo de caixa e os  lucros pressionando os trabalhadores e reduzindo  o investimento para cortarem nos  custos. Isso aumenta o desemprego e reduz o consumo, mas aumenta o valor de mercado das ações.  As taxas baixas  aumentam o passivo não capitalizado dos fundos de pensão de benefícios definidos. Essas insuficiências, finalmente, retardam o crescimento da mesma forma que leva os  patrocinadores a desviarem  lucros para responderem  a essas obrigações futuras.

Baixas taxas  ‘zombificam’ a economia. As baixas taxas  permitem  que as fracas empresas sobrevivam, direcionando o fluxo de caixa para cobrir os juros sobre os empréstimos que nunca podem ser reembolsados, mas que os bancos não se podem dar ao luxo de amortizar. Isto condiciona o capital  e reduz os empréstimos para empresas produtivas, especialmente as PME, que são responsáveis por grande parte da atividade económica e do emprego. As empresas não dispõem  de  ou não reestruturam  os  investimentos. A destruição criativa e a realocação dos recursos necessários para restaurar o potencial de crescimento da economia não se verificam.

As taxas baixas  distorcem o investimento, encorajando riscos excessivos em busca de retornos mais elevados. Os prémios de risco caíram drasticamente para níveis não rentáveis em ações, ações que pagam  dividendos, dívida das sociedades, obrigações a rendimento elevado, títulos estruturados e outros ativos de risco.

A corrida para o re-risco  reduziu   os padrões gerais de concessão de empréstimos. As práticas que contribuíram para a crise financeira global, tais como redução das normas de concessão de empréstimos reapareceram  impulsionadas por investidores em busca de rentabilidades adicionais.  A concessão de  empréstimos com  baixas proteções de risco  para os credores  estão a dinamizar  um ressurgimento da actividade de investimentos em títulos de capital sobre empresas de capital privado. Os empréstimos para pagar dividendos aos investidores em transações de capital privado também aumentaram. Mesmo os empréstimos subprime  e as titularizações, em automóveis e imóveis comerciais,  também se  tinham reiniciado. Estes riscos são agravados pelos contínuos elevados níveis de alavancagem promovidos pelas instituições financeiras.

Muitos mercados de ações nos países desenvolvidos, liderados pelos EUA, recuperaram  para os níveis anteriores à crise. Ao falar deste facto  ignorou-se   a base da recuperação, que foi o excesso de liquidez que tinha sido injetado na economia global pelos  bancos centrais.

As taxas baixas,  representando  uma  avaliação incorreta de risco e dos  níveis de endividamento excessivo que foram  as causas da crise,  são consideradas agora a ‘solução’. É uma reminiscência da observação do crítico vienense Karl Krause sobre  a psiquiatria: “a doença que se disfarça como sendo a cura”.

Satyajit Das, EconoMonitor, The Ineffectiveness of Economic Policy. Texto disponível em:

http://www.economonitor.com/blog/2016/03/part-3-the-ineffectiveness-of-economic-policy/

 

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