
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

As crises económicas do mundo estão a entrar numa fase política – e os resultados podem ser perigosos

Os historiadores concluíram que a destruição das classes médias foi crucial para o erguer do fascismo, comunismo e militarismo a seguir à grande depressão. Não podemos deixar que a história se repita.
Satyajit Das, The world’s economic crises are entering a political stage – and the results could be dangerous
Independent, 24 de Julho de 2016

Na natureza, as fases de transição descrevem mudanças nos estados da matéria. Dependendo da temperatura, H2O pode existir como sólido (gelo), líquido (água) ou gás (vapor de água). As crises sociais comportam-se da mesma forma. Hoje, os nossos problemas económicos têm-se estado a transformar nas suas fases sociais e políticas.
As questões económicas são bem compreendidas. O crescimento arrasta-se e a inflação é baixa. A tentativa de impulsionar a atividade econômica utizando a dívida e a financeirização criou um enorme sobreendividamento que se está a provar ser intratável. A melhoria da produtividade diminuiu. O crescimento do comércio internacional e dos fluxos de capital, que sustentavam uma crescente prosperidade, está a abrandar. Os sistemas jurídicos, o que supõe um crescimento forte e demografia diferente, agora estão comprometidos.
Na sequência da crise económica de 2008, os níveis de dívida do governo em muitas economias avançadas disparou quando os governos procuraram resgatar o sistema financeiro e dinamizar a procura . A cura – na forma de uma velha bomba de deflagração de pedaços de ferro, é o corte na taxa de juros e mais políticas monetárias não convencionais (QE e taxas de juros negativas) – não têm resolvido a patologia subjacente dos problemas. Há efeitos colaterais, tais como valores de ativos inflacionados e mais fraquezas do sistema financeiro.
Os problemas económicos expuseram questões sociais existentes desde longa data. A preocupação sobre o emprego, especialmente sobre a qualidade dos empregos e sobre a estagnação dos rendimentos criou uma reação contra a globalização e o comércio internacional. A contenção dos serviços sociais tem afetado os padrões de vida de muita gente.
Angela Merkel insiste em que o artigo 50 sobre a saída da Grã-Bretanha da UE deve ser acionado antes da existência de conversações.
O acesso à habitação diminuiu devido, em parte, aos valores inflacionados das casas, resultantes de excesso de liquidez. Os planos de poupança e de reforma em muitos países estão ameaçados por baixas taxas de juros em investimentos seguros. A desigualdade e a concentração de riqueza tem estado a aumentar.
Os problemas entraram agora numa fase política. As respostas políticas colocam uma parte desproporcionada do ajustamento sobre os menos abastados e idosos. Os altos níveis de desemprego e os elevados custos de Educação a subirem têm assim diminuindo as oportunidades de emprego para os jovens. A incapacidade dos governos para cumprir as promessas para restaurar o crescimento e a prosperidade em troca do sacrifício também tornou-se bem evidente.
A ascensão de movimentos populistas e o crescimento do nacionalismo e da xenofobia em muitos países, reflete bem esta insatisfação. O Brexit é um sintoma bem evidente dessas pressões.

Nos próximos meses, essas mesmas forças estarão bem presentes num número de eventos-chave. Vai ser o plano de fundo para a eleição presidencial dos Estados Unidos, onde as campanhas de Bernie Sanders e Donald Trump tem canalizado essas preocupações de maneiras diferente.
A Itália está programada para realizar um referendo constitucional em outubro de 2016. O Primeiro-Ministro Matteo Renzi, que já está sob crescente pressão do partido anti-UE cinco estrelas, ameaçou demitir-se se as suas reformas forem rejeitadas. Um longo caminho tem estar ser percorrido em situação de forte crise também coloca em perigo o governo. O regime bancário da UE requer que haja redução do valor da dívida e em que esta poderá atingir de forma politicamente séria os pequenos investidores. Mas, se o governo italiano se movimentar para apoiar os bancos diretamente, entrará então em conflito direto com a própria União Europeia.
A Espanha não tem um governo desde dezembro de 2015, depois de duas eleições como um eleitorado dividido de tal forma não conseguiu fornecer um mandato claro. As eleições estão marcadas para 2017 na Alemanha e na França, onde os partidos de extrema-direita têm aproveitado o descontentamento popular para aumentar o seu peso político.
Um certo número de nações europeias orientais planeia plebiscitos sobre a imigração, o que irá exacerbar as divisões internas da UE.
Mesmo se se têm poucas probabilidades de ganhar o poder, os partidos da extrema-direita e da extrema-esquerda estão a reformular a agenda política. O UKIP (que, lembre-se, tem apenas um membro eleito na Câmara dos Comuns) foi influente no referendo UE. Enfrentando um retrocesso de eleitorado, partidos políticos tradicionais estão a ser forçados a alterar políticas de finanças públicas, do comércio internacional, da imigração, da coordenação internacional e da soberania nacional.
A reação política ao Brexit é bem reveladora. Há sugestões que estratagemas legais e parlamentares devam devem ser usados para anular o resultado do plebiscito na Grã-Bretanha. Os políticos argumentam que uma questão complexa foi reduzida a uma absurda simplicidade. Uma maioria simples daqueles que votaram tinham uma base cultural muito baixa. As decisões importantes não devem ser tratadas e decididas por eleitores mas deixados para os funcionários eleitos e informados assim como para os especialistas para se evitarem assim más escolhas. Existem propostas em que somente as pessoas que se encontrem respeitar um padrão cultural mínimo devem ser autorizadas a votar. (Para que conste, 36 por cento dos eleitores votaram LEAVE – um nível mais elevado do que o voto necessário em anos recentes para alcançar a posição política mais poderosa do planeta: a Presidência dos EUA.)
A repressão para suprimir a dissidência em alta é imprudente. Os políticos devem resolver os problemas profundamente instalados ou mesmo incrustados no sistema económico e social. Os dirigentes políticos devem lidar com grandes faixas da população que teme pelo seu futuro e dos filhos e netos Eles devem abordar as preocupações dos cidadãos com se sentem furiosamente humilhados, ignorado e cheios de incerteza em termos de identidade.
Como Winston Churchill observou, a democracia, enquanto longe de ser um sistema perfeito, é a pior forma de governo, com exceção de todas as outras alternativas que têm sido tentadas.
Na natureza, há uma quarta fase da matéria – plasma – que ocorre a temperaturas muito elevadas. Pode ser instável e mortal. As crises políticas, se não controladas, podem igualmente tornar-se perigosas.
Analisando a Grande Depressão, os historiadores chegaram à conclusão que a destruição das classes médias foi crucial para a ascensão do fascismo, do comunismo e do militarismo. Os cidadãos descontentes que perderam os seus empregos, as suas poupança e a sua esperança viraram-se para os demagogos populistas à procura de salvação.
Políticos e os responsáveis pela formulação das políticas nas economias avançadas devem ser cuidadosos para que a história não se repita.
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