PS: um partido a caminho da irrelevância e possível desintegração.
A recente notícia de que José Sócrates foi convidado para protagonizar uma palestra na Universidade de Verão da JS de Lisboa e do Departamento Federativo das Mulheres Socialistas, o que aconteceu a 23 de Setembro, é apenas mais um sinal da degradação do Partido Socialista.
Sabe-se que José Sócrates é arguido e principal suspeito na chamada Operação Marquês, que investiga crimes gravíssimos de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção.
É um facto que até sentença transitada em julgado se presume a sua inocência. Além disso, reconhece-se ao ex-líder socialista o direito de intervir da forma que entender para defender a sua posição.
Só que José Sócrates não é apenas um cidadão como milhões de outros. Ele foi Primeiro-Ministro e foi líder do PS. Mandaria o bom senso, para não invocar racionalidade, que por isso ele se mantivesse afastado do Partido Socialista, limitando a sua intervenção de natureza política enquanto aguarda o desfecho do seu processo com a Justiça.
Não cabe ao PS colocar-se ao lado do ex-líder para supostamente o ajudar na sua defesa pública, pois com essa escolha o PS assume oficiosamente que o processo contra José Sócrates é uma cabala, objectivamente tomando partido num processo judicial, no qual não deve tomar posição. Não é a primeira vez que o PS assume uma postura desta natureza face a um dirigente alvo de suspeitas da prática de crimes graves.
O PS deve apostar no funcionamento da Justiça e aguardar que ela actue, como parece ser a posição do seu Secretário-Geral, António Costa.
Por isso, é incompreensível que no PS haja este tipo de posições quando o seu líder tem procurado manter o processo de José Sócrates longe do PS.
Este acontecimento mostra que dentro do PS há grupos que procuram de forma ardilosa colocar o líder e os militantes sob ameaça de um futuro ajuste de contas, que ocorrerá caso José Sócrates saia ilibado de todas as acusações, fazendo pagar caro aos que não assumiram a sua defesa.
Há ainda muitos socialistas que mantêm simpatia pelo ex-líder e esperança de que esteja totalmente inocente, sem se darem conta de que José Sócrates se tornou definitivamente tóxico para o PS.
Com efeito, independentemente do resultado final do processo em que é arguido, tornou-se hoje claro que José Sócrates não é a personalidade que muitos portugueses chegaram a pensar que era. O seu percurso político, profissional e académico, os seus amigos e a vida que fez depois de sair do governo, está pejado de mentiras, processos e ligações não recomendáveis. Isto já não é hoje simples matéria de especulação jornalística!
Infelizmente para a democracia portuguesa, o PS segue um caminho de autodestruição ou irrelevância política, como o que aconteceu com os socialistas gregos, socialistas ingleses, franceses, holandeses e aqui ao lado na vizinha Espanha, nesta última com contornos de aberração política, com um líder que se mantém no cargo depois de derrotas sucessivas.
Contudo, esta evolução não é exclusiva do PS.
Com efeito, tendo ainda um PSD com uma liderança que definitivamente não atingiu a maturidade política, Portugal tem hoje, precisamente num dos momentos mais críticos da sua história, uma situação trágica com a falta de qualidade e patriotismo das lideranças dos seus dois maiores partidos.
Esta situação é trágica porque estes são dois partidos que têm dividido a governação do País nas últimas décadas, a que ultimamente se juntou o CDS, que contribuíram para a construção de um País que é em boa parte uma mentira, como continuam a não ser capazes de dizer aos portugueses a gravidade da situação que hoje se vive e das perspectivas futuras, mostrando-se sistematicamente incapazes dum mínimo de humildade e consenso nacional.
A degradação do PS é, assim, inexorável, com os militantes com maiores responsabilidades calados, como é tradicional, aparecendo apenas nas fases de crise interna declarada para se reposicionarem para um novo ciclo.